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BALAS AOS CÃES
Pet Shop Mundo Cão,
o novo disco de Zeca Baleiro, faz bom uso da música eletrônica
por Marcio
Caparica (marciocaparica@hotmail.com)
 isturar
ritmos é uma tendência velha da música brasileira.
Misturar música eletrônica com ritmos brasileiros,
então, já deixou de ser novidade faz tempo. Há
vários artistas modernosos por aí que fizeram trabalhos
baseados exclusivamente nisso e ficaram por isso mesmo. Felizmente
esse não é o caso de Zeca
Baleiro. Pet Shop Mundo Cão, seu novo disco, tem
como conceito (ou "alma", como ele prefere dizer) utilizar
a eletrônica. Mas Baleiro não se apóia exclusivamente
nela, e, com isso, consegue dar saltos bem maiores.
Pet Shop Mundo Cão chega dois anos
depois do disco anterior de Baleiro, Líricas. Depois
de dois álbuns bastante esquizofrênicos (Por Onde
Andará Stephen Fry, de 1997, e Vô Imbolá,
de 1999), em que um pagode podia ser seguido de uma balada romântica
para então entrar um "tecno-xaxado", em Líricas
o artista criou um trabalho coeso e centrado em sons acústicos
e músicas mais suaves. Agora, no novo disco, Baleiro parece
ter encontrado um meio-termo entre os dois estilos.
Os
sons eletrônicos costuram em torno de si os reggaes, raps,
baladas, sambas e pagodes presentes em Pet Shop, sem no entanto
se sobressair à musicalidade popular de Zeca. A primeira
faixa já demonstra bem isso: por baixo do sambão de
"Minha Tribo Sou Eu" está uma batida insistente
tipicamente techno, que às vezes ganha espaço,
mas logo volta a seu lugar. A mistura é tão bem feita
que nenhum dos dois ritmos agride o outro, e o estranhamento é
mínimo (e saudável). Isso continua em faixas como
"O Hacker" e "Mundo dos Negócios". Mesmo
a supereletrônica "Drumembêis" tem uma letra
com jeitão de repente nordestino que se casa perfeitamente
com o "tunts-tum" drum'n'bass que a canção
homenageia.
A característica que Baleiro manteve de seus
discos anteriores foi a originalidade de suas letras. O compositor
continua presenteando seu público com sacadas e rimas que
poucos outros são capazes de produzir. "Baby eu te espero
/ para o chat das cinco" ("O Hacker"), "ele
roubava o que eu mais valia" ("Eu Despedi o Meu Patrão")
e "tava mais bobo que banda de rock / que um palhaço
do Circo Vostok" ("Telegrama") são apenas
alguns dos exemplos disso que podem ser encontrados em Pet Shop
Mundo Cão.
Muito
se falou das várias participações especiais
que aparecem no disco (Elba Ramalho, Karnak e Z'África Brasil,
entre outros), mas um detalhe realmente impressionante é
a grande presença de literatura entremeada em suas faixas.
Recitados no meio das músicas estão versos de Dante
Milano, Sousândrade e Gregório de Matos, algo que passa
quase desapercebido para quem não escrutiniza o encarte.
São ingredientes saborosos que só tornam melhor a
mistura preparada por Baleiro.
Com esse disco Zeca Baleiro conseguiu se manter na
sua posição como um dos melhores e mais criativos
compositores da música brasileira atual. Um álbum
original desde a caixa (que vem com dois encartes), e cheio de surpresas
para os apreciadores de música nacional. Quem dera que o
nosso mundo cão fosse tão bom quanto o criado por
ele. 
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