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5 a 18 de setembro de 2002


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O PROFETA DA SEGUNDA-FEIRA
Além de dramaturgo, Nelson Rodrigues deixou sua marca inconfundível no jornalismo brasileiro com crônicas e colunas que marcaram época

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

pesar de exercer o jornalismo desde os treze anos, Nelson Rodrigues só começou a escrever crônica na década de 1950, pelas mãos de seu irmão, Mário, no Jornal dos Sports. Antes, limitava-se a escrever folhetim e os contos de A Vida Como Ela É. Em 1962, após o fim de Manchete Esportiva e uma efêmera passagem pelo Diário da Noite, Roberto Marinho contrata o autor de Vestido de Noiva não para escrever folhetim, mas crônica esportiva, mais precisamente uma coluna sobre futebol, intitulada À Sombra das Chuteiras Imortais. A coluna não tratava apenas de esporte, e seria também uma transição do Nelson Rodrigues dramaturgo para o Nelson Rodrigues cronista. Isso não quer dizer que ele deixa de ser ele mesmo ao mudar de estilo: o gênero sempre seria um pretexto para ele voltar sempre aos mesmos temas.

1962: À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS

Há quem diga que o texto de Karl Marx fosse influenciado pelas suas brotoejas, e que Proust escrevia frases longas em função da sua dispinéia de asmático. Em À Sombra..., Nelson era o reflexo da sua miopia. Ele tinha cadeira cativa no Maracanã, mas não enxergava patavina do que se passava no gramado. A despeito disto, entre o fato e o relato, além da sua natural sensibilidade e imaginação, a sua coluna era uma abstração que beirava o surreal e o épico, onde uma pelada de rua poderia ser "de uma complexidade shakespeariana"...

Para o leitor habitual, era fácil perceber o seu estilo - complexo e rasteiro no vocabulário, movediço e cheio de clichês na forma. Aqui, Nelson já sedimentava o seu modus. O futebol era pretexto para todo o tipo de assunto, que ia da política e sociologia de boteco, citações, frases feitas, até o mais rasgado folhetim. Como no teatro, o campo era o espaço da ação da mesma forma que o palco era o locus do personagem. E assim, um jogador de futebol ganhava a dimensão de um personagem épico (ou trágico), e um Fla-Flu, de uma odisséia, com um "Homero à mão", termo que ele gostava de usar como exemplo.

Ele criava personagens, geralmente fruto mais da sua mente do que da observação. Personagens reais e imaginários que até hoje são lembrados: Didi, o criador da "Folha Seca", era o "Príncipe Etíope de Rancho". Amarildo, artífice da Copa de 1962, era "O Possesso". Como entre ele e o fato havia o seu ódio à objetividade jornalística e a sua miopia, tudo tinha um fundo falso. Para ele, o juiz deveria ser um ladrão de galinha. O videotape era "burro", as mulheres deixavam de trair, os homens deixavam de atropelar e serem atropelados. Mortos saíam das tumbas para ver um clássico e uma vitória tinha sempre uma ajudinha do sobrenatural; as vitórias estão escritas nos oráculos há 6 mil anos... >>>>