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CONTO DE FADAS
Entrevista com a poetisa Martha Medeiros
por Ana Lira
(ana_lira@terra.com.br)
 os
41 anos, completados em 20 de agosto, Martha Medeiros tem muito
que comemorar. Desde o lançamento de seu primeiro livro,
Strip Tease, em 1985, ela vem vivendo bons momentos em sua
carreira e hoje é uma das escritoras mais festejadas de sua
geração. Poetisa e cronista, Martha tem como projeto
futuro escrever um romance. Para o ano que vem, ela prepara uma
novela e mais um livro de poesias, aguardado ansiosamente pelos
inúmeros fãs da gaúcha. Atualmente ela desfila
seu talento como colunista do jornal Zero Hora, de Porto
Alegre, e do canal Almas
Gêmeas, do Terra, onde escreve sobre relacionamentos.
Nesta conversa com o Rabisco, ela fala
de sua trajetória, da dificuldade de fazer poesia no Brasil,
do relacionamento com seus leitores e de seus poetas favoritos,
com toques de intimidade que só Martha Medeiros tem.
Você é uma das autoras mais elogiadas da nova geração.
A que você atribui essa identificação do público
e da crítica com a sua obra?
É difícil justificar esse sucesso que a mim, sinceramente,
surpreende. Acho que é por causa dos assuntos abordados,
que têm muito a ver com o cotidiano de todo mundo, e também
pela linguagem acessível, que estabelece uma espécie
de "bate-papo" com o leitor.
O fato de você ser colunista do Almas Gêmeas
aproxima o público?
O Almas Gêmeas possibilita que eu me comunique com
um público mais jovem e espalhado pelo Brasil inteiro, não
apenas concentrado no Rio Grande do Sul.
Em abril deste ano, você publicou o texto "Sabor de Arco-Íris",
na sua coluna
no Zero Hora, comentando a experiência de conversar
sobre leitura com alunos de um maternal. Como surgiu o convite para
este encontro?
Eu costumo visitar escolas para conversar com alunos do ensino fundamental
e médio, mas nunca havia ido a um maternal. Fui convidada
porque minha filha (6 anos) estuda lá, então como
os professores me vêem toda hora, aproveitaram para fazer
a proposta. Fiquei meio aflita: o que conversar com alunos tão
pequenos, que ainda nem sabem ler? Mas valeu, foi uma experiência
poética.
Se outros autores aceitassem este desafio,
de dar palestras a respeito da leitura, o número de leitores
aumentaria? Que outros meios podem ser utilizados para incentivar
o hábito de ler?
Muitos autores visitam escolas
atualmente, e acho que isso ajuda, sim, a incentivar a leitura.
Mais ainda: acho que isso desmistifica a figura do escritor, mostra
pra garotada que somos de carne e osso, iguais a eles, e que eles
também podem um dia escrever e publicar, que isso não
é tão utópico. Mas para isso, precisam ler
muito. O hábito da leitura é incentivado na escola
mas eu também acho que a família deve colaborar. O
ideal é a criança estar familiarizada com o livro
desde que nasce.
Você participou de eventos para incentivo
à leitura ultimamente? Quais?
Durante o mês de junho
eu estive em Rio Grande visitando uma biblioteca que leva o meu
nome (olha que máximo!) e conversei com a comunidade sobre
meu trabalho, sobre a importância do livro, etc. Estive numa
escola de São Leopoldo também.

Como as pessoas reagem em uma conversa com você? Elas te procuram
para dividir experiências ou te tratam como uma espécie
de guru?
Pessoalmente, as pessoas se aproximam
com rapidez e educação, apenas para elogiar o trabalho
ou pedir um autógrafo. É muito gratificante. Mas por
e-mail muda tudo: as pessoas descrevem toda a sua vida, contam coisas
íntimas, pedem conselhos, enfim, confundem um pouco a minha
profissão, acham que além de escritora sou psicóloga
ou conselheira sentimental. Procuro não misturar as coisas,
não dou conselhos, seria irresponsabilidade minha, já
que não conheço quem está do outro lado da
tela.
Você já passou pela experiência
de receber poesias dos seus leitores para analisar? Como você
procede?
Isso acontece o tempo inteiro,
e admito, acho chato. Primeiro: a maioria dos poemas são
ruins, como os meus também foram um dia. E segundo: tenho
receio de dizer isso para o pessoal e desestimulá-los, afinal,
quem sabe mais tarde o talento não desabrocha? Quem sou eu
para cortar o barato deles? Eu geralmente aconselho a pessoa a continuar
escrevendo, sem pressa para publicar. Mas sei que eles se frustram
com isso, esperam é que eu diga que eles são o novo
Drummond. Nunca são.
Quando você começou a escrever?
Como foi tua trajetória? Quem foi sua principal influência?
Eu sempre gostei de escrever, desde garota. Aos 22 anos, mandei
uns poemas para a editora Brasiliense avaliar, pois eles editavam
a coleção Cantadas Literárias, da qual
eu era fã. Comecei a me corresponder com o dono da editora,
o Caio Graco Prado, que já faleceu, e depois de um tempo
ele topou editar meu primeiro livro. Como eu digo: foi conto de
fadas. Naquela época nem tinha internet, eu mandava os poemas
pelo correio junto com uma carta, e ele me respondia à mão
também. Aí foi lançado o Strip-Tease,
em 85, na coleção dos meus sonhos, Cantadas Literárias.
Nem acreditei. O livro vendeu direitinho, em se tratando de uma
estreante totalmente desconhecida. Depois foi mais fácil
editar o segundo, o terceiro livro... As portas já estavam
abertas. Quanto à influência, sempre li Mario Quintana,
mas comecei a me entusiasmar mesmo quando comecei a ler Paulo Leminsky,
Alice Ruiz, Chacal, Cacaso... foi através deles que descobri
que poderia escrever poesia também.
Como é a experiência de fazer
poesia no Brasil? Existe abertura, apoio, ou sistema ainda está
atado aos poetas considerados tradicionais?
No meu caso, as coisas aconteceram
como num conto de fadas, nem me cito como exemplo, pois sei como
é irreal alguém ser descoberto do nada e conseguir
editar. Mas a realidade é que se lê pouca poesia no
Brasil, e consequentemente as grandes editoras colocam poucos títulos
no mercado, já que não vende tanto. Sobra para as
pequenas editoras investir em poetas novos, publicando livros de
menor tiragem. O mercado não está parado, mas o poeta
precisa correr atrás mais do que o romancista. É preciso
paciência e persistência.
O processo de aceitação pelas
editoras é difícil? O que você sugere a quem
está começando?
É difícil cair
nas graças de uma editora, sim, porque elas recebem muitos
originais, todo mundo resolveu ser escritor, é aparentemente
mais fácil do que ser ator, músico ou dançarino.
Escrever, todo mundo sabe, né? Então as editoras recebem
quilos de material e o processo se banaliza. Se eu estivesse começando
hoje, faria uma oficina de literatura, acho que é um caminho
mais profissional e com mais chances de obter resultado.
O mercado de venda de livros foi aquecido, nos últimos cinco
anos, pela entrada de algumas editoras no ramo de pocket books.
Qual a sua opinião sobre este formato?
Eu sou superfavorável. Claro que prefiro os livros maiores
e com melhor acabamento, mas isso é luxo. O pocket
é mais acessível, prático e coloca à
disposição clássicos da literatura. Muitos
grandes autores eu li pela primeira vez num livro de bolso.
Que benefícios este tipo de publicação
traz para o público leitor?
Os já citados: são
baratos e fáceis de carregar. Quanto tempo a gente perde
em congestionamentos, em salas de espera, etc? Um livro dentro da
mochila é tudo o que a gente precisa.
E para quem não tem costume de ler?
Você acredita que o novo formato pode aproximar estas pessoas
da leitura?
Acho que não. Quem não
gosta de ler, não vai ler nem de bolso nem nenhum outro.
O formato não incentiva a leitura, ele facilita a leitura.

Sua obra, Poesia Reunida, foi lançada neste formato.
Como tem sido a resposta do público? Você acha que
sendo publicada neste formato a obra pode alcançar leitores
que raramente teriam oportunidade de ler poesia?
O livro foi lançado há uns três anos e segue
vendendo. É vendido até em farmácias! Eu apóio.
Claro que isso tira um pouco do romantismo que caracteriza a literatura
- farmácia não é livraria - mas livro pode
ser considerado um remédio pra alma, não pode?
Que poeta ou poetisa você considera
surpreendente?
Meus poetas preferidos são
o uruguaio Mario Benedetti e o português Fernando Pessoa.
O gaúcho Fabrício Carpinejar pode ser incluído
na categoria "surpreendente", ele ainda vai dar muito
que falar, é ótimo.
Qual a principal característica da
geração de poetas a qual você pertence? Existe
semelhança, entre vocês, na temática abordada?
Ou cada um criou um perfil próprio de acordo com a sua realidade?
Eu não tenho um vasto
conhecimento da poesia produzida hoje, não é o gênero
literário que leio mais. Mas a poesia que eu faço
tem, sim, alguma parecência com outros poetas da minha geração.
A temática segue a mesma: amor, solidão, angústia
existencial, mas a linguagem é menos lírica e mais
comunicativa.
Todo autor tem dentro de sua obra um conto,
livro ou poema preferido. Qual o seu? Por quê?
Eu gosto muito de alguns poemas
meus, são minhas "preferências", digamos
assim, mas não saberia dizer agora quais são, só
procurando nos livros. Não sei meus poemas de cor. Mas gosto
mais deles do que das crônicas.

Os anos passam e as pessoas continuam expressando o amor em forma
de poemas. O que existe na poesia que faz dela o veículo
preferido para expressar este tipo de sentimento?
Acho que a poesia e o amor têm características similares.
Primeiro: quase sempre são difíceis [risos].
O amor concentra tantos sentimentos contraditórios que é
difícil ser objetivo ao falar sobre ele, é mais fácil
ser abstrato, ou figurativo, ou exagerado, ou louco. Estados de
espírito que a poesia consegue expressar melhor.
A poesia tem algum papel específico
na vida das pessoas?
A poesia não está
só nos livros. Está numa cena de um filme, está
num momento que a gente vive, está na música, está
na natureza. Esta poesia, que é a poesia da vida, todo mundo
precisa, porque senão a gente endoidece, não dá
pra ser racional o tempo inteiro. Os livros apenas tentam traduzir
esta poesia em versos. Então, eu acho que se uma pessoa consegue
"sentir" a poesia da vida, mesmo sem ler, tudo bem. Pode
ser tão feliz quanto uma pessoa que não abre mão
da poesia escrita.
Qual a sua expectativa para 2002 em relação
às suas obras? Existe algum projeto de lançar algo
ainda este ano?
Eu provavelmente não vou
lançar nada este ano, mas tenho uma novela quase pronta e
quero iniciar outro de poemas. Ano que vem certamente terei novidades
para o mercado. 
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