|
MALDITO JORNALISTA
Acaba esse mês a série
de quadrinhos Transmetropolitan, sucesso de humor cáustico
do escritor Warren Ellis
por Marcio
Caparica (marciocaparica@hotmail.com)
 u
odeio vocês e eu odeio esse lugar." Com essas palavras,
o jornalista Spider Jerusalem conquistou uma legião de leitores
que amavam odiá-lo e não perdiam uma sequer de suas
colunas. Flanqueado por suas "assistentes imundas", Jerusalem
protagonizava a série de quadrinhos Transmetropolitan,
publicada pelo selo Vertigo da DC Comics nos Estados Unidos, e que
esse mês chega ao fim.
Criada por Warren
Ellis e desenhada por Darick
Robertson, Transmetropolitan foi criada em 1998 para
a estréia do selo Helix, uma investida da DC no gênero
de ficção científica. O selo durou pouco mais
de um ano, mas a revista sobreviveu e migrou para a Vertigo, destinada
a leitores adultos. Talvez essa seja a melhor maneira de definir
o título: ficção científica em quadrinhos
para gente grande. Ler Transmet é entrar num barco
futurista, cujas linhas modernas não conseguem disfarçar
a trilha de óleo diesel que ele deixa para trás ou
as pessoas famintas que o fazem funcionar.
Spider
Jerusalem vive num futuro não muito distante. O mundo sobreviveu
a um inverno nuclear e, agora que as dificuldades foram resolvidas,
não quer mais que uma vida medíocre. A tecnologia
permite pedir comida ou roupas a seu processador molecular doméstico.
Essa mesma nanotecnologia criou sensores tão minúsculos
e numerosos que virtualmente não existe mais privacidade.
Mas quem se importa com isso, se seu programa preferido pode ser
projetado em qualquer superfície na hora que mais lhe agradar?
Alterações morfogenéticas, dando a um indivíduo
características de um animal (ou mesmo de um alienígena
ou dois), são tão comuns quanto piercings hoje
em dia. E, para quem aprecia coisas realmente novas, há
hambúrgueres de carne humana, feita de clones criados especialmente
para isso, que têm cérebro o suficiente apenas para
regular suas funções orgânicas até que
cheguem à idade adulta. É um futuro em que o que é
bom hoje será muito melhor, o que não consegue compensar
pelas coisas que, se hoje já são ruins, no futuro
estarão muito piores.
No primeiro número da série, Spider
Jerusalem, depois de publicar livros de imenso sucesso, é
forçado por cláusulas contratuais a abandonar seu
refúgio nas montanhas e retornar à Cidade. O jornalista
se vê obrigado a voltar a escrever e a exercer sua profissão
da única maneira que considera possível: escancarando
as verdades que vê, ofendendo a tudo e a todos, tentando com
suas colunas arrancar seus leitores da vida alienada que levam.
Não há abismo social grande o suficiente que escape
da pena de Jerusalem - nem mesmo o presidente está imune
ao veneno do personagem. No entanto, num mundo em que os poderosos
fazem praticamente o que querem e a ética quase não
existe mais, Spider logo vê que as conseqüências
do que escreve afetam não apenas a ele, mas também
influenciam a vida - e a morte - de milhares de pessoas.
Não
que Spider Jerusalem realmente se importe. Warren Ellis criou um
protagonista surpreendentemente raso: sua reação para
quase tudo é ligar a tecla "foda-se" e usar o poder
da imprensa violentamente em represália - ou mesmo violência
física, se necessário. São raras as vezes em
que Spider pára para pensar nas conseqüëncias de
seus atos. É essa atitude, no entanto, que proporciona várias
cenas deliciosas e diálogos mordazes e hilariantes. Spider
é tão odioso que sua esposa preferiu ser congelada
criogenicamente (com instruções específicas
de não ser ressuscitada antes da morte de Jerusalem) a ter
que conviver mais um dia com ele. Em compensação suas
"assistentes imundas", Channon e Yelena, leais ao colunista
apesar de o odiarem, trazem algum carisma às histórias,
e o mundo criado por Ellis é tão vasto e inusitado
que o leitor não consegue deixar de surpreender-se a cada
edição.
Depois de prover doses mensais de ação
e humor negro a milhares de leitores por cinco anos, Warren Ellis
colocou um ponto final em Transmetropolitan na edição
60. Seguindo o exemplo de Neil Gaiman (The Sandman) e Garth
Ennis (Preacher), o autor criou uma história com início,
meio e fim, e não quis esticá-la indefinidamente,
por mais sucesso que ela esteja fazendo - algo totalmente impensável
para os gibis de super-heróis. Pode parecer um mau negócio,
mas não é - histórias finitas permitem que
elas sejam reunidas em livros, que costumam manter-se com boas vendas
anos depois do fim da série. As primeiras 36 edições
de Transmetropolitan já foram publicadas em seis livros,
e a DC Comics já anunciou que pretende fazer o mesmo com
o resto. Spider ainda deverá ser odiado - e amado - por muitos
anos.
OBRA REUNIDA
Transmetropolitan já tem seis livros reunindo as
histórias de Spider Jerusalem:
1. Transmetropolitan: Back on the Street, edições
1-3.
2. Transmetropolitan: Year of the Bastard, edições
4-12.
3. Transmetropolitan: The New Scum, edições
12-18.
4. Transmetropolitan: Lust for Life, edições
19-24.
5. Transmetropolitan: Lonely City, edições
25-30.
6. Transmetropolitan: Gouge Away, edições 31-36.
A série está sendo publicada mensalmente no Brasil
pela editora Brain
Store; atualmente, pode-se encontrar os números 4 e 5
nas bancas. 
|