|
ARTISTAS ATARI
A-ha faz show em São Paulo
com todo o carisma de um fiorde norueguês
por Marcio
Caparica (marciocaparica@hotmail.com)
e Julia Moióli (jumoioli@lycos.com)
 ala
a verdade: até há um mês, você nem se
lembrava quem era o A-ha.
Ou melhor, talvez se lembrasse que esse era um grupo norueguês,
que fez muito sucesso na década de 1980 com hits como
"Take on Me" e aquela música da propaganda do chocolate
Laka, "Crying in the Rain". Mas esse era apenas mais um
dos grupos que estavam guardados no limbo de onde não se
esperava que saíssem.
Não deixa de ser surpreendente, então,
a aparição do grupo aqui no Brasil na semana passada,
para fazer dois shows em São Paulo, no Credicard Hall, mais
um na Festa do Peão de Barretos. "Como assim, eles ainda
existem?" era a indagação de grande parte das
pessoas que viam os anúncios dos shows da banda.
Sem menosprezar os fãs de plantão
e o sucesso que o A-ha fez no final da década de 1980 e começo
dos anos 90, as apresentações pareciam fadadas àqueles
pequenos e restritos grupos de pessoas que ainda acompanham fielmente
os passos da banda: os fã-clubes. Ledo engano. Na noite de
quinta-feira, o Credicard Hall estava cheio. O estacionamento interno,
lotado. A pista, amontoada de pessoas que ainda sabiam de cor letras
de músicas - façanha que, suponho eu, nem mesmo os
membros da banda seriam capazes de realizar sem alguns meses de
estudo antes de retomarem os shows.
E
no palco? Bem, ali estava o A-ha que todo mundo conhece, o A-ha
de sempre. Os rostos eram os mesmos - é incrível como
o vocalista não envelhece e como a calça dele nunca
alarga. As batidas lights continuavam iguais e até
aquele rockzinho metido à pesado que agitava os adolescentes
dos idos dos 80 não mudou em nada. Mas por que, então,
a apresentação do A-ha não teve a mesma graça?
Primeiro porque a banda fez um showzinho morno e
deixou de fora vários sucessos, como "Cry Wolf",
"Crying in the Rain" e "Touchy!". Segundo, poucas
músicas traziam aquele tecladinho no mais puro estilo MIDI
a que todos estavam acostumados. Como se quisessem provocar, a banda
utilizou seus sonzinhos eletrônicos nas primeiras canções,
"Minor Earth Major Sky", "Forever Not Yours"
e "Lifelines", de seu novo álbum Lifelines
e totalmente desconhecidas do ouvinte médio, e fizeram versões
quase acústicas de suas músicas mais populares, como
"Dark Is the Night" e "I've Been Losing You".
É, meus caros, era por isso que gostávamos
do A-ha. Eles eram a tão amedrontadora década de 80.
É certo que a banda tinha um quê um pouco mais clean
(se é que é possível usar essa palavra), mas
ainda eram parte do tempo do Atari. Aí é que mora
o perigo. O A-ha parece nunca ter se desvencilhado dessa época.
Podemos ser acusados de injustos, mas duvido que a maioria das pessoas
saiba dizer - menos ainda cantar - alguma música que não
faça parte da época áurea. "Cry Wolf"?
1986. "Touchy!"? 1988. É difícil fugir disso
- até porque a banda passou por uma longa separação
de sete anos. E isso não seria problema algum. Continuamos
todos gostando de bandas finadas. Mas aí vem o A-ha, sai
da gélida Noruega, atravessa o Atlântico, chega na
longínqua São Paulo, faz uma apresentação
média para seus fãs brasileiros, troca os arranjos
conhecidos, transformando os hits em baladinhas insossas,
e ainda por cima deixa de lado várias músicas que
todo mundo esperava ouvir... E os fãs que enfrentaram um
tremendo congestionamento na Marginal Pinheiros para atravessar
a cidade e conseguir chegar ao longínquo Credicard Hall?
Sinceramente, por mais que traga lembranças de nossa pré-adolescência,
é difícil de engolir.
Também
não ajudou nada a quase total falta de carisma da banda.
Os três integrantes do grupo têm tão pouca presença
de palco que muitas vezes é preferível vê-los
no telão a se esforçar para distingui-los no tablado.
Infringindo a regra quase universal que diz que o vocalista é
a figura mais simpática da banda, Morten Harket fazia pouco
além de sua função de dar voz às canções
do grupo, atingindo impecavelmente agudos altíssimos que
deviam ser proibidos para qualquer homem que já passou da
puberdade. Como se quisesse compensar a pasmaceira do grupo, a backing
vocal Anneli
Drecker pulava, agitava seu pandeiro e fazia sinais para a platéia
com uma animação que só ela sabia de onde vinha.
O tecladista Magne Furuholmen também se esforçou,
mas foi em vão. Murmurou algumas palavras em português
(como todo cantor gringo que se preze) e ainda agitou uma bandeira
do Brasil.
Vivendo do sucesso que fez há quase dez anos,
o A-ha tem grandes chances de entrar para o clube das celebridades
internacionais que só fazem sucesso no Brasil. Sua presença
na Festa do Peão de Barretos, mais o show em Porto Alegre
que foi adicionado à turnê na última hora são
grandes indícios disso. Se eles voltarem daqui a um ano,
que pelo menos toquem todos os seus sucessos. Talvez assim eles
cheguem um pouco mais perto das apresentações que
fizeram por aqui em 1991, recordes de público e, segundo
os próprios, algumas das melhores de sua carreira.
Set List - 15/8
"Minor Earth Major Sky"
"Forever Not Yours"
"Lifelines"
"I've Been Losing You"
"Time And Again"
"Summer Moved On"
"Did Anyone Approach You"
"Dark Is The Night" (interpretada por Anneli Drecker)
"Stay On These Roads"
"Hunting High And Low"
"Locust"
"Scoundrel Days"
"Take On Me"
"The Living Daylights"
"You Wanted More"
"The Sun Never Shone That Day"
"The Sun Always Shines On TV" 
|