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22 de agosto a 4 de setembro de 2002


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ROCK DE RECONSTRUÇÃO
Bruce Springsteen fala sobre o 11 de setembro em álbum mais que universal

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

eia-noite, início do dia 11 de setembro de 2001. Era lançado oficialmente o disco Love and Theft, de Bob Dylan, que viria a ser o último grande álbum produzido ainda no espírito do século XX. Pois oito horas e 46 minutos mais tarde, um avião iria se chocar com a torre norte do World Trade Center, tirando o mundo de um estado letárgico de aparente tranqüilidade e abrindo as cortinas do novo milênio. Um novo universo de disputas e preocupação estava sendo inaugurado naquele fatídico dia, que colocou por terra teorias, certezas, ideais... Tudo caducou.

O mesmo 11 de setembro é o tema do álbum The Rising, de Bruce Springsteen. É o primeiro trabalho da cultura pop essencialmente nouveau siècle. Mas longe de ser uma exploração barata da tragédia americana, The Rising é um disco de muita sensibilidade, com tons de poesia misturados com o rock cru e basicão do cantor e compositor. Se alguém seria capaz de homenagear a data sem ser cafona, esse alguém é Springsteen. Mesmo depois de sete anos sem lançar um trabalho de músicas novas e inéditas, "The Boss" não perdeu a mão. The Rising está na mesma liga dos melhores discos de Bruce, como Born to Run e Nebraska.

Por mais que tenha mergulhado nas histórias dos atentados, Springsteen não deixou de contemplar-nos com um disco universal. Cada música está repleta de camadas. Vamos pegar minha predileta, "Empty Sky": superficialmente, é a história de alguém que perde seu amor no WTC e que olha para o espaço onde antes estiveram as torres, mas vê apenas um vazio no céu. "Quero olho por olho", conclama, vingativo. Mas a música não termina aí. O sentimento do vazio no céu é, metaforicamente, o mesmo que o vazio na cama do narrador, abandonado por alguém que saiu sem deixar um beijo sequer. O "sangue do meu sangue", chorando nas ruas, é a decepção humana com a vida pós-moderna, sem objetivos, sem rumo, sem perspectiva.

Outra música multifacetada é "My City of Ruins". Poucas semanas depois dos atentados, Bruce abriu o show de TV America: a Tribute to Heroes com essa canção. Mais óbvio do que isso, impossível: a música só pode ter sido composta após os atentados! "Ruas vazias, meu irmão está de joelhos, e minha cidade está em ruínas. Ouço o som do órgão, mas toda a congregação foi embora". Com o lançamento de The Rising, Springsteen conta que a música já estava pronta há algum tempo, e era uma triste crônica sobre Asbury Park, a pequena cidade de Nova Jersey que Bruce aprendeu a amar. Assim como é uma música sobre a devastação da Nova Jersey industrial, paixão da minha amiga Laura, é sobre o terror e a tristeza dos nova-iorquinos, é sobre a saturação urbana de São Paulo, envolta em uma guerra social interminável, é sobre a minha Bauru, definhante, privada de sua linha de trem e de seu time de futebol...

É claro que o 11 de setembro foi o catalisador que provocou a gestalt destas canções. Inegável o talento de Bruce em construir canções definitivas, hinos que pontuam cada momento trágico da história de seu país. Foi assim com "Born in the USA". Injustamente utilizada como símbolo da era Reagan, é uma obra-prima de crítica social, anti-belicista e arrasadora. É o veterano que enterra o irmão no Vietnã e volta para um país que o abandonou. "Filho, você não entende?", é a resposta que lhe dão quando ele procura um emprego. Desilusão, desconforto, a sensação de estar no lugar errado na hora errada. É, o mundo não mudou nada mesmo.

Mas The Rising não é pessimista. Em algumas canções, Springsteen quer mudanças, quer ver a humanidade colocar para trás suas diferenças e os capítulos tristes de sua história. Exemplo disto é a canção que empresta o título ao disco. É um convite à reconstrução dos EUA, do mundo e da vida que há muito temos destruído. Em outras faixas, quer apenas seguir vivendo, esquecer as tragédias para tentar gozar a vida. Como cronista, Bruce notou a fragilidade benéfica das pessoas após os atentados. "Não sei quando teremos esta chance, e os bons tempos sempre arrumam um jeito de acabar. Tenho te observado há um bom tempo, sabia?". Sexo como terapia. O mesmo tema de "Thunderoad", lá em 1975.

Mais do que universal, The Rising é um disco simples, rock sem frescuras. Mostra Springsteen em grande forma, fazendo turnês (nada de Brasil, pena) e brincando com sua guitarra como se fosse um adolescente. O que é melhor: passa longe da patriotada que poderia se esperar de um tributo ao 11 de setembro. Springsteen, ícone americano, é inteligente demais para se perder em babaquices nacionalistas. De cego já basta o presidente W. A música do século XXI não poderia ter sido inaugurada de forma melhor.