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5 a 18 de setembro de 2002


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NÃO PRECISA SER MELHOR
Mistura de inovações e elementos clássicos explica sucesso de A Bela e a Fera, que retorna aos cinemas em edição especial

por Marcel Nadale (marcelnadale@yahoo.com.br)

categoria de melhor longa-metragem animado estreada este ano no Oscar teve sabor de prêmio de consolação. Era um constrangedor retorno à condescendência sobre um gênero que sempre foi tratado como infantil ou acéfalo. Sobre os três indicados ao prêmio recaía o legado, extremamente difícil de honrar, do único desenho que até hoje escapou deste preconceito da Academia e que brigou em pé de igualdade pela estatueta de melhor filme na categoria principal. O inédito feito de A Bela e a Fera, em 1992, era a coroação do triunfal retorno da Disney à tela grande, que viria a criar ainda outras obras-primas como Aladdin e O Rei Leão. Hoje este arco de produção já mostra falta de fôlego e parece justificar a necessidade de um feudo particular para o estúdio no Oscar.

Houve quem resumisse os atributos revolucionários de A Bela e a Fera pela perfeita sensação de profundidade na clássica cena do baile de gala, mas o filme revelava sua verdadeira tridimensionalidade na maturidade do roteiro. Aqueles idos do começo da década de 90, porém, eram uma época muito diferente de agora. Talvez até menos exigente. A Bela e a Fera pôde repetir elementos instituídos por A Pequena Sereia que atualmente a mesma Disney faz malabarismos para evitar. Menos que um apelo ao clichê cômodo, retomar a figura feminina altiva e independente, por exemplo, soava então como o compromisso da nova Disney com um novo público infantil precocemente maduro. O arquétipo retornaria em Pocahontas ou O Corcunda de Notre Dame, mas nunca com a mesma intensidade e graça de Bela, a heroína ultrafeminista que se recusa a assumir a vida provinciana que o bruto Gaston quer lhe oferecer.

Bela oscila entre dois valores que se tornariam a base moral da nova safra Disney. Por um lado, ela é fortemente enraizada na estrutura familiar, especialmente por não possuir uma - assim como Ariel, e depois como Aladdin, Simba, Quasímodo e Hércules, todos órfãos. Do outro lado, ela é marginalizada, incompreendida, apartada da sociedade em que vive. Deseja uma existência diferente, embora não saiba exatamente o quê ("Eu quero mais do que consigo descrever", canta em "Belle Reprise"). A única inovação aqui é uma inversão que obedece à cartilha feminista do filme: enquanto a sereia Ariel queria viver em terra firme por causa do príncipe Eric, Bela primeiro encontra seu novo lar, na forma de um castelo encantado, e depois apaixona-se por seu parceiro, a Fera que habita o local.

A dinâmica entre Bela e a Fera, inicialmente atribulada e depois suave, remete a uma guerra dos sexos nunca antes vista nos desenhos, porque antes o "príncipe encantado" sempre preencheu um papel meramente figurativo. Os diálogos são perspicazes e a fluidez do enredo, ajudada pela excelente trilha sonora de Howard Ashman e Alan Menken, tornam o florescer romântico do casal em algo encantador. A Disney sempre foi habilidosa em lidar com sentimentos que se expressam mais facilmente numa lição de moral - fosse ele dignidade, inclusão social, valor familiar, esperança, vitória do preconceito. O desafio e a beleza de A Bela e a Fera é que é o único Disney que trata exclusivamente de amor.

Para as crianças, resta o adorável elenco de apoio, formado pelos objetos encantados que servem a Fera. Como bem apetece ao universo infantil, eles são reconhecíveis por características unidimensionais e por piadas que se baseiam em suas aptidões físicas: o candelabro sedutor, o bule maternal, a xícara inocente, o relógio atrapalhado... (Sete anos mais tarde, as animações computadorizadas da Pixar levariam estes mesmos conceitos à excelência). Os objetos encantados são também os responsáveis por acrescer alívio cômico e escapismo fabuloso ao filme, como na grandiosa cena em que se apresenta o cabaré culinário de "Be My Guest".

Não por um acaso, são eles os mais favorecidos pela edição especial de A Bela e a Fera que a Disney relança agora no dia 6 de setembro. Os seis minutos de material inédito são quase todos ocupados por uma nova canção, "Human Again", já conhecida por quem assistiu ao musical da Broadway baseado no filme. Nela, vemos os utensílios mágicos restaurando o castelo, na esperança de que a paixão entre Bela e a Fera quebre o feitiço que os aprisionou. Não acrescenta nada de espetacular ao filme, mas também não precisa: esta é uma fábula que merece sempre ser revista, independente de relançamentos comemorativos caça-níqueis. Se você viu quando era pequeno, poderá confirmar aquele mesmo arrebatamento infantil digno de todo e qualquer Oscar. Se você ainda não viu, achando que é filme para criança, eis a chance de enxergar além do preconceito: esta bela também é uma fera.