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O PROFETA DA SEGUNDA-FEIRA
Além de dramaturgo, Nelson
Rodrigues deixou sua marca inconfundível no jornalismo brasileiro
com crônicas e colunas que marcaram época
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br)
 pesar
de exercer o jornalismo desde os treze anos, Nelson Rodrigues só
começou a escrever crônica na década de 1950,
pelas mãos de seu irmão, Mário, no Jornal
dos Sports. Antes, limitava-se a escrever folhetim e os contos
de A Vida Como Ela É. Em 1962, após o fim de
Manchete Esportiva e uma efêmera passagem pelo Diário
da Noite, Roberto Marinho contrata o autor de Vestido de
Noiva não para escrever folhetim, mas crônica esportiva,
mais precisamente uma coluna sobre futebol, intitulada À
Sombra das Chuteiras Imortais. A coluna não tratava apenas
de esporte, e seria também uma transição do
Nelson Rodrigues dramaturgo para o Nelson Rodrigues cronista. Isso
não quer dizer que ele deixa de ser ele mesmo ao mudar de
estilo: o gênero sempre seria um pretexto para ele voltar
sempre aos mesmos temas.
1962: À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS
Há quem diga que o texto de Karl Marx fosse
influenciado pelas suas brotoejas, e que Proust escrevia frases
longas em função da sua dispinéia de asmático.
Em À Sombra..., Nelson era o reflexo da sua miopia.
Ele tinha cadeira cativa no Maracanã, mas não enxergava
patavina do que se passava no gramado. A despeito disto, entre o
fato e o relato, além da sua natural sensibilidade e imaginação,
a sua coluna era uma abstração que beirava o surreal
e o épico, onde uma pelada de rua poderia ser "de uma
complexidade shakespeariana"...
Para o leitor habitual, era fácil perceber
o seu estilo - complexo e rasteiro no vocabulário, movediço
e cheio de clichês na forma. Aqui, Nelson já sedimentava
o seu modus. O futebol era pretexto para todo o tipo de assunto,
que ia da política e sociologia de boteco, citações,
frases feitas, até o mais rasgado folhetim. Como no teatro,
o campo era o espaço da ação da mesma forma
que o palco era o locus do personagem. E assim, um jogador
de futebol ganhava a dimensão de um personagem épico
(ou trágico), e um Fla-Flu, de uma odisséia, com um
"Homero à mão", termo que ele gostava de
usar como exemplo.
Ele criava personagens, geralmente fruto mais da
sua mente do que da observação. Personagens reais
e imaginários que até hoje são lembrados: Didi,
o criador da "Folha Seca", era o "Príncipe
Etíope de Rancho". Amarildo, artífice da Copa
de 1962, era "O Possesso". Como entre ele e o fato havia
o seu ódio à objetividade jornalística e a
sua miopia, tudo tinha um fundo falso. Para ele, o juiz deveria
ser um ladrão de galinha. O videotape era "burro",
as mulheres deixavam de trair, os homens deixavam de atropelar e
serem atropelados. Mortos saíam das tumbas para ver um clássico
e uma vitória tinha sempre uma ajudinha do sobrenatural;
as vitórias estão escritas nos oráculos há
6 mil anos... >>>>
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