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O PROFETA DA SEGUNDA-FEIRA (cont.)
1967: NASCEM AS CONFISSÕES
Mas
o gênero que mais o notabilizaria como polemista e escritor
da raça foram as Confissões, publicadas a partir
de 1967 em O Globo, onde manteve uma coluna diária
até a sua morte, em 1980. Variação da crônica,
quase no modelo similar de planos diferentes e simultâneos
de Vestido de Noiva, as Confissões iam da memória
do narrador até a alucinação, e desta para
aquela. Coincidentemente, Nelson escrevia sobre política,
sociologia e arte num dos períodos mais conturbados da história
recente brasileira.
Tudo se insurgia, emergia e se fragmentava no cotidiano
das Confissões: os festivais da canção,
repressão policial, Roda Viva, Guimarães Rosa,
a "esquerda festiva", Sartre, a Guerra do Vietnã,
Vandré e Caetano, Pinheiro Machado, o "Antonio's",
os antigos carnavais, o Jornal do Brasil, Antônio Callado,
Tolstói, o Alfredo da La Traviata, Cláudio Mello e
Souza, o "único brasileiro que ainda se ruboriza",
Nelson Mota, "pálido como um Werther", Vladmir
Palmeira, Alceu Amoroso Lima, o Pasquim, entre outros. Se
como dramaturgo ele era taxado de "comunista", agora,
ele era "O Plágio" (segundo uns, imitava desde
o Eça até ele mesmo) ou "O Reacionário",
adjetivo que "adotou" para sempre.
O seu "reacionarismo" era, inclusive, explorado
por ele. Como nas crônicas sobre futebol, as Confissões
iam do lirismo pungente ao chiste e ao deboche. Seus adjetivos e
lugares-comuns chegavam às raias do absurdo. O diálogo
é rápido, como no seu teatro e em seu folhetim, seguindo
tanto a estrutura da linguagem formal como a falada. Em contraponto,
ele escrevia como se falasse com o leitor. Se esquecia de um nome,
ao invés de editar o texto, ele se "lembrava" parágrafos
adiante. Ou então escrevia pelos cotovelos, até "fugir"
do assunto, e indagar, no texto: "onde é que eu estava,
mesmo?".
Foi nessas crônicas que Nelson cunhou uma série
de expressões que logo passavam ao uso corrente, e sobrevivem
até hoje, como "doce radical", "óbvio
ululante", "de babar na gravata", "obeso como
um Nero de Cecil B. de Mile", "gente até no lustre",
"manso como bichinho de avenca" e "lágrimas
de esguicho", entre outros. Muito do supostamente "real"
era mesmo fruto da sua imaginação. Como as "entrevistas"
que, segundo ele, se passavam à meia-noite, num terreno baldio,
à luz de archotes. Sádico, transformava seus amigos
(e inimigos) em personagens maníacos e tragicômicos,
que apareciam e desapareciam segundo a sua batuta. Tanto "promoveu"
Hélio Pellegrino (um dos líderes da passeata dos 100
mil e seu amigo) que o psicanalista foi parar no xadrez.
Este episódio mostra tanto poder do cronista
como formador de opinião: sua coluna era lida com avidez
por amigos e inimigos seus. Pellegrino era seu amigo, mas passava
a imagem de "subversivo" nas crônicas. Por outro
lado, ele desempenhava um papel que o aproximava do governo militar.
Seu anticomunismo lhe dava uma aura de conservador. Se o Nelson
dramaturgo era censurado, o Nelson reacionário o transformou
em um amigo do regime. A "brincadeira" botava seus amigos
em apuros, mas eles acabavam se safando por conta dele. Pellegrino
saiu da prisão graças ao jornalista, e tudo acabou
bem.
"COISAS COMPROMETEDORAS"
Depois, escrevia falando de si: "realmente tenho
escrito e insinuado coisas altamente comprometedoras. (...) Certa
feita, propus um esquema de salvação para as esquerdas.
(..) elas deveriam ser substituídas até o último
idiota [e] encaminhadas à reprodução. O simples
fato de ter oferecido a sugestão acima foi considerado um
ato de extrema direita. Mas há pior: quando começou
a briga entre o Egito e Israel [Guerra dos Seis Dias, 1967],
correram ao d. Hélder. O nosso arcebispo respondeu como um
Moisés de Cecil B. De Mile: 'Não me perguntem quem
tem razão'. Novamente assumi a atitude de um direitismo ululante".
Este trecho, bravata típica do seu deboche ostensivo, poderia
gerar tanto o riso de um leitor quanto o ódio de outro; se
o seu enorme talento não foi posto em dúvida, a sua
pessoa e as suas posições políticas dividiam
a crítica e parte do público, que ora contestava a
Ditadura, ora tecia loas ao regime cubano. Por conta deste prisma
- pelo qual não poderíamos compreendê-lo com
isenção - há quem chegasse a comparar Nelson
Rodrigues ao escritor francês Honoré de Balzac: artista
revolucionário, homem conservador. Conservador? Hoje vemos
que ele não era tão reacionário como parecia...
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