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MUHAMMAD DESPEDAÇADO
Em Ali, Michael Mann e Will
Smith destroem a história do lendário e controverso
boxeador
por Leopoldo
Godoy (leogodoy@hotmail.com)
 egue
o único atleta capaz de fazer frente a Pelé nas listas
de grandes heróis do esporte. Adicione um diretor talentoso,
com bons filmes em seu histórico e uma fama de meticuloso
e técnico. Junte um orçamento fantástico, e
um tempo de trabalho mais do que generoso. Dá pra estragar
essa combinação? Dá. Prova disso é Ali,
novo filme de Michael Mann - o mesmo diretor de O Informante.
E não adianta culpar o limitado Will Smith, que precisou
se matar para tentar convencer na pele de uma das maiores lenda
do boxe mundial. Com um enredozinho superficial, piegas e mal contado,
nem mesmo o próprio Muhammad Ali conseguiria reerguer a moral
do filme.
O que mais me entristece é que a vida de Ali
é uma baita história, daquelas que foram feitas para
virar livro, filme, novela da Globo, etc. Cassius Clay, o boxeador
falastrão que vira muçulmano, participa dos movimentos
de direitos civis dos negros e se recusa a servir no Vietnã.
No auge de sua forma física, perde o cinturão e percebe
que, ao virar símbolo da luta contra o status quo,
foi abandonado. Não desiste, continua lutando e filosofando.
O poeta fala - e bate - com versos rimados, intrigando os jornalistas.
Galã, forte, mais inteligente que a média. Com todas
suas contradições, é um super-homem de Nietzsche,
por mais que a intelectualidade ignorante insista em dizer que o
esporte é o ópio do povo... Balela. Tem que ser muito
preconceituoso pra não ver a simbologia trágica que
há numa luta de boxe. Toda a superação, a recriação
pré-histórica da invenção da humanidade.
Um balé dos mais interessantes. Como nas touradas, mas isso
é papo para outro dia.
Tá
certo, Ali não é péssimo. Mann já
tinha mostrado em O Informante e em Fogo Contra Fogo
que é um mestre da técnica cinematográfica.
É cinemão hollywoodiano, mas é bem feito. Mesmo
com mais de 2h30 de filme, Ali não fica chato. Tem
mais cortes que os clipes da MTV, mas não dá para
pensar em ganhe dinheiro exigindo atenção do público.
É triste, mas cinema, hoje, é entretenimento passivo.
As cenas de luta são o forte do filme: diferentemente das
fraudes do naipe de Rocky, ficou tudo muito caprichado e
até convence. Conseguiu unir realismo com uma narrativa de
estilo ficcional e por isso consegue capturar o público.
Além disso, a montagem é soberba. A cena inicial traz
o boxeador treinando enquanto a soul music de Sam Cooke vai
crescendo, numa explosão que une, ao invés de contrapor,
o vigor da violência física de Ali com a sensualidade
e a potência sexual da música negra. É como
se naquele momento a opressão pudesse acabar, e os 400 anos
de escravidão tivessem concentrado uma energia infinita:
o que não nos mata, nos fortalece.
Mas é muito pouco para uma história
tão fantástica. É tudo muito superficial, fluido
mesmo. Os personagens são tão profundos quanto uma
folha de papel-de-seda. Meus conhecimentos sobre boxe não
são dos mais extensos, mas juro que saí do cinema
sem ter aprendido nada de novo. É só entretenimento,
como se não houvesse espaço para ser didático.
Você vai ver que dava muito bem para ter deixado o cérebro
em casa antes de ir ver Ali. Espera-se isso de um filme da
Disney, por exemplo, mas não de um Michael Mann.
O que mais me irrita é a mania de colocar
pequenos vícios morais nos grandes ídolos, só
para tentar dar uma de imparcial. No caso, Ali é retratado
como um mulherengo incontrolável. OK, ele está em
seu quarto casamento, mas esse tipo de bobagem é só
para impressionar o público moralista norte-americano. E
acaba funcionando com alguns babacas daqui também. De tantas
outras características importantes para se retratar do complexo
lutador, Mann foi escolher justo isso. Que tal a dificuldade em
carregar o fardo de herói, e o medo de falhar frente a seus
seguidores, tão bem narrado por Norman Mailer em seu livro
A Luta? Não, o público não entende mais
essas sutilezas. Coloquem um defeitozinho que ofenda a estrutura
família, e temos um filme mais "humano". Para humanizar
desse jeito, teria sido melhor manter Ali como um deus irrepreensível
- o que ele não deixa de ser.
Não
bastasse isso, ainda temos que engolir Will Smith no papel de Ali.
Grotesco. Não é bem atuação, é
uma imitação bem da sem-vergonha. O que é mais
engraçado é que Smith precisou se matar para conseguir
resultados no máximo razoáveis. Foram 12 meses praticamente
vivendo como o boxeador, com aulas diárias sobre os maneirismos,
gestos, sotaque e o estilo do ex-atleta. Um trabalho de Hércules
só para meter Smith em forma. Só mesmo o Oscar para
se comover com essas histórias de bastidores. Na tela, o
fraco projeto de ator é engolido por Jamie Foxx e Jon Voight.
O primeiro interpreta o cômico Drew Bundini, treinador e guru
espiritual de Ali. É um judeu negro muito carismático,
dono de uma língua mais ácida que a do próprio
Muhammad Ali. É o ponto alto da fita, com certeza. Voight
ainda empolga como o jornalista Howard Cosell. Mal dá pra
se ver o ator, tão perfeita a imitação de Cosell.
As réplicas de Malcom X, Martin Luther King, Don King, Joe
Frazier, Sonny Liston e George Foreman não são totalmente
empolgantes, mas não comprometem.
Era para ser a história de uma lenda, mas
Muhammad Ali merece muito mais do que o fraco filme de Michael Mann.
Ali naufraga por sua superficialidade e pela falta de talento
de Will Smith. Como ator, Smith é um bom rapper. Pra
falar a verdade, como músico ele também é medíocre,
mas pelo menos não se mete a estragar o trabalho dos outros.
Sim, a culpa não é só dele... Mas o currículo
do talentoso Mann podia ter ficado sem essa. 
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