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5 a 18 de setembro de 2002


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MALDITO JORNALISTA
Acaba esse mês a série de quadrinhos Transmetropolitan, sucesso de humor cáustico do escritor Warren Ellis

por Marcio Caparica (marciocaparica@hotmail.com)

u odeio vocês e eu odeio esse lugar." Com essas palavras, o jornalista Spider Jerusalem conquistou uma legião de leitores que amavam odiá-lo e não perdiam uma sequer de suas colunas. Flanqueado por suas "assistentes imundas", Jerusalem protagonizava a série de quadrinhos Transmetropolitan, publicada pelo selo Vertigo da DC Comics nos Estados Unidos, e que esse mês chega ao fim.

Criada por Warren Ellis e desenhada por Darick Robertson, Transmetropolitan foi criada em 1998 para a estréia do selo Helix, uma investida da DC no gênero de ficção científica. O selo durou pouco mais de um ano, mas a revista sobreviveu e migrou para a Vertigo, destinada a leitores adultos. Talvez essa seja a melhor maneira de definir o título: ficção científica em quadrinhos para gente grande. Ler Transmet é entrar num barco futurista, cujas linhas modernas não conseguem disfarçar a trilha de óleo diesel que ele deixa para trás ou as pessoas famintas que o fazem funcionar.

Spider Jerusalem vive num futuro não muito distante. O mundo sobreviveu a um inverno nuclear e, agora que as dificuldades foram resolvidas, não quer mais que uma vida medíocre. A tecnologia permite pedir comida ou roupas a seu processador molecular doméstico. Essa mesma nanotecnologia criou sensores tão minúsculos e numerosos que virtualmente não existe mais privacidade. Mas quem se importa com isso, se seu programa preferido pode ser projetado em qualquer superfície na hora que mais lhe agradar? Alterações morfogenéticas, dando a um indivíduo características de um animal (ou mesmo de um alienígena ou dois), são tão comuns quanto piercings hoje em dia. E, para quem aprecia coisas realmente novas, há hambúrgueres de carne humana, feita de clones criados especialmente para isso, que têm cérebro o suficiente apenas para regular suas funções orgânicas até que cheguem à idade adulta. É um futuro em que o que é bom hoje será muito melhor, o que não consegue compensar pelas coisas que, se hoje já são ruins, no futuro estarão muito piores.

No primeiro número da série, Spider Jerusalem, depois de publicar livros de imenso sucesso, é forçado por cláusulas contratuais a abandonar seu refúgio nas montanhas e retornar à Cidade. O jornalista se vê obrigado a voltar a escrever e a exercer sua profissão da única maneira que considera possível: escancarando as verdades que vê, ofendendo a tudo e a todos, tentando com suas colunas arrancar seus leitores da vida alienada que levam. Não há abismo social grande o suficiente que escape da pena de Jerusalem - nem mesmo o presidente está imune ao veneno do personagem. No entanto, num mundo em que os poderosos fazem praticamente o que querem e a ética quase não existe mais, Spider logo vê que as conseqüências do que escreve afetam não apenas a ele, mas também influenciam a vida - e a morte - de milhares de pessoas.

Não que Spider Jerusalem realmente se importe. Warren Ellis criou um protagonista surpreendentemente raso: sua reação para quase tudo é ligar a tecla "foda-se" e usar o poder da imprensa violentamente em represália - ou mesmo violência física, se necessário. São raras as vezes em que Spider pára para pensar nas conseqüëncias de seus atos. É essa atitude, no entanto, que proporciona várias cenas deliciosas e diálogos mordazes e hilariantes. Spider é tão odioso que sua esposa preferiu ser congelada criogenicamente (com instruções específicas de não ser ressuscitada antes da morte de Jerusalem) a ter que conviver mais um dia com ele. Em compensação suas "assistentes imundas", Channon e Yelena, leais ao colunista apesar de o odiarem, trazem algum carisma às histórias, e o mundo criado por Ellis é tão vasto e inusitado que o leitor não consegue deixar de surpreender-se a cada edição.

Depois de prover doses mensais de ação e humor negro a milhares de leitores por cinco anos, Warren Ellis colocou um ponto final em Transmetropolitan na edição 60. Seguindo o exemplo de Neil Gaiman (The Sandman) e Garth Ennis (Preacher), o autor criou uma história com início, meio e fim, e não quis esticá-la indefinidamente, por mais sucesso que ela esteja fazendo - algo totalmente impensável para os gibis de super-heróis. Pode parecer um mau negócio, mas não é - histórias finitas permitem que elas sejam reunidas em livros, que costumam manter-se com boas vendas anos depois do fim da série. As primeiras 36 edições de Transmetropolitan já foram publicadas em seis livros, e a DC Comics já anunciou que pretende fazer o mesmo com o resto. Spider ainda deverá ser odiado - e amado - por muitos anos.

OBRA REUNIDA

Transmetropolitan já tem seis livros reunindo as histórias de Spider Jerusalem:

1. Transmetropolitan: Back on the Street, edições 1-3.
2. Transmetropolitan: Year of the Bastard, edições 4-12.
3. Transmetropolitan: The New Scum, edições 12-18.
4. Transmetropolitan: Lust for Life, edições 19-24.
5. Transmetropolitan: Lonely City, edições 25-30.
6. Transmetropolitan: Gouge Away, edições 31-36.

A série está sendo publicada mensalmente no Brasil pela editora Brain Store; atualmente, pode-se encontrar os números 4 e 5 nas bancas.