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ANTES TARDE DO QUE NUNCA
Cadão Volpato conversa com
o Rabisco sobre o novo disco do Fellini, Amanhã
É Tarde
por Ana Lira
(ana_lira@terra.com.br)
 la
nasceu há dezoito anos. Morreu e ressuscitou diversas vezes.
É considerada uma das precursoras do estilo musical vigente
atualmente. Não teve espaço nas grandes gravadoras,
mas é cultuada pela crítica e pelos fãs de
carteirinha, que nunca deixaram que ela fosse esquecida. Carrega
consigo o título sugestivo de cult.
Sua sonoridade recebeu elementos variados como: punk,
samba-jazz, MPB, samplers e outros tipos de experimentações.
Possui apenas cinco discos e o primeiro deles fazia referência
ao fim da banda já no título. Lançou seu último
disco em abril de 2002, após treze anos de uma separação
considerada definitiva. Quem teria conseguido tal proeza?
Só uma lenda do rock nacional pode trazer
consigo uma história tão peculiar. A banda em questão
é Fellini, que após todo esse tempo de jejum, resolveu
colocar as idéias em canções e presenteou os
seus fãs com o belíssimo Amanhã É
Tarde, lançado no primeiro semestre deste ano pelo selo
Midsummer
Madness, do Rio de Janeiro.
O disco foi gravado em 2001, em Londres, na casa
do multi-instrumentista e jornalista Thomas Pappon. Ele e o letrista
- e também jornalista e escritor - Cadão Volpato conceberam
as 13 canções do quinto álbum em várias
fases: primeiro Thomas criou as bases melódicas e enviou
para o Brasil. Aqui, Cadão criou as letras e a dupla encontrou-se,
em terras inglesas, para concretizar o projeto, em apenas três
dias. Era o fim de mais uma obra "felliniana" e o início
de mais um rebuliço em torno da volta (ou não!) de
uma das bandas mais importantes do rock brasileiro.
Para esclarecer esta polêmica o Rabisco
fez uma entrevista com Cadão Volpato. Nela ele comenta o
momento atual, a fase antiga da banda, sua carreira como escritor
e outras histórias do Fellini.

Como surgiu a idéia de lançar Amanhã É
Tarde?
O disco saiu porque ainda tínhamos algo a dizer, acho. Foi
uma continuação natural, mesmo dez anos depois. O
Thomas compôs todas as bases em Londres, eu fiz as letras,
fui pra lá e rapidamente resolvemos tudo.
A chegada do álbum foi noticiada em jornais de grande circulação
e o disco é aclamado como o melhor álbum de 2002 por
alguns críticos. Você acredita que há mais espaço
para o trabalho do Fellini atualmente?
Puxa, me diga quem são esses
críticos! De qualquer forma, não acho que haja mais
espaço para o Fellini hoje. O Fellini ainda é, ou
acaba de ser, uma banda independente, sem grana nem expectativas.
O disco está no mercado há cinco meses. Com está
sendo este período "pós - lançamento"?
Acho que nos receberam bem. Os
sites se mostraram mais acolhedores. É bacana ver que as
pessoas que ouvem o Fellini eram garotos quando acabamos a banda
em 1990. O que importa é ser, por um momento, a trilha sonora
de alguém que ainda tem esperança nas coisas.
Vocês farão shows?
Não, não faremos
shows.
Como tem sido o processo de distribuição
do disco? Ele foi lançado em algum outro país?
A distribuição é
precária, como sempre. Lá fora, só sei que
o Stephen Malkmus (Pavement) levou um na mala. Isso é que
é exportação!
Qual a sua opinião a respeito desta movimentação
da classe artística pela numeração dos discos?
O Fellini tem este tipo de preocupação?
Com mil discos de tiragem, não há com o que se preocupar.
Aliás, nunca ganhamos um tostão com música.
Mas tudo o que colocar a indústria na berlinda, eu sou a
favor. "Olha que mundo mais estranho/ Só tem/ fábrica
e banco" ("Contas", do último disco, feita
para minha filha Lívia).
Lembrando um pouquinho do início
da carreira do grupo. Quando vocês começaram, a intenção
era a de se dedicar totalmente à música? Ou a banda
era uma espécie de "projeto paralelo" às
atividades cotidianas?
Existia o ganha-pão de cada
um, e existia o Fellini. As coisas nunca se misturaram. O Fellini
só tinha trabalhador. Viver de música significou,
naquela época, cantar com a touca de Papai Noel no programa
do Chacrinha.

Quantas formações a banda possuiu?
A banda sempre será: Ricardo
Salvagni (baixo), Thomas Pappon (guitarra), Jair Marcos (guitarra)
e eu. As formações alternativas não tiveram
importância.
Qual o lugar mais esquisito em que
vocês se apresentaram?
Em Nova York, no Kenny's Castaway, Village. Para 30 brasileiros
saudosos e um repórter da Rolling Stone.
Qual a situação mais
engraçada que vocês já passaram?
Pra falar a verdade, a gente sempre
se divertiu muito.
Em uma entrevista para a Radio
Onze, você afirmou que o título do primeiro álbum
do Fellini - O Adeus do Fellini - surgiu por causa de um
disco do Durutti Collumn chamado The Return of Durutti Collumn.
Qual a influência da banda sobre vocês?
Nenhuma influência, acho.
Era uma banda que a gente ouvia, como outras. Bem legal, por sinal.
O Fellini influenciou artistas nacionais, como Chico Science. Um
dos encontros de vocês virou matéria na ShowBizz.
Como foi este encontro? Vocês tiveram algum tipo de trabalho
juntos?
Foi um encontro cordial, num hotel.
A gente já se conhecia, mas nunca trabalhou junto. Ele era
um cara legal.
Como você encara o fato do teu
grupo ser considerado uma das "lendas" do rock nacional?
Acho bacana. Mas uma lenda é
uma lenda. Somos coisa do passado.
Durante uma entrevista à mesma
Radio Onze, Thomas
Pappon comentou que você e Renato Russo definiram duas
vertentes de composição poética para o rock
nacional e que ninguém até hoje conseguiu mostrar
um trabalho nivelado ao de vocês dois. Qual a sua opinião
sobre isso? Você é assumidamente poeta?
Poeta é uma palavra muito
forte, que deve ser dita bem baixo, para não incomodar. Eu,
infelizmente, não pertenço a esse grupo, o grupo de
gente como Carlos Drummond de Andrade e Sebastião Uchôa
Leite.
A respeito de sua carreira literária:
você tem planos de lançar algo em breve?
Sim. Uma coisa estranha chamada Questionário. Breve,
ainda este ano.
É verdade que você escreve seus livros à mão?
Existe algum motivo especial?
Eu e o Marçal Aquino escrevemos
assim. Gosto de desenhar. Escrever a mão é como desenhar,
acho.

O que você considera mais trabalhoso: compor ou escrever contos?
Escrever ficção leva
mais tempo.
Como era o processo de composição
do grupo?
O Thomas chegava com uma música
no violão, o grupo trabalhava em cima, eu fazia a letra depois
de uns pá-pá-pás. Invariavelmente.
Agora com o lançamento de Amanhã
É Tarde, qual o destino da banda?
Bem, a banda só existe como trilha sonora
de alguém. É o que eu espero. 
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