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UMA GUERRA DE INTERESSES
A indústria fonográfica
impõe-se sobre assuntos polêmicos e se mantém
acima dos princípios e das regras por ela mesma ditados
por Evandro
Marques (emarquesb@terra.com.br)
 otivados
pelo avassalador sistema capitalista, em torno do qual gira qualquer
sociedade hoje em dia, e atingidos em cheio pela guerra de interesses
a que tal sistema nos remete, o que somos obrigados a aceitar -
muitas das vezes sem a questão de engolir - é um verdadeiro
jogo de poder, onde aquele que é mais forte, ou exerce maior
influência, se sobressai com enorme diferença.
A indústria fonográfica brasileira,
como não poderia deixar de ser, anda em becos tão
escuros quanto tantos outros setores - industriais ou não
- são capazes de caminhar. E os rastros deixados são
tão visíveis quanto estranhos. Há sempre alguém
associado a estas empresas, com algum tipo de interesse também,
empunhando uma vassoura e tentando apagar tais pegadas. Mas nem
tudo que nos parece transparente está tão limpo assim.
Os envolvidos não faltam: artistas que brigam
com gravadoras, que voltam a brigar com artistas e se unem ao governo
para brigarem contra a pirataria; consumidores que se associam de
forma quase indireta aos "piratas" contra os preços
abusivos praticados pela indústria e encontram apoio até
mesmo de alguns artistas contra as gravadoras. Estas, por sua vez,
repassam a culpa ao custo de produção e até
mesmo aos impostos cobrados pelo governo.
Sem saber ao certo a quem culpar, vamos jogando conforme
nossos próprios interesses. A última novidade neste
pequeno mundo de grandes interesses foi anunciada pela gravadora
EMI. A filial brasileira irá começar a utilizar um
sistema antipirataria em todos os CDs que virão a ser lançados.
O recurso, que está em fase de teste, consiste na inserção
de um código de barras em cada produto, impedindo assim que
sejam feitas cópias dos CDs integralmente ou mesmo extrair
faixas ("rip") do CD.
A gravadora anunciou em nota oficial que tal sistema
permitirá apenas que sejam feitas cópias analógicas,
como exemplo, fitas cassetes, e em CD-R utilizando-se apenas a saída
mono do aparelho de gravação. Também será
inserido em cada CD, de acordo com a mesma nota, um selo alertando
ao consumidor sobre a nova tecnologia empregada em fase de teste
e que o mesmo não causará qualquer dano ao seu aparelho,
informando-o assim exatamente o que ele estará levando para
casa.
A evidente desculpa dada pela EMI e pelas demais
gravadoras, que também estão em fase de teste de diversos
outros recursos que possam impedir a cópia de seus produtos,
é a crescente pirataria que, segundo eles, causou uma queda
de 50% nas vendas de CDs. Tal queda é ocasionada não
apenas pela venda de discos piratas nas ruas, mas, também,
pela troca digital de músicas pela internet, com o uso de
programas como o Morpheus e o Kazaa, sucessores do antigo Napster,
que foi condenado por violar os direitos autorais.
Para se amenizar o problema da pirataria virtual,
as maiores gravadoras mundiais iniciaram, há um tempo, a
venda de músicas pela internet através de serviço
pago por assinatura. Mas o serviço não conseguiu atrair
o público em grande escala, como havia acontecido com os
serviços não autorizados.
Na outra ponta deste mesmo fio, estamos nós,
os consumidores, que, forçados pelo aperto financeiro ocasionado
pela economia geral, ficamos impossibilitados de adquirir constantemente
CDs que chegam a ter preços abusivos. Mas os preços
praticados são sempre justificados pelas gravadoras, levando-se
em conta gastos com a produção musical (contratação
de músicos e técnicos de estúdio) e a produção
final do próprio CD, o encarte.
Alguns
artistas, a contraponto e quase que isoladamente, apóiam
também a redução dos preços, dizendo
ser perfeitamente possível a redução da margem
de lucro obtida pelas gravadoras. Enquanto um CD é vendido,
em média, por R$ 30, cada artista ganha por venda unitária
deste mesmo produto algo em torno de R$ 0,10 - isto quando é
pago.
Justificando falta de clareza na arrecadação
de direitos autorais e na quantidade real da venda de CDs, artistas
como o cantor e compositor Lobão brigam pela aprovação
de uma lei que determinaria a numeração de toda obra
artística, literária e científica. Mas esta
realidade está cada vez mais distante de se concretizar.
O projeto, que já foi vetado pelo presidente Fernando Henrique
Cardoso, e que, de acordo com a orientação do mesmo,
teve um grupo de estudo formado para se encontrar possíveis
soluções, também está terminando em
nada.
As gravadoras alegam que a marcação
um a um de cada exemplar é inviável porque implicaria
alterações na linha de produção. Em
contrapartida, empresas especializadas na produção
e implantação de selos antipiratarias enviaram para
essa comissão formada pelo presidente projetos que viabilizariam
a colocação de selos nos produtos com um preço
quase irrisório, cerca de R$ 0,03 por unidade.
E assim, a guerra de interesses vai seguindo, ainda
prevalecendo a lei do mais forte. Estranho pensar que, quando o
interesse em se proteger vem do lado do gigante, a implantação
de qualquer instrumento que faça com que o lucro seja elevado
e os problemas solucionados é sempre viável e de fácil
modificação em qualquer etapa da linha de produção.
Enquanto que, quando a solução do problema pode gerar
uma redução da arrecadação (já
que o mesmo ocasionará uma maior clareza na venda e, conseqüentemente,
pagamento dos devidos direitos autorais), a implantação
de um sistema eficaz e até de baixo custo é penoso
e totalmente inviável.
Então me digam porque a inserção
de um código de barras em cada CD junto com um selo avisando
sobre o sistema antipirataria é viável, enquanto que
a implantação de um selo numerado em cada produto
não? Tudo bem, não é a mesma coisa, mas porque
não há essa boa vontade apenas pela clareza nas contas
de vendas de álbuns? Enquanto ainda prevalecer a guerra de
interesses onde cada indivíduo pense apenas em seu lucro
pessoal, a justiça dificilmente será igual para todos.

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