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5 a 18 de setembro de 2002


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O PROFETA DA SEGUNDA-FEIRA (cont.)

1967: NASCEM AS CONFISSÕES

Mas o gênero que mais o notabilizaria como polemista e escritor da raça foram as Confissões, publicadas a partir de 1967 em O Globo, onde manteve uma coluna diária até a sua morte, em 1980. Variação da crônica, quase no modelo similar de planos diferentes e simultâneos de Vestido de Noiva, as Confissões iam da memória do narrador até a alucinação, e desta para aquela. Coincidentemente, Nelson escrevia sobre política, sociologia e arte num dos períodos mais conturbados da história recente brasileira.

Tudo se insurgia, emergia e se fragmentava no cotidiano das Confissões: os festivais da canção, repressão policial, Roda Viva, Guimarães Rosa, a "esquerda festiva", Sartre, a Guerra do Vietnã, Vandré e Caetano, Pinheiro Machado, o "Antonio's", os antigos carnavais, o Jornal do Brasil, Antônio Callado, Tolstói, o Alfredo da La Traviata, Cláudio Mello e Souza, o "único brasileiro que ainda se ruboriza", Nelson Mota, "pálido como um Werther", Vladmir Palmeira, Alceu Amoroso Lima, o Pasquim, entre outros. Se como dramaturgo ele era taxado de "comunista", agora, ele era "O Plágio" (segundo uns, imitava desde o Eça até ele mesmo) ou "O Reacionário", adjetivo que "adotou" para sempre.

O seu "reacionarismo" era, inclusive, explorado por ele. Como nas crônicas sobre futebol, as Confissões iam do lirismo pungente ao chiste e ao deboche. Seus adjetivos e lugares-comuns chegavam às raias do absurdo. O diálogo é rápido, como no seu teatro e em seu folhetim, seguindo tanto a estrutura da linguagem formal como a falada. Em contraponto, ele escrevia como se falasse com o leitor. Se esquecia de um nome, ao invés de editar o texto, ele se "lembrava" parágrafos adiante. Ou então escrevia pelos cotovelos, até "fugir" do assunto, e indagar, no texto: "onde é que eu estava, mesmo?".

Foi nessas crônicas que Nelson cunhou uma série de expressões que logo passavam ao uso corrente, e sobrevivem até hoje, como "doce radical", "óbvio ululante", "de babar na gravata", "obeso como um Nero de Cecil B. de Mile", "gente até no lustre", "manso como bichinho de avenca" e "lágrimas de esguicho", entre outros. Muito do supostamente "real" era mesmo fruto da sua imaginação. Como as "entrevistas" que, segundo ele, se passavam à meia-noite, num terreno baldio, à luz de archotes. Sádico, transformava seus amigos (e inimigos) em personagens maníacos e tragicômicos, que apareciam e desapareciam segundo a sua batuta. Tanto "promoveu" Hélio Pellegrino (um dos líderes da passeata dos 100 mil e seu amigo) que o psicanalista foi parar no xadrez.

Este episódio mostra tanto poder do cronista como formador de opinião: sua coluna era lida com avidez por amigos e inimigos seus. Pellegrino era seu amigo, mas passava a imagem de "subversivo" nas crônicas. Por outro lado, ele desempenhava um papel que o aproximava do governo militar. Seu anticomunismo lhe dava uma aura de conservador. Se o Nelson dramaturgo era censurado, o Nelson reacionário o transformou em um amigo do regime. A "brincadeira" botava seus amigos em apuros, mas eles acabavam se safando por conta dele. Pellegrino saiu da prisão graças ao jornalista, e tudo acabou bem.

"COISAS COMPROMETEDORAS"

Depois, escrevia falando de si: "realmente tenho escrito e insinuado coisas altamente comprometedoras. (...) Certa feita, propus um esquema de salvação para as esquerdas. (..) elas deveriam ser substituídas até o último idiota [e] encaminhadas à reprodução. O simples fato de ter oferecido a sugestão acima foi considerado um ato de extrema direita. Mas há pior: quando começou a briga entre o Egito e Israel [Guerra dos Seis Dias, 1967], correram ao d. Hélder. O nosso arcebispo respondeu como um Moisés de Cecil B. De Mile: 'Não me perguntem quem tem razão'. Novamente assumi a atitude de um direitismo ululante". Este trecho, bravata típica do seu deboche ostensivo, poderia gerar tanto o riso de um leitor quanto o ódio de outro; se o seu enorme talento não foi posto em dúvida, a sua pessoa e as suas posições políticas dividiam a crítica e parte do público, que ora contestava a Ditadura, ora tecia loas ao regime cubano. Por conta deste prisma - pelo qual não poderíamos compreendê-lo com isenção - há quem chegasse a comparar Nelson Rodrigues ao escritor francês Honoré de Balzac: artista revolucionário, homem conservador. Conservador? Hoje vemos que ele não era tão reacionário como parecia... >>>>