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22 de agosto a 4 de setembro de 2002


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CONTO DE FADAS
Entrevista com a poetisa Martha Medeiros

por Ana Lira (ana_lira@terra.com.br)

os 41 anos, completados em 20 de agosto, Martha Medeiros tem muito que comemorar. Desde o lançamento de seu primeiro livro, Strip Tease, em 1985, ela vem vivendo bons momentos em sua carreira e hoje é uma das escritoras mais festejadas de sua geração. Poetisa e cronista, Martha tem como projeto futuro escrever um romance. Para o ano que vem, ela prepara uma novela e mais um livro de poesias, aguardado ansiosamente pelos inúmeros fãs da gaúcha. Atualmente ela desfila seu talento como colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e do canal Almas Gêmeas, do Terra, onde escreve sobre relacionamentos.

Nesta conversa com o Rabisco, ela fala de sua trajetória, da dificuldade de fazer poesia no Brasil, do relacionamento com seus leitores e de seus poetas favoritos, com toques de intimidade que só Martha Medeiros tem.

Você é uma das autoras mais elogiadas da nova geração. A que você atribui essa identificação do público e da crítica com a sua obra?

É difícil justificar esse sucesso que a mim, sinceramente, surpreende. Acho que é por causa dos assuntos abordados, que têm muito a ver com o cotidiano de todo mundo, e também pela linguagem acessível, que estabelece uma espécie de "bate-papo" com o leitor.

O fato de você ser colunista do Almas Gêmeas aproxima o público?

O Almas Gêmeas possibilita que eu me comunique com um público mais jovem e espalhado pelo Brasil inteiro, não apenas concentrado no Rio Grande do Sul.

Em abril deste ano, você publicou o texto "Sabor de Arco-Íris", na sua coluna no Zero Hora, comentando a experiência de conversar sobre leitura com alunos de um maternal. Como surgiu o convite para este encontro?

Eu costumo visitar escolas para conversar com alunos do ensino fundamental e médio, mas nunca havia ido a um maternal. Fui convidada porque minha filha (6 anos) estuda lá, então como os professores me vêem toda hora, aproveitaram para fazer a proposta. Fiquei meio aflita: o que conversar com alunos tão pequenos, que ainda nem sabem ler? Mas valeu, foi uma experiência poética.

Se outros autores aceitassem este desafio, de dar palestras a respeito da leitura, o número de leitores aumentaria? Que outros meios podem ser utilizados para incentivar o hábito de ler?

Muitos autores visitam escolas atualmente, e acho que isso ajuda, sim, a incentivar a leitura. Mais ainda: acho que isso desmistifica a figura do escritor, mostra pra garotada que somos de carne e osso, iguais a eles, e que eles também podem um dia escrever e publicar, que isso não é tão utópico. Mas para isso, precisam ler muito. O hábito da leitura é incentivado na escola mas eu também acho que a família deve colaborar. O ideal é a criança estar familiarizada com o livro desde que nasce.

Você participou de eventos para incentivo à leitura ultimamente? Quais?

Durante o mês de junho eu estive em Rio Grande visitando uma biblioteca que leva o meu nome (olha que máximo!) e conversei com a comunidade sobre meu trabalho, sobre a importância do livro, etc. Estive numa escola de São Leopoldo também.

Como as pessoas reagem em uma conversa com você? Elas te procuram para dividir experiências ou te tratam como uma espécie de guru?

Pessoalmente, as pessoas se aproximam com rapidez e educação, apenas para elogiar o trabalho ou pedir um autógrafo. É muito gratificante. Mas por e-mail muda tudo: as pessoas descrevem toda a sua vida, contam coisas íntimas, pedem conselhos, enfim, confundem um pouco a minha profissão, acham que além de escritora sou psicóloga ou conselheira sentimental. Procuro não misturar as coisas, não dou conselhos, seria irresponsabilidade minha, já que não conheço quem está do outro lado da tela.

Você já passou pela experiência de receber poesias dos seus leitores para analisar? Como você procede?

Isso acontece o tempo inteiro, e admito, acho chato. Primeiro: a maioria dos poemas são ruins, como os meus também foram um dia. E segundo: tenho receio de dizer isso para o pessoal e desestimulá-los, afinal, quem sabe mais tarde o talento não desabrocha? Quem sou eu para cortar o barato deles? Eu geralmente aconselho a pessoa a continuar escrevendo, sem pressa para publicar. Mas sei que eles se frustram com isso, esperam é que eu diga que eles são o novo Drummond. Nunca são.

Quando você começou a escrever? Como foi tua trajetória? Quem foi sua principal influência?

Eu sempre gostei de escrever, desde garota. Aos 22 anos, mandei uns poemas para a editora Brasiliense avaliar, pois eles editavam a coleção Cantadas Literárias, da qual eu era fã. Comecei a me corresponder com o dono da editora, o Caio Graco Prado, que já faleceu, e depois de um tempo ele topou editar meu primeiro livro. Como eu digo: foi conto de fadas. Naquela época nem tinha internet, eu mandava os poemas pelo correio junto com uma carta, e ele me respondia à mão também. Aí foi lançado o Strip-Tease, em 85, na coleção dos meus sonhos, Cantadas Literárias. Nem acreditei. O livro vendeu direitinho, em se tratando de uma estreante totalmente desconhecida. Depois foi mais fácil editar o segundo, o terceiro livro... As portas já estavam abertas. Quanto à influência, sempre li Mario Quintana, mas comecei a me entusiasmar mesmo quando comecei a ler Paulo Leminsky, Alice Ruiz, Chacal, Cacaso... foi através deles que descobri que poderia escrever poesia também.

Como é a experiência de fazer poesia no Brasil? Existe abertura, apoio, ou sistema ainda está atado aos poetas considerados tradicionais?

No meu caso, as coisas aconteceram como num conto de fadas, nem me cito como exemplo, pois sei como é irreal alguém ser descoberto do nada e conseguir editar. Mas a realidade é que se lê pouca poesia no Brasil, e consequentemente as grandes editoras colocam poucos títulos no mercado, já que não vende tanto. Sobra para as pequenas editoras investir em poetas novos, publicando livros de menor tiragem. O mercado não está parado, mas o poeta precisa correr atrás mais do que o romancista. É preciso paciência e persistência.

O processo de aceitação pelas editoras é difícil? O que você sugere a quem está começando?

É difícil cair nas graças de uma editora, sim, porque elas recebem muitos originais, todo mundo resolveu ser escritor, é aparentemente mais fácil do que ser ator, músico ou dançarino. Escrever, todo mundo sabe, né? Então as editoras recebem quilos de material e o processo se banaliza. Se eu estivesse começando hoje, faria uma oficina de literatura, acho que é um caminho mais profissional e com mais chances de obter resultado.

O mercado de venda de livros foi aquecido, nos últimos cinco anos, pela entrada de algumas editoras no ramo de pocket books. Qual a sua opinião sobre este formato?

Eu sou superfavorável. Claro que prefiro os livros maiores e com melhor acabamento, mas isso é luxo. O pocket é mais acessível, prático e coloca à disposição clássicos da literatura. Muitos grandes autores eu li pela primeira vez num livro de bolso.

Que benefícios este tipo de publicação traz para o público leitor?

Os já citados: são baratos e fáceis de carregar. Quanto tempo a gente perde em congestionamentos, em salas de espera, etc? Um livro dentro da mochila é tudo o que a gente precisa.

E para quem não tem costume de ler? Você acredita que o novo formato pode aproximar estas pessoas da leitura?

Acho que não. Quem não gosta de ler, não vai ler nem de bolso nem nenhum outro. O formato não incentiva a leitura, ele facilita a leitura.

Sua obra, Poesia Reunida, foi lançada neste formato. Como tem sido a resposta do público? Você acha que sendo publicada neste formato a obra pode alcançar leitores que raramente teriam oportunidade de ler poesia?

O livro foi lançado há uns três anos e segue vendendo. É vendido até em farmácias! Eu apóio. Claro que isso tira um pouco do romantismo que caracteriza a literatura - farmácia não é livraria - mas livro pode ser considerado um remédio pra alma, não pode?

Que poeta ou poetisa você considera surpreendente?

Meus poetas preferidos são o uruguaio Mario Benedetti e o português Fernando Pessoa. O gaúcho Fabrício Carpinejar pode ser incluído na categoria "surpreendente", ele ainda vai dar muito que falar, é ótimo.

Qual a principal característica da geração de poetas a qual você pertence? Existe semelhança, entre vocês, na temática abordada? Ou cada um criou um perfil próprio de acordo com a sua realidade?

Eu não tenho um vasto conhecimento da poesia produzida hoje, não é o gênero literário que leio mais. Mas a poesia que eu faço tem, sim, alguma parecência com outros poetas da minha geração. A temática segue a mesma: amor, solidão, angústia existencial, mas a linguagem é menos lírica e mais comunicativa.

Todo autor tem dentro de sua obra um conto, livro ou poema preferido. Qual o seu? Por quê?

Eu gosto muito de alguns poemas meus, são minhas "preferências", digamos assim, mas não saberia dizer agora quais são, só procurando nos livros. Não sei meus poemas de cor. Mas gosto mais deles do que das crônicas.

Os anos passam e as pessoas continuam expressando o amor em forma de poemas. O que existe na poesia que faz dela o veículo preferido para expressar este tipo de sentimento?

Acho que a poesia e o amor têm características similares. Primeiro: quase sempre são difíceis [risos]. O amor concentra tantos sentimentos contraditórios que é difícil ser objetivo ao falar sobre ele, é mais fácil ser abstrato, ou figurativo, ou exagerado, ou louco. Estados de espírito que a poesia consegue expressar melhor.

A poesia tem algum papel específico na vida das pessoas?

A poesia não está só nos livros. Está numa cena de um filme, está num momento que a gente vive, está na música, está na natureza. Esta poesia, que é a poesia da vida, todo mundo precisa, porque senão a gente endoidece, não dá pra ser racional o tempo inteiro. Os livros apenas tentam traduzir esta poesia em versos. Então, eu acho que se uma pessoa consegue "sentir" a poesia da vida, mesmo sem ler, tudo bem. Pode ser tão feliz quanto uma pessoa que não abre mão da poesia escrita.

Qual a sua expectativa para 2002 em relação às suas obras? Existe algum projeto de lançar algo ainda este ano?

Eu provavelmente não vou lançar nada este ano, mas tenho uma novela quase pronta e quero iniciar outro de poemas. Ano que vem certamente terei novidades para o mercado.