|
NÃO PRECISA SER MELHOR
Mistura de inovações
e elementos clássicos explica sucesso de A Bela e a Fera,
que retorna aos cinemas em edição especial
por Marcel
Nadale (marcelnadale@yahoo.com.br)

categoria de melhor longa-metragem animado estreada este ano no
Oscar teve sabor de prêmio de consolação. Era
um constrangedor retorno à condescendência sobre um
gênero que sempre foi tratado como infantil ou acéfalo.
Sobre os três indicados ao prêmio recaía o legado,
extremamente difícil de honrar, do único desenho que
até hoje escapou deste preconceito da Academia e que brigou
em pé de igualdade pela estatueta de melhor filme na categoria
principal. O inédito feito de A Bela e a Fera, em
1992, era a coroação do triunfal retorno da Disney
à tela grande, que viria a criar ainda outras obras-primas
como Aladdin e O Rei Leão. Hoje este arco de
produção já mostra falta de fôlego e
parece justificar a necessidade de um feudo particular para o estúdio
no Oscar.
Houve quem resumisse os atributos revolucionários
de A Bela e a Fera pela perfeita sensação de
profundidade na clássica cena do baile de gala, mas o filme
revelava sua verdadeira tridimensionalidade na maturidade do roteiro.
Aqueles idos do começo da década de 90, porém,
eram uma época muito diferente de agora. Talvez até
menos exigente. A Bela e a Fera pôde repetir elementos
instituídos por A Pequena Sereia que atualmente a
mesma Disney faz malabarismos para evitar. Menos que um apelo ao
clichê cômodo, retomar a figura feminina altiva e independente,
por exemplo, soava então como o compromisso da nova Disney
com um novo público infantil precocemente maduro. O arquétipo
retornaria em Pocahontas ou O Corcunda de Notre Dame,
mas nunca com a mesma intensidade e graça de Bela, a heroína
ultrafeminista que se recusa a assumir a vida provinciana que o
bruto Gaston quer lhe oferecer.
Bela
oscila entre dois valores que se tornariam a base moral da nova
safra Disney. Por um lado, ela é fortemente enraizada na
estrutura familiar, especialmente por não possuir uma - assim
como Ariel, e depois como Aladdin, Simba, Quasímodo e Hércules,
todos órfãos. Do outro lado, ela é marginalizada,
incompreendida, apartada da sociedade em que vive. Deseja uma existência
diferente, embora não saiba exatamente o quê ("Eu
quero mais do que consigo descrever", canta em "Belle
Reprise"). A única inovação aqui é
uma inversão que obedece à cartilha feminista do filme:
enquanto a sereia Ariel queria viver em terra firme por causa do
príncipe Eric, Bela primeiro encontra seu novo lar, na forma
de um castelo encantado, e depois apaixona-se por seu parceiro,
a Fera que habita o local.
A dinâmica entre Bela e a Fera, inicialmente
atribulada e depois suave, remete a uma guerra dos sexos nunca antes
vista nos desenhos, porque antes o "príncipe encantado"
sempre preencheu um papel meramente figurativo. Os diálogos
são perspicazes e a fluidez do enredo, ajudada pela excelente
trilha sonora de Howard Ashman e Alan Menken, tornam o florescer
romântico do casal em algo encantador. A Disney sempre foi
habilidosa em lidar com sentimentos que se expressam mais facilmente
numa lição de moral - fosse ele dignidade, inclusão
social, valor familiar, esperança, vitória do preconceito.
O desafio e a beleza de A Bela e a Fera é que é
o único Disney que trata exclusivamente de amor.
Para as crianças, resta o adorável
elenco de apoio, formado pelos objetos encantados que servem a Fera.
Como bem apetece ao universo infantil, eles são reconhecíveis
por características unidimensionais e por piadas que se baseiam
em suas aptidões físicas: o candelabro sedutor, o
bule maternal, a xícara inocente, o relógio atrapalhado...
(Sete anos mais tarde, as animações computadorizadas
da Pixar levariam estes mesmos conceitos à excelência).
Os objetos encantados são também os responsáveis
por acrescer alívio cômico e escapismo fabuloso ao
filme, como na grandiosa cena em que se apresenta o cabaré
culinário de "Be My Guest".
Não
por um acaso, são eles os mais favorecidos pela edição
especial de A Bela e a Fera que a Disney relança agora
no dia 6 de setembro. Os seis minutos de material inédito
são quase todos ocupados por uma nova canção,
"Human Again", já conhecida por quem assistiu ao
musical da Broadway baseado no filme. Nela, vemos os utensílios
mágicos restaurando o castelo, na esperança de que
a paixão entre Bela e a Fera quebre o feitiço que
os aprisionou. Não acrescenta nada de espetacular ao filme,
mas também não precisa: esta é uma fábula
que merece sempre ser revista, independente de relançamentos
comemorativos caça-níqueis. Se você viu quando
era pequeno, poderá confirmar aquele mesmo arrebatamento
infantil digno de todo e qualquer Oscar. Se você ainda não
viu, achando que é filme para criança, eis a chance
de enxergar além do preconceito: esta bela também
é uma fera. 
|