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22 de agosto a 4 de setembro de 2002


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DE TODOS NÓS E DE MARLON BRANDO
Homoerotismo, traição e ousadia marcam o clássico Os Pecados de Todos Nós

por Marcel Nadale (marcelnadale@yahoo.com.br)

oda noite, um soldado observa furtivamente a esposa de seu superior dormindo. Obcecado, fixa sua atenção nos olhos dela, na boca ainda pintada de batom e, finalmente, no dedo anular, com a aliança de casamento. Mal sabe ele que, no quarto ao lado, o par da aliança está nos dedos de um rigoroso e decadente capitão, traído pela esposa e que nutre desejos inconfessáveis pelo mesmo soldado.

Os Pecados de Todos Nós (Reflections In a Golden Eye, 1967, EUA) não demonstra sua longevidade exclusivamente no choque que um enredo imiscuído de tabus como esse certamente ainda provocaria nas platéias atuais. Nem mesmo à época de seu lançamento esta ousadia foi capaz de reservá-lo um lugar mais luminoso na carreira do cineasta John Huston - que assinou clássicos como O Tesouro de Sierra Madre, Relíquia Macabra e Os Desajustados. No entanto, o diretor se debruça de tal maneira sobre o argumento original da escritora Carson McCullers, com uma sutileza sem concessões, como se tentasse guardar um tufão numa garrafa, que acaba provando que mesmo um Huston menor ainda é maior que muito filme bom por aí. Os Pecados em Todos Nós consegue, como poucos, analisar com méritos os efeitos calcinantes da repressão dos desejos.

Claro que essa qualidade pode ser meramente incidental. Huston contou com duas estrelas no auge do vigor dramático - Marlon Brando e Elizabeth Taylor - e pode ter simplesmente cerceado-as com uma direção pouco atenta (que não seria de toda atípica, e até o erro pode ser magistral). Brando, em particular, mimetizou a ousadia do filme, aceitando o papel de um militar enrustido e traído sem temer ferir sua fama de símbolo sexual. Taylor teve menos sorte, repetindo seu eterno papel de mulher auto-suficiente e dominadora.

O casamento de fachada entre ambos os personagens, aliás, lembra muito o de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, estrelado por Taylor. O ambiente também é único e opressivo - um centro de treinamento militar na Georgia do pós-guerra - e a traição do casal, outrora sugerida, aqui é consumada: Leonora (Taylor) aproveita seus passeios hípicos diários para seduzir o vizinho, o coronel Morris (Brian Ketih, também excelente). Seu marido, o capitão Penderton (Brando) não se importa, aparentemente absorto numa irresistível fascinação pelo soldado que cuida dos cavalos (interpretado por um novinho Robert Forster, de Jackie Brown), um tipo igualmente obcecado e incapaz de externar seus sentimentos pela patroa. Observando esta rede de paixões secretas está a esposa do coronel Morris, Alisson (Julie Harris), desequilibrada pelas traições do marido e pela morte da filha, que por isso raramente sai do quarto e só conversa com o mordomo efeminado Anacleto (Zorro Harris).

Digno de uma época que nada podia ser escancarado, Os Pecados em Todos Nós abusa de sutilezas e simbologias. A principal é o arredio cavalo Firebird, representando os impulsos sexuais latentes dos personagens. Leonora, bem resolvida, é a única que consegue domá-lo. Penderton, por outro lado, sempre é derrubado; em uma das melhores cenas, cavalga sem destino ou controle e, quando é arremessado, fraqueja, chora e, furioso, dispara chibatadas no animal. É o remorso típico de quem não aceita sua própria homossexualidade. Logo o soldado de Robert Forster aparece para levar Firebird à cochia e tratar dos ferimentos. Detalhe: ele surge nu em pêlo. O recruta costuma tomar banho de sol pelado, e a maior carga de homoerotismo que Os Pecados em Todos Nós se permite é o voyeurismo de Penderton flagrando-o como veio ao mundo.

Brando trata Penderton à altura, numa interpretação racional e calculada. Nos momentos mais difíceis o ator traz à tona uma faceta quase feminina de Penderton. Seu último diálogo com Morris revela o quanto o personagem amadureceu, num tom libertador que deixaria muito gay panfletário contente. Mas nada é certo ainda - o espectador permanece o filme todo incerto do que se passa na mente do capitão. Conforme se aproxima do final, sabemos que Os Pecados de Todos Nós terá um desfecho surpreendente e ao mesmo tempo inevitável. É como se assistíssemos a uma criança correndo com uma tesoura: uma tragédia acontecerá, mas não sabemos exatamente o quê ou com quem. Marlon Brando dirá.