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ROCK DE RECONSTRUÇÃO
Bruce Springsteen fala sobre o 11
de setembro em álbum mais que universal
por Leopoldo
Godoy (leogodoy@hotmail.com)
 eia-noite,
início do dia 11 de setembro de 2001. Era lançado
oficialmente o disco Love and Theft, de Bob Dylan, que viria
a ser o último grande álbum produzido ainda no espírito
do século XX. Pois oito horas e 46 minutos mais tarde, um
avião iria se chocar com a torre norte do World Trade Center,
tirando o mundo de um estado letárgico de aparente tranqüilidade
e abrindo as cortinas do novo milênio. Um novo universo de
disputas e preocupação estava sendo inaugurado naquele
fatídico dia, que colocou por terra teorias, certezas, ideais...
Tudo caducou.
O mesmo 11 de setembro é o tema do álbum
The Rising, de Bruce Springsteen. É o primeiro trabalho
da cultura pop essencialmente nouveau siècle. Mas
longe de ser uma exploração barata da tragédia
americana, The Rising é um disco de muita sensibilidade,
com tons de poesia misturados com o rock cru e basicão do
cantor e compositor. Se alguém seria capaz de homenagear
a data sem ser cafona, esse alguém é Springsteen.
Mesmo depois de sete anos sem lançar um trabalho de músicas
novas e inéditas, "The Boss" não perdeu
a mão. The Rising está na mesma liga dos melhores
discos de Bruce, como Born to Run e Nebraska.
Por mais que tenha mergulhado nas histórias
dos atentados, Springsteen não deixou de contemplar-nos com
um disco universal. Cada música está repleta de camadas.
Vamos pegar minha predileta, "Empty Sky": superficialmente,
é a história de alguém que perde seu amor no
WTC e que olha para o espaço onde antes estiveram as torres,
mas vê apenas um vazio no céu. "Quero olho por
olho", conclama, vingativo. Mas a música não
termina aí. O sentimento do vazio no céu é,
metaforicamente, o mesmo que o vazio na cama do narrador, abandonado
por alguém que saiu sem deixar um beijo sequer. O "sangue
do meu sangue", chorando nas ruas, é a decepção
humana com a vida pós-moderna, sem objetivos, sem rumo, sem
perspectiva.
Outra
música multifacetada é "My City of Ruins".
Poucas semanas depois dos atentados, Bruce abriu o show de TV America:
a Tribute to Heroes com essa canção. Mais óbvio
do que isso, impossível: a música só pode ter
sido composta após os atentados! "Ruas vazias, meu irmão
está de joelhos, e minha cidade está em ruínas.
Ouço o som do órgão, mas toda a congregação
foi embora". Com o lançamento de The Rising,
Springsteen conta que a música já estava pronta há
algum tempo, e era uma triste crônica sobre Asbury Park, a
pequena cidade de Nova Jersey que Bruce aprendeu a amar. Assim como
é uma música sobre a devastação da Nova
Jersey industrial, paixão da minha amiga Laura, é
sobre o terror e a tristeza dos nova-iorquinos, é sobre a
saturação urbana de São Paulo, envolta em uma
guerra social interminável, é sobre a minha Bauru,
definhante, privada de sua linha de trem e de seu time de futebol...
É claro que o 11 de setembro foi o catalisador
que provocou a gestalt destas canções. Inegável
o talento de Bruce em construir canções definitivas,
hinos que pontuam cada momento trágico da história
de seu país. Foi assim com "Born in the USA". Injustamente
utilizada como símbolo da era Reagan, é uma obra-prima
de crítica social, anti-belicista e arrasadora. É
o veterano que enterra o irmão no Vietnã e volta para
um país que o abandonou. "Filho, você não
entende?", é a resposta que lhe dão quando ele
procura um emprego. Desilusão, desconforto, a sensação
de estar no lugar errado na hora errada. É, o mundo não
mudou nada mesmo.
Mas
The Rising não é pessimista. Em algumas canções,
Springsteen quer mudanças, quer ver a humanidade colocar
para trás suas diferenças e os capítulos tristes
de sua história. Exemplo disto é a canção
que empresta o título ao disco. É um convite à
reconstrução dos EUA, do mundo e da vida que há
muito temos destruído. Em outras faixas, quer apenas seguir
vivendo, esquecer as tragédias para tentar gozar a vida.
Como cronista, Bruce notou a fragilidade benéfica das pessoas
após os atentados. "Não sei quando teremos esta
chance, e os bons tempos sempre arrumam um jeito de acabar. Tenho
te observado há um bom tempo, sabia?". Sexo como terapia.
O mesmo tema de "Thunderoad", lá em 1975.
Mais do que universal, The Rising é
um disco simples, rock sem frescuras. Mostra Springsteen em grande
forma, fazendo turnês (nada de Brasil, pena) e brincando com
sua guitarra como se fosse um adolescente. O que é melhor:
passa longe da patriotada que poderia se esperar de um tributo ao
11 de setembro. Springsteen, ícone americano, é inteligente
demais para se perder em babaquices nacionalistas. De cego já
basta o presidente W. A música do século XXI não
poderia ter sido inaugurada de forma melhor. 
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