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5 a 18 de setembro de 2002


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BALAS AOS CÃES
Pet Shop Mundo Cão, o novo disco de Zeca Baleiro, faz bom uso da música eletrônica

por Marcio Caparica (marciocaparica@hotmail.com)

isturar ritmos é uma tendência velha da música brasileira. Misturar música eletrônica com ritmos brasileiros, então, já deixou de ser novidade faz tempo. Há vários artistas modernosos por aí que fizeram trabalhos baseados exclusivamente nisso e ficaram por isso mesmo. Felizmente esse não é o caso de Zeca Baleiro. Pet Shop Mundo Cão, seu novo disco, tem como conceito (ou "alma", como ele prefere dizer) utilizar a eletrônica. Mas Baleiro não se apóia exclusivamente nela, e, com isso, consegue dar saltos bem maiores.

Pet Shop Mundo Cão chega dois anos depois do disco anterior de Baleiro, Líricas. Depois de dois álbuns bastante esquizofrênicos (Por Onde Andará Stephen Fry, de 1997, e Vô Imbolá, de 1999), em que um pagode podia ser seguido de uma balada romântica para então entrar um "tecno-xaxado", em Líricas o artista criou um trabalho coeso e centrado em sons acústicos e músicas mais suaves. Agora, no novo disco, Baleiro parece ter encontrado um meio-termo entre os dois estilos.

Os sons eletrônicos costuram em torno de si os reggaes, raps, baladas, sambas e pagodes presentes em Pet Shop, sem no entanto se sobressair à musicalidade popular de Zeca. A primeira faixa já demonstra bem isso: por baixo do sambão de "Minha Tribo Sou Eu" está uma batida insistente tipicamente techno, que às vezes ganha espaço, mas logo volta a seu lugar. A mistura é tão bem feita que nenhum dos dois ritmos agride o outro, e o estranhamento é mínimo (e saudável). Isso continua em faixas como "O Hacker" e "Mundo dos Negócios". Mesmo a supereletrônica "Drumembêis" tem uma letra com jeitão de repente nordestino que se casa perfeitamente com o "tunts-tum" drum'n'bass que a canção homenageia.

A característica que Baleiro manteve de seus discos anteriores foi a originalidade de suas letras. O compositor continua presenteando seu público com sacadas e rimas que poucos outros são capazes de produzir. "Baby eu te espero / para o chat das cinco" ("O Hacker"), "ele roubava o que eu mais valia" ("Eu Despedi o Meu Patrão") e "tava mais bobo que banda de rock / que um palhaço do Circo Vostok" ("Telegrama") são apenas alguns dos exemplos disso que podem ser encontrados em Pet Shop Mundo Cão.

Muito se falou das várias participações especiais que aparecem no disco (Elba Ramalho, Karnak e Z'África Brasil, entre outros), mas um detalhe realmente impressionante é a grande presença de literatura entremeada em suas faixas. Recitados no meio das músicas estão versos de Dante Milano, Sousândrade e Gregório de Matos, algo que passa quase desapercebido para quem não escrutiniza o encarte. São ingredientes saborosos que só tornam melhor a mistura preparada por Baleiro.

Com esse disco Zeca Baleiro conseguiu se manter na sua posição como um dos melhores e mais criativos compositores da música brasileira atual. Um álbum original desde a caixa (que vem com dois encartes), e cheio de surpresas para os apreciadores de música nacional. Quem dera que o nosso mundo cão fosse tão bom quanto o criado por ele.