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22 de agosto a 4 de setembro de 2002


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QUANDO O SUPERPAI É O SUBMACHO
Esqueça o verniz familiar: Super Pai revela a intrigante solução americanóide para a crise do macho moderno

por Marcel Nadale (marcelnadale@yahoo.com.br)

ejamos sinceros: a não ser que você seja, de fato, um papai, e carregue o pimpolho para o cinema, você nunca irá assistir a Super Pai (Joe Somebody, EUA, 2001). Como vende a propaganda, trata-se de uma comédia açucarada, protagonizada por Tim Allen e dirigida por John Pasquin - os James Stewart e Alfred Hitchcock da comédia familiar. Já é a terceira parceria de ambos, e a quarta vem no final do ano, com Meu Papai É Noel 2. Mas, ao contrário dos filmes anteriores, este Super Pai até merece um olhar mais atento do espectador. Nem tanto por ser acima da média, mas porque, se a família é uma instituição falida, o gênero cinematográfico também começa a demonstrar fraquezas e temáticas outrora insuspeitas.

No Brasil, o filme pegou carona no Dia dos Pais e ganhou um título que, se não é de todo mentiroso, camufla boa parte do seu real conteúdo. Super Pai discute menos as agruras da paternidade do que a crise da masculinidade no novo milênio. Isso, claro, debaixo de muito verniz inocente, mas está lá para quem quiser ler nas entrelinhas: a cultura americana obcecada com o sucesso está dilapidando a figura do chefe de família. Joe Scheffer (Allen) é o zé-ninguém do título original, um loser sem nenhuma auto-estima porque não cumpre os papéis que a sociedade espera do homem ideal. Não dá sorte com as mulheres porque ainda está afim da ex-esposa (Kelly Lynch, de Drugstore Cowboy); no emprego, é completamente ignorado; e sua vida social resume-se ao contato semanal com a filha querida.

O filme dedica-se a narrar como Joe recupera sua virilidade, e, de certa maneira, a solução proposta bate com a de Clube da Luta - outra fita que aborda a crise do macho. Joe Scheffer marca um acerto de contas com um colega de trabalho que roubara sua vaga no estacionamento da empresa. Pior: o grandalhão o humilhara na frente da filha. Portanto, é na pancadaria, sim, que o homem moderno vai se resolver. Dali a vinte dias, Joe terá sua revanche e, para se garantir, se matricula numa escola de artes marciais. O responsável pelas melhores piadas do filme é seu instrutor, um decadente astro de cinema de ação interpretado por Jim Belushi (atualmente com ótima verve para a auto-paródia).

Mais revelador ainda (mas nem tão inesperado assim) é o segundo artifício que o filme julga imprescindível para exorcizar os demônios do anônimo homem suburbano. Logo, o rumor da briga se alastra pelo escritório e Joe começa a gozar de uma súbita popularidade com os colegas. Personagens, cenas e diálogos começam então a mimetizar explicitamente o grande templo americanóide da estigmatização social: as odiadas high schools. Joe é cumprimentado nos corredores, passa a integrar o grupo de atletas da empresa, é convidado para festas e chega até mesmo a se sentar com os chefões no refeitório. O diagnóstico psicológico não deixa dúvidas: a crise do macho e a síndrome do loser são praticamente irmãs. E se retroalimentam. Na visão dos sobrinhos do Tio Sam, o único tratamento é a popularidade, mesmo que arraigada numa imaturidade cega. A "fama possível" deixa de se tornar uma conseqüência para se tornar uma moeda de troca. Graças a ela, Scheffer consegue a atenção da ex-esposa e a promoção prometida há anos. Enquanto isso, numa emblemática inversão de valores, é sua precoce filha de 12 anos que banca sua consciência adulta.

Difícil acreditar que a ideologia que permeia Super Pai seja apenas resultado da infantilização rigorosa a que os filmes para a família são submetidos. Parece muito mais um efeito colateral ou uma válvula de escape do inconsciente coletivo americano. Tudo, enfim, resume-se a quem você foi no colegial, e, ainda mais lastimável, a viver eternamente num simulacro daquela época, sem qualquer intenção de amadurecimento. Pode ser uma leitura um tanto pessimista e exagerada para um filme que se pretende apenas um leve entretenimento familiar. Mas convenhamos: quando o problema começa a infiltrar até mesmo filminhos não-panfletários como esse, é porque a coisa tá ficando feia.