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5 a 18 de setembro de 2002


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A FAUNA PARTICULAR DE NELSON RODRIGUES

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

 cronista Nelson Rodrigues também criou personagens típicos e fixos, que apareciam de acordo com o assunto ou a ocasião. Uns eram inspirados na lembrança dos tempos de menino na rua Alegre ou oriundos da espessa fauna urbana, sua inspiração. Na verdade, arquétipos da sociedade carioca: contínuos, dondocas, políticos, assassinos, maridos traídos, meninas suicidas, milionários, guardadores de automóvel. Outros personagens eram seus amigos mais chegados ou até mesmo seus desafetos (sim, ele era fiel aos seus desafetos). Sobre estes, qualquer semelhança não é mera coincidência. Entre eles:

ALUNA DE PSICOLOGIA DA PUC: Tendo uma concepção diversa do subconsciente humano, Nelson Rodrigues achava graça em imaginar que se pudessem "domesticar" especialistas em psicologia, ainda mais numa instituição católica. Daí o chiste. Geralmente "ela" o atropela na redação, fazendo alguma pergunta "estapafúrdia".

O PADRE DE PASSEATA: Variação do padre de sarau, que cita Marx e Freud. Segundo Nelson, ele é geralmente protegido da anfitriã, e é a alma da festa, com suas frases de efeito. A própria metáfora sugere o deslocamento do padre (sagrado) da passeata (secular). Não confundir com o Dom Hélder.

O LÍDER: O líder é um canalha. Pelo menos, para Nelson. A afirmação foi contestada. "Gandhi era um canalha?". Não. Segundo ele, o líder canalha é líder que não ama. Logo, Kennedy não era um líder, porque amava (Agora eu é que não entendi).

OTTO LARA RESENDE: Flor de obsessão, o jornalista mineiro era chamado de o "gênio de uma obra só". De vez em quando, aparecia na boca de alguém, que indagava a Nelson: "Leste a coluna do Otto? Um gênio". Uma vez, o Otto viajou para a Europa e, desde então, o Nelson o chamou de "ex-brasileiro". Este, por sua vez, quanto mais reclamava para não ser citado, mais aparecia nas crônicas. "Com o Nelson, só a tiro!", desabafou. O cronista ensinava: "Existem dois Ottos, um público e outro, de terreno baldio: e poucos provam do legítimo escocês Otto secretíssimo".

ALCEU DE AMOROSO LIMA: Líder católico, teria sido indelicado ao falar com Nelson Rodrigues ao telefone, perguntando ao jornalista: "você aí, nesta lama...". O rancor foi tamanho que o "nosso Tristão" virou o exemplo do opiniático apologista do "poder jovem". Nas crônicas de Nelson, ele é o exemplo do moralista mistificador e demagogo. Se reconciliariam, tempos depois, pelo menos na frente das câmeras...

A CABRA VADIA: Sua musa inspiradora. Sempre que o Nelson fazia uma das suas entrevistas imaginárias, ele conduzia o entrevistado até um terreno baldio, à meia-noite, onde, durante a conversa, a única testemunha era a cabra vadia, que ficava num canto, ruminando a paisagem. Acabou virando personagem real, quando as entrevistas viraram atração de tevê. Tem até a fotografia clássica do dramaturgo, passando pela rua com a cabra. Na coleira, é claro.

KARL MARX: Segundo Nelson, se lhe perguntassem quais seriam as suas últimas palavras, estas seriam: "que boa besta é o Marx!". Para o cronista, não foi o ilustre filósofo quem mudou a face do mundo, mas o contrário. "Foi o mundo quem mudou a face de Marx". Nelson sempre encontrava um sátiro de sarau de grã-finos (não confundir com o padre de sarau), que lhe dizia: "seja marxista!". Para o cronista, ninguém foi mais ferozmente incompreendido, ninguém mais tenazmente falsificado. "E como o corrompem", conclui.

PALHARES: Vil e enganador, o Palhares nasceu nos folhetins do tempo da Suzana Flag. Corresponde ao mito do cunhado. Conhecido como aquele que "não respeita nem poste", tem fixação na mulher do irmão. Seu sonho é agarrar à galega a bem-amada, num canto da casa. "Quem nunca amou a cunhada não sabe o que é o amor", diz Palhares, ao interpelar Nelson sob um sol de derreter catedrais.

A ÚLCERA: Ela era um elemento fatal na vida de Nelson Rodrigues. Ninguém foi tão promovido do que a úlcera dele, que era mais um acidente psicossomático do que propriamente um personagem. Mas ela ganhou vida sob a forma de prosopopéia. A úlcera religiosamente o acordava, às 3 de manhã. "É uma dor amestrada, que vem sempre na hora certa", disse ele, numa de suas Confissões. Para aplacar a dor, ele tinha sempre "um prato de mingau, guardado de véspera". Segundo Nelson, ela era tratada como uma "gata de luxo".

O IDIOTA DA OBJETIVIDADE: Conhecido como copidesque. Função do jornalismo que dividiu a medida na profissão. De repente, não havia mais subjetividade entre o fato e o relato, e toda uma geração desapareceu com o advento do idiota da objetividade. Pelo adjetivo, dá para ver de que lado Nelson estava. Ele dizia que um copidesque seria capaz de transformar Marcel Proust em artigo de fundo. "É capaz de reescrever Dante" disse certa vez. "Botem um Dante na mesa do copidesque, e não ficará vírgula sobre vírgula da Divina Comédia".

DOM HÉLDER CÂMARA: Outro desafeto de Nelson. Na verdade, a inimizade nasceu de motivos pessoais do cronista. De repente, o arcebispo (ou o arzobispo de la revolución) era o exemplo do líder anti-patriota, ou do homem público que se auto-promovia em detrimento dos seus serviços como líder católico. Na verdade, a implicância não procedia - ou melhor, Dom Hélder não merecia tanto deboche. Nelson não deixava escapar qualquer afirmação do arcebispo. Uma vez, ele teve a "infeliz idéia" de utilizar reco-reco e cuíca nas missas. O Nelson imaginou o santo padre regendo uma missa cônica, com coroinhas fazendo evoluções como passistas, ou fazendo malabarismos, "equilibrando bolas no focinho, como focas amestradas"...

GRÃ-FINA DAS NARINAS DE CADÁVER: Mais uma figura da mitologia rodrigueana. Ao subir o elevador para as cadeiras sociais do Maracanã, ele teria tropeçado nesta curiosa figura. Alta, altiva, altaneira. De sua cadeira cativa, a observava de longe. Era o mais sincero de alienação. Sempre que os times entravam em campo, ela cochichava para alguém, curiosa: "quem é a bola?".