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5 a 18 de setembro de 2002


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MUHAMMAD DESPEDAÇADO
Em Ali, Michael Mann e Will Smith destroem a história do lendário e controverso boxeador

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

egue o único atleta capaz de fazer frente a Pelé nas listas de grandes heróis do esporte. Adicione um diretor talentoso, com bons filmes em seu histórico e uma fama de meticuloso e técnico. Junte um orçamento fantástico, e um tempo de trabalho mais do que generoso. Dá pra estragar essa combinação? Dá. Prova disso é Ali, novo filme de Michael Mann - o mesmo diretor de O Informante. E não adianta culpar o limitado Will Smith, que precisou se matar para tentar convencer na pele de uma das maiores lenda do boxe mundial. Com um enredozinho superficial, piegas e mal contado, nem mesmo o próprio Muhammad Ali conseguiria reerguer a moral do filme.

O que mais me entristece é que a vida de Ali é uma baita história, daquelas que foram feitas para virar livro, filme, novela da Globo, etc. Cassius Clay, o boxeador falastrão que vira muçulmano, participa dos movimentos de direitos civis dos negros e se recusa a servir no Vietnã. No auge de sua forma física, perde o cinturão e percebe que, ao virar símbolo da luta contra o status quo, foi abandonado. Não desiste, continua lutando e filosofando. O poeta fala - e bate - com versos rimados, intrigando os jornalistas. Galã, forte, mais inteligente que a média. Com todas suas contradições, é um super-homem de Nietzsche, por mais que a intelectualidade ignorante insista em dizer que o esporte é o ópio do povo... Balela. Tem que ser muito preconceituoso pra não ver a simbologia trágica que há numa luta de boxe. Toda a superação, a recriação pré-histórica da invenção da humanidade. Um balé dos mais interessantes. Como nas touradas, mas isso é papo para outro dia.

Tá certo, Ali não é péssimo. Mann já tinha mostrado em O Informante e em Fogo Contra Fogo que é um mestre da técnica cinematográfica. É cinemão hollywoodiano, mas é bem feito. Mesmo com mais de 2h30 de filme, Ali não fica chato. Tem mais cortes que os clipes da MTV, mas não dá para pensar em ganhe dinheiro exigindo atenção do público. É triste, mas cinema, hoje, é entretenimento passivo. As cenas de luta são o forte do filme: diferentemente das fraudes do naipe de Rocky, ficou tudo muito caprichado e até convence. Conseguiu unir realismo com uma narrativa de estilo ficcional e por isso consegue capturar o público. Além disso, a montagem é soberba. A cena inicial traz o boxeador treinando enquanto a soul music de Sam Cooke vai crescendo, numa explosão que une, ao invés de contrapor, o vigor da violência física de Ali com a sensualidade e a potência sexual da música negra. É como se naquele momento a opressão pudesse acabar, e os 400 anos de escravidão tivessem concentrado uma energia infinita: o que não nos mata, nos fortalece.

Mas é muito pouco para uma história tão fantástica. É tudo muito superficial, fluido mesmo. Os personagens são tão profundos quanto uma folha de papel-de-seda. Meus conhecimentos sobre boxe não são dos mais extensos, mas juro que saí do cinema sem ter aprendido nada de novo. É só entretenimento, como se não houvesse espaço para ser didático. Você vai ver que dava muito bem para ter deixado o cérebro em casa antes de ir ver Ali. Espera-se isso de um filme da Disney, por exemplo, mas não de um Michael Mann.

O que mais me irrita é a mania de colocar pequenos vícios morais nos grandes ídolos, só para tentar dar uma de imparcial. No caso, Ali é retratado como um mulherengo incontrolável. OK, ele está em seu quarto casamento, mas esse tipo de bobagem é só para impressionar o público moralista norte-americano. E acaba funcionando com alguns babacas daqui também. De tantas outras características importantes para se retratar do complexo lutador, Mann foi escolher justo isso. Que tal a dificuldade em carregar o fardo de herói, e o medo de falhar frente a seus seguidores, tão bem narrado por Norman Mailer em seu livro A Luta? Não, o público não entende mais essas sutilezas. Coloquem um defeitozinho que ofenda a estrutura família, e temos um filme mais "humano". Para humanizar desse jeito, teria sido melhor manter Ali como um deus irrepreensível - o que ele não deixa de ser.

Não bastasse isso, ainda temos que engolir Will Smith no papel de Ali. Grotesco. Não é bem atuação, é uma imitação bem da sem-vergonha. O que é mais engraçado é que Smith precisou se matar para conseguir resultados no máximo razoáveis. Foram 12 meses praticamente vivendo como o boxeador, com aulas diárias sobre os maneirismos, gestos, sotaque e o estilo do ex-atleta. Um trabalho de Hércules só para meter Smith em forma. Só mesmo o Oscar para se comover com essas histórias de bastidores. Na tela, o fraco projeto de ator é engolido por Jamie Foxx e Jon Voight. O primeiro interpreta o cômico Drew Bundini, treinador e guru espiritual de Ali. É um judeu negro muito carismático, dono de uma língua mais ácida que a do próprio Muhammad Ali. É o ponto alto da fita, com certeza. Voight ainda empolga como o jornalista Howard Cosell. Mal dá pra se ver o ator, tão perfeita a imitação de Cosell. As réplicas de Malcom X, Martin Luther King, Don King, Joe Frazier, Sonny Liston e George Foreman não são totalmente empolgantes, mas não comprometem.

Era para ser a história de uma lenda, mas Muhammad Ali merece muito mais do que o fraco filme de Michael Mann. Ali naufraga por sua superficialidade e pela falta de talento de Will Smith. Como ator, Smith é um bom rapper. Pra falar a verdade, como músico ele também é medíocre, mas pelo menos não se mete a estragar o trabalho dos outros. Sim, a culpa não é só dele... Mas o currículo do talentoso Mann podia ter ficado sem essa.