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DE TODOS NÓS E DE MARLON BRANDO
Homoerotismo, traição
e ousadia marcam o clássico Os Pecados de Todos Nós
por Marcel
Nadale (marcelnadale@yahoo.com.br)
 oda
noite, um soldado observa furtivamente a esposa de seu superior
dormindo. Obcecado, fixa sua atenção nos olhos dela,
na boca ainda pintada de batom e, finalmente, no dedo anular, com
a aliança de casamento. Mal sabe ele que, no quarto ao lado,
o par da aliança está nos dedos de um rigoroso e decadente
capitão, traído pela esposa e que nutre desejos inconfessáveis
pelo mesmo soldado.
Os Pecados de Todos Nós (Reflections
In a Golden Eye, 1967, EUA) não demonstra sua longevidade
exclusivamente no choque que um enredo imiscuído de tabus
como esse certamente ainda provocaria nas platéias atuais.
Nem mesmo à época de seu lançamento esta ousadia
foi capaz de reservá-lo um lugar mais luminoso na carreira
do cineasta John Huston - que assinou clássicos como O
Tesouro de Sierra Madre, Relíquia Macabra e Os
Desajustados. No entanto, o diretor se debruça de tal
maneira sobre o argumento original da escritora Carson McCullers,
com uma sutileza sem concessões, como se tentasse guardar
um tufão numa garrafa, que acaba provando que mesmo um Huston
menor ainda é maior que muito filme bom por aí. Os
Pecados em Todos Nós consegue, como poucos, analisar
com méritos os efeitos calcinantes da repressão dos
desejos.
Claro que essa qualidade pode ser meramente incidental.
Huston contou com duas estrelas no auge do vigor dramático
- Marlon Brando e Elizabeth Taylor - e pode ter simplesmente cerceado-as
com uma direção pouco atenta (que não seria
de toda atípica, e até o erro pode ser magistral).
Brando, em particular, mimetizou a ousadia do filme, aceitando o
papel de um militar enrustido e traído sem temer ferir sua
fama de símbolo sexual. Taylor teve menos sorte, repetindo
seu eterno papel de mulher auto-suficiente e dominadora.
O
casamento de fachada entre ambos os personagens, aliás, lembra
muito o de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, estrelado por
Taylor. O ambiente também é único e opressivo
- um centro de treinamento militar na Georgia do pós-guerra
- e a traição do casal, outrora sugerida, aqui é
consumada: Leonora (Taylor) aproveita seus passeios hípicos
diários para seduzir o vizinho, o coronel Morris (Brian Ketih,
também excelente). Seu marido, o capitão Penderton
(Brando) não se importa, aparentemente absorto numa irresistível
fascinação pelo soldado que cuida dos cavalos (interpretado
por um novinho Robert Forster, de Jackie Brown), um tipo
igualmente obcecado e incapaz de externar seus sentimentos pela
patroa. Observando esta rede de paixões secretas está
a esposa do coronel Morris, Alisson (Julie Harris), desequilibrada
pelas traições do marido e pela morte da filha, que
por isso raramente sai do quarto e só conversa com o mordomo
efeminado Anacleto (Zorro Harris).
Digno de uma época que nada podia ser escancarado,
Os Pecados em Todos Nós abusa de sutilezas e simbologias.
A principal é o arredio cavalo Firebird, representando os
impulsos sexuais latentes dos personagens. Leonora, bem resolvida,
é a única que consegue domá-lo. Penderton,
por outro lado, sempre é derrubado; em uma das melhores cenas,
cavalga sem destino ou controle e, quando é arremessado,
fraqueja, chora e, furioso, dispara chibatadas no animal. É
o remorso típico de quem não aceita sua própria
homossexualidade. Logo o soldado de Robert Forster aparece para
levar Firebird à cochia e tratar dos ferimentos. Detalhe:
ele surge nu em pêlo. O recruta costuma tomar banho de sol
pelado, e a maior carga de homoerotismo que Os Pecados em Todos
Nós se permite é o voyeurismo de Penderton flagrando-o
como veio ao mundo.
Brando
trata Penderton à altura, numa interpretação
racional e calculada. Nos momentos mais difíceis o ator traz
à tona uma faceta quase feminina de Penderton. Seu último
diálogo com Morris revela o quanto o personagem amadureceu,
num tom libertador que deixaria muito gay panfletário contente.
Mas nada é certo ainda - o espectador permanece o filme todo
incerto do que se passa na mente do capitão. Conforme se
aproxima do final, sabemos que Os Pecados de Todos Nós
terá um desfecho surpreendente e ao mesmo tempo inevitável.
É como se assistíssemos a uma criança correndo
com uma tesoura: uma tragédia acontecerá, mas não
sabemos exatamente o quê ou com quem. Marlon Brando dirá.

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