| CIDADE DE DEUS - UMA SÍNTESE
DA SÉTIMA ARTE
Um cinema de primeiro mundo, que muito
nos orgulha, retratando um quarto mundo, que nos entristece e apavora
por Pedro
Barros (pedraobarros@hotmail.com)
 s
irmãos Lumiére, ao criarem a técnica da fotografia
em seqüência no final do século retrasado, desejavam
apenas registrar momentos interessantes da vida cotidiana, e com
isso cercearam um pouco da liberdade de imaginação
das pessoas: não se tinha mais o segundo registrado a partir
do qual devia-se estudar o que acontecia ao seu redor, mas sim um
acontecimento que se auto-explicava.
Na década de 1910, surge o verdadeiro cinema,
já com ideais de encantamento e diversão àqueles
que se juntavam em pequenos casebres e se maravilhavam com as belas
imagens fotografadas, ao som do piano tocado ao vivo. São
dessa época filmes como Babilônia, O Nascimento
de Uma Nação, Metropolis, obras grandiosas,
majestosas, com cenários enormes, produções
caríssimas, tudo para encantar o olho do espectador. É
dessa época também a pantomima filmada, de gênios
como Buster Keaton, Harold Lloyd e Charles Chaplin se superando
— com suas incríveis habilidades para a mímica,
dança e gags inteligentes — para tentar suprir a falta
do poder de falar.
Aí veio a Grande Guerra.
E os cinemas da década de 1920 receberam obras
engajadas, políticas, obras de reconquista da auto-estima.
O cinema alemão surge soberbo, com suas produções
riquíssimas e interessantes, roteiros inteligentes, adaptações
de obras literárias; e recebe uma potente concorrência
da cinematografia russa, com o intuito de expandir o socialismo
que se instaurava no país. Sergei Eisenstein, Murnau e Fritz
Lang são os grandes expoentes desse momento da arte: um cinema
belo, com objetivos para-artísticos.
Em 1927 surge o som no cinema, registrado historicamente
na voz de Al Jonson cantando em O Cantor de Jazz. Em 1929,
há o crash da bolsa de NY.
E a década de 1930 marca o aparecimento de
uma dinastia na sétima arte, a dos Estados Unidos. Com a
possibilidade de se sincronizar som e imagem, os produtores americanos
resolvem investir em algo que poderia lhes resgatar o prestígio
perdido com o desastre econômico; e a partir daí, resolvem
contratar o que há de melhor na Europa para virem produzir
cinema com roteiro. Os europeus radicados em Hollywood não
são poucos: Billy Wilder, Preston Sturges, Otto Preminger,
Marlene Dietrich, Joseph L. Manckiewicz, só para citar alguns.
Surge o cinema de roteiro, em que a fala é mais importante
do que a imagem, e dentro dessa procura, os escritores se superam,
sendo os maiores responsáveis pela fase áurea do cinema
mundial.
Mas
vem a segunda guerra.
E, nas décadas de 1940 e 1950, o governo americano
resolveu continuar investindo na diversão como ópio
da população. Com a implementação do
technicolor, vêm também os musicais, obras cheias
de cores e animação. Um outro momento de esplendor,
com obras que intercalam grandes roteiros com belíssimos
números musicais.
Depois sofremos uma baixa no cinema. As duas décadas
seguintes, principalmente a de 1970, são marcadas por um
cinema engajado na luta contra as guerras, na tentativa de inovação
artística, na influência européia sobre o cinema
de diversão. O cinema conceitual foi um grande golpe sobre
a arte valorosa produzida nas décadas anteriores, cria-se
o conceito de que o nome do diretor é mais importante do
que a obra que ele apresenta. É um crime falar mal de Goddard.
Nos EUA, há a luta contra o socialismo, o movimento macartista,
que persegue grandes artistas, e matam a liberdade de criação
de gente com medo de ser caçada. Depois vem aquela porcaria
que, alguns, tendem a chamar de um grande movimento cultural, o
hippie. Festivais de rock de drogados, músicos se acabando
nos entorpecentes, andarilhos vagueando pelo mundo, e perseguições
políticas. Há sempre exceções: Stanley
Kubrick filma suas obras-primas (Doutor Fantástico,
Lolita, Barry Lindon e 2001), mas tudo na Inglaterra;
Woody Allen surge com seu humor de teatro e inteligente; Francis
Ford Coppola e Sergio Leone fazem grandes filmes violentos. Mas
só!
Era o fim dos bons roteiros. Tanto que no final da
década de 1970, somos obrigados a encarar o cinema rápido
e burro: Spielberg com Contatos Imediatos de Terceiro Grau e
Tubarão e George Lucas com Guerra nas Estrelas
resgatam as grandes platéias, mas o público já
não pensava mais. É a era do videogame, do fliperama,
em que se paga o ingresso para se divertir por duas horas e viver
uma fantasia, um mundo irreal. E isso durou por muito tempo, bebendo
nas águas do americanismo que imperou no mundo, que desejava
expandir uma mentalidade de não-contestação,
de prosperação, de maravilha... Mas aí, de
um país ainda pobre de produção cinematográfica,
surge um alento:
Cidade
de Deus é a esperança da concretização
do cinema que se anuncia para o novo século. Tem tudo de
bom: o roteiro inteligente de Billy Wilder, a montagem não-sequencial
de Tarantino e Guy Ritchie, a câmera móvel que retrata
a violência de forma crua de Oliver Stone, a fotografia inteligente
de Stanley Kubrick, a fantasia de Spielberg e Vincent Minelli, a
pantomina de Chaplin... e nos faz chorar e rir... É a junção
de tudo o que o cinema produziu de bom, tanto nos seus objetivos,
no seu engajamento com o momento vivido no país de produção,
quanto na sua técnica.
O melhor: não toma partido, não precisa
emitir opinião sobre o que está mostrando, está
lá! Volta às origens de antes dos irmãos Lumiére
obrigando os espectadores a saberem ou imaginarem o que está
acontecendo além daquele universo limitado que nos apresenta
— não precisamos saber o que pensa o pai de Thiago
(o playboy) ao ver seu filho vendendo os pertences, não precisa
nos contar porque o conjunto habitacional tornou-se um campo de
guerra, não precisa fazer uma ligação direta
entre o roubo de botijões de gás no começo
da história e a guerra pelas bocas no decorrer, não
precisa mostrar o respeito da sociedade do morro pelos traficantes
e quais os motivos dela para isso, as razões do interesse
da jornalista pelo garoto pobre —, e não nos chama
de burros. Está tudo lá: um retrato do que aconteceu
ao nosso país nos últimos 40 anos; em cada cena pode-se
sentir a exclusão social crescendo, a perda dos valores morais
de ambos os lados da balança social, o desvalor à
vida.
Fernando Meirelles bebeu das águas da história
do cinema para saber o que fazer: não é um cinema
puramente engajado, é por mais irônico que pareça
um cinema de diversão; mas é um filme com objetivo
— abrir os olhos do país, da classe média em
que vivemos, dessa cela em que nos fechamos, para o que está
acontecendo ali embaixo, naquela favela pela qual passamos com os
vidros do carro fechados, naquela estação de trem
que você nem imagina onde fica; ri-se de algumas cenas, mas
é um riso tenso, é um riso de culpa, um riso de raiva;
chora-se, sofre-se, aterroriza-se com o crime que cometemos ao Brasil.
O João Grilo que nos fazia rir de sua malandragem torna-se
um Cenoura que tentávamos esconder, e do qual pouco temos
a rir.
O
Brasil passa por um momento de gravíssima disparidade social
e Fernando Meirelles e Kátia Lund deixam claro que, além
de divertir, querem mostrar a periferia, tudo bem claro aos olhos
do espectador, tentando fazer com que ele encontre soluções
para os anos que virão. Assim como fizeram os europeus em
20, os americanos em 30 e 70, o filme tem seu valor político
muito forte, mas sem ser uma propaganda deslavada.
A Miramax vai nos dar enfim o Oscar, que tanto ocupa
os ideais de nossos cineastas. Mas acho que o prêmio do filme
é muito maior... pro mundo!
Um programa imperdível.
Em tempo: Nenhum dos atores do filme é amador.
Além do Matheus Nachtergaele, a atriz que faz a jornalista
é conhecida dos palcos paulistas e de várias propagandas
de televisão (além de protagonizar uma das domésticas
no filme do próprio Meirelles), os atores que interpretam
Bené e Cabeleira são filhos de brasileiro com norueguesas
e estudaram arte cênica por muito tempo... A imagem que a
imprensa brasileira criou para o elenco do filme não condiz
com a verdade e faz parte de uma certa estratégia de marketing
para alavancar a idéia de amadorismo do filme. Fernando Meirelles
é paulista, diretor do programa do Ernesto Varella (do Marcelo
Tas) na década de 1980, e do Castelo Rá-tim-bum,
além dos filmes Domésticas e Menino Maluquinho
2. Um fera, muito acima do cinema mauricinho e pobre do Walter
Salles... 
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