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QUANDO O SUPERPAI É O SUBMACHO
Esqueça o verniz familiar:
Super Pai revela a intrigante solução americanóide
para a crise do macho moderno
por Marcel
Nadale (marcelnadale@yahoo.com.br)
 ejamos
sinceros: a não ser que você seja, de fato, um papai,
e carregue o pimpolho para o cinema, você nunca irá
assistir a Super Pai (Joe Somebody, EUA, 2001). Como
vende a propaganda, trata-se de uma comédia açucarada,
protagonizada por Tim Allen e dirigida por John Pasquin - os James
Stewart e Alfred Hitchcock da comédia familiar. Já
é a terceira parceria de ambos, e a quarta vem no final do
ano, com Meu Papai É Noel 2. Mas, ao contrário
dos filmes anteriores, este Super Pai até merece um
olhar mais atento do espectador. Nem tanto por ser acima da média,
mas porque, se a família é uma instituição
falida, o gênero cinematográfico também começa
a demonstrar fraquezas e temáticas outrora insuspeitas.
No Brasil, o filme pegou carona no Dia dos Pais e
ganhou um título que, se não é de todo mentiroso,
camufla boa parte do seu real conteúdo. Super Pai
discute menos as agruras da paternidade do que a crise da masculinidade
no novo milênio. Isso, claro, debaixo de muito verniz inocente,
mas está lá para quem quiser ler nas entrelinhas:
a cultura americana obcecada com o sucesso está dilapidando
a figura do chefe de família. Joe Scheffer (Allen) é
o zé-ninguém do título original, um loser
sem nenhuma auto-estima porque não cumpre os papéis
que a sociedade espera do homem ideal. Não dá sorte
com as mulheres porque ainda está afim da ex-esposa (Kelly
Lynch, de Drugstore Cowboy); no emprego, é completamente
ignorado; e sua vida social resume-se ao contato semanal com a filha
querida.
O
filme dedica-se a narrar como Joe recupera sua virilidade, e, de
certa maneira, a solução proposta bate com a de Clube
da Luta - outra fita que aborda a crise do macho. Joe Scheffer
marca um acerto de contas com um colega de trabalho que roubara
sua vaga no estacionamento da empresa. Pior: o grandalhão
o humilhara na frente da filha. Portanto, é na pancadaria,
sim, que o homem moderno vai se resolver. Dali a vinte dias, Joe
terá sua revanche e, para se garantir, se matricula numa
escola de artes marciais. O responsável pelas melhores piadas
do filme é seu instrutor, um decadente astro de cinema de
ação interpretado por Jim Belushi (atualmente com
ótima verve para a auto-paródia).
Mais revelador ainda (mas nem tão inesperado
assim) é o segundo artifício que o filme julga imprescindível
para exorcizar os demônios do anônimo homem suburbano.
Logo, o rumor da briga se alastra pelo escritório e Joe começa
a gozar de uma súbita popularidade com os colegas. Personagens,
cenas e diálogos começam então a mimetizar
explicitamente o grande templo americanóide da estigmatização
social: as odiadas high schools. Joe é cumprimentado
nos corredores, passa a integrar o grupo de atletas da empresa,
é convidado para festas e chega até mesmo a se sentar
com os chefões no refeitório. O diagnóstico
psicológico não deixa dúvidas: a crise do macho
e a síndrome do loser são praticamente irmãs.
E se retroalimentam. Na visão dos sobrinhos do Tio Sam, o
único tratamento é a popularidade, mesmo que arraigada
numa imaturidade cega. A "fama possível" deixa
de se tornar uma conseqüência para se tornar uma moeda
de troca. Graças a ela, Scheffer consegue a atenção
da ex-esposa e a promoção prometida há anos.
Enquanto isso, numa emblemática inversão de valores,
é sua precoce filha de 12 anos que banca sua consciência
adulta.
Difícil
acreditar que a ideologia que permeia Super Pai seja apenas
resultado da infantilização rigorosa a que os filmes
para a família são submetidos. Parece muito mais um
efeito colateral ou uma válvula de escape do inconsciente
coletivo americano. Tudo, enfim, resume-se a quem você foi
no colegial, e, ainda mais lastimável, a viver eternamente
num simulacro daquela época, sem qualquer intenção
de amadurecimento. Pode ser uma leitura um tanto pessimista e exagerada
para um filme que se pretende apenas um leve entretenimento familiar.
Mas convenhamos: quando o problema começa a infiltrar até
mesmo filminhos não-panfletários como esse, é
porque a coisa tá ficando feia. 
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