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A FAUNA PARTICULAR DE NELSON RODRIGUES
por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)
 cronista
Nelson Rodrigues também criou personagens típicos
e fixos, que apareciam de acordo com o assunto ou a ocasião.
Uns eram inspirados na lembrança dos tempos de menino na
rua Alegre ou oriundos da espessa fauna urbana, sua inspiração.
Na verdade, arquétipos da sociedade carioca: contínuos,
dondocas, políticos, assassinos, maridos traídos,
meninas suicidas, milionários, guardadores de automóvel.
Outros personagens eram seus amigos mais chegados ou até
mesmo seus desafetos (sim, ele era fiel aos seus desafetos). Sobre
estes, qualquer semelhança não é mera coincidência.
Entre eles:
ALUNA DE PSICOLOGIA DA PUC: Tendo uma concepção
diversa do subconsciente humano, Nelson Rodrigues achava graça
em imaginar que se pudessem "domesticar" especialistas
em psicologia, ainda mais numa instituição católica.
Daí o chiste. Geralmente "ela" o atropela na redação,
fazendo alguma pergunta "estapafúrdia".
O PADRE DE PASSEATA: Variação
do padre de sarau, que cita Marx e Freud. Segundo Nelson, ele é
geralmente protegido da anfitriã, e é a alma da festa,
com suas frases de efeito. A própria metáfora sugere
o deslocamento do padre (sagrado) da passeata (secular). Não
confundir com o Dom Hélder.
O LÍDER: O líder é
um canalha. Pelo menos, para Nelson. A afirmação foi
contestada. "Gandhi era um canalha?". Não. Segundo
ele, o líder canalha é líder que não
ama. Logo, Kennedy não era um líder, porque amava
(Agora eu é que não entendi).
OTTO LARA RESENDE: Flor de obsessão,
o jornalista mineiro era chamado de o "gênio de uma obra
só". De vez em quando, aparecia na boca de alguém,
que indagava a Nelson: "Leste a coluna do Otto? Um gênio".
Uma vez, o Otto viajou para a Europa e, desde então, o Nelson
o chamou de "ex-brasileiro". Este, por sua vez, quanto
mais reclamava para não ser citado, mais aparecia nas crônicas.
"Com o Nelson, só a tiro!", desabafou. O cronista
ensinava: "Existem dois Ottos, um público e outro, de
terreno baldio: e poucos provam do legítimo escocês
Otto secretíssimo".
ALCEU DE AMOROSO LIMA: Líder católico,
teria sido indelicado ao falar com Nelson Rodrigues ao telefone,
perguntando ao jornalista: "você aí, nesta lama...".
O rancor foi tamanho que o "nosso Tristão" virou
o exemplo do opiniático apologista do "poder jovem".
Nas crônicas de Nelson, ele é o exemplo do moralista
mistificador e demagogo. Se reconciliariam, tempos depois, pelo
menos na frente das câmeras...
A CABRA VADIA: Sua musa inspiradora. Sempre
que o Nelson fazia uma das suas entrevistas imaginárias,
ele conduzia o entrevistado até um terreno baldio, à
meia-noite, onde, durante a conversa, a única testemunha
era a cabra vadia, que ficava num canto, ruminando a paisagem. Acabou
virando personagem real, quando as entrevistas viraram atração
de tevê. Tem até a fotografia clássica do dramaturgo,
passando pela rua com a cabra. Na coleira, é claro.
KARL MARX: Segundo Nelson, se lhe perguntassem
quais seriam as suas últimas palavras, estas seriam: "que
boa besta é o Marx!". Para o cronista, não foi
o ilustre filósofo quem mudou a face do mundo, mas o contrário.
"Foi o mundo quem mudou a face de Marx". Nelson sempre
encontrava um sátiro de sarau de grã-finos (não
confundir com o padre de sarau), que lhe dizia: "seja marxista!".
Para o cronista, ninguém foi mais ferozmente incompreendido,
ninguém mais tenazmente falsificado. "E como o corrompem",
conclui.
PALHARES: Vil e enganador, o Palhares nasceu
nos folhetins do tempo da Suzana Flag. Corresponde ao mito do cunhado.
Conhecido como aquele que "não respeita nem poste",
tem fixação na mulher do irmão. Seu sonho é
agarrar à galega a bem-amada, num canto da casa. "Quem
nunca amou a cunhada não sabe o que é o amor",
diz Palhares, ao interpelar Nelson sob um sol de derreter catedrais.
A ÚLCERA: Ela era um elemento fatal
na vida de Nelson Rodrigues. Ninguém foi tão promovido
do que a úlcera dele, que era mais um acidente psicossomático
do que propriamente um personagem. Mas ela ganhou vida sob a forma
de prosopopéia. A úlcera religiosamente o acordava,
às 3 de manhã. "É uma dor amestrada, que
vem sempre na hora certa", disse ele, numa de suas Confissões.
Para aplacar a dor, ele tinha sempre "um prato de mingau, guardado
de véspera". Segundo Nelson, ela era tratada como uma
"gata de luxo".
O IDIOTA DA OBJETIVIDADE: Conhecido como
copidesque. Função do jornalismo que dividiu a medida
na profissão. De repente, não havia mais subjetividade
entre o fato e o relato, e toda uma geração desapareceu
com o advento do idiota da objetividade. Pelo adjetivo, dá
para ver de que lado Nelson estava. Ele dizia que um copidesque
seria capaz de transformar Marcel Proust em artigo de fundo. "É
capaz de reescrever Dante" disse certa vez. "Botem um
Dante na mesa do copidesque, e não ficará vírgula
sobre vírgula da Divina Comédia".
DOM HÉLDER CÂMARA: Outro desafeto
de Nelson. Na verdade, a inimizade nasceu de motivos pessoais do
cronista. De repente, o arcebispo (ou o arzobispo de la revolución)
era o exemplo do líder anti-patriota, ou do homem público
que se auto-promovia em detrimento dos seus serviços como
líder católico. Na verdade, a implicância não
procedia - ou melhor, Dom Hélder não merecia tanto
deboche. Nelson não deixava escapar qualquer afirmação
do arcebispo. Uma vez, ele teve a "infeliz idéia"
de utilizar reco-reco e cuíca nas missas. O Nelson imaginou
o santo padre regendo uma missa cônica, com coroinhas fazendo
evoluções como passistas, ou fazendo malabarismos,
"equilibrando bolas no focinho, como focas amestradas"...
GRÃ-FINA DAS NARINAS DE CADÁVER:
Mais uma figura da mitologia rodrigueana. Ao subir o elevador para
as cadeiras sociais do Maracanã, ele teria tropeçado
nesta curiosa figura. Alta, altiva, altaneira. De sua cadeira cativa,
a observava de longe. Era o mais sincero de alienação.
Sempre que os times entravam em campo, ela cochichava para alguém,
curiosa: "quem é a bola?". 
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