| BANDIDAGEM ROMÂNTICA
No Coração do Comando,
livrinho romântico que vem surfando na onda das histórias
marginais, não fede nem cheira
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
 urgiu
um novo movimento literário no Brasil. Não é
descabido assumir que, assim como hoje nós estudamos o segundo
movimento do Modernismo, com seu interesse pela vida do sertão,
futuramente alunos de português estudarão o fascínio
dos autores e do público pela vida marginal das grandes cidades.
Está aí para quem quiser ver: Cidade de Deus
é um grande sucesso, tanto em filme como em livro. Estação
Carandiru, do médico-pop Drauzio Varella, é um
enorme êxito editorial, e o filme baseado nesse livro está
quase pronto. Além desses existe Beco Sem Saída:
Eu Vivi no Carandiru, de Neninho de Obaluaê, Capão
Pecado, de Ferréz, Memórias de Um Sobrevivente,
de Luiz Alberto Mendes, e Pavilhão 9: Paixão e
Morte no Carandiru, de Hosmany Ramos. A classe média
descobriu um mundo novo, fascinante e muito mais interessante (e
assustador) pelo fato de que “é de verdade”.
A investida da editora Record nesse nicho é
o romance No Coração do Comando, de Julio Ludemir.
Vem para mostrar que até os bandidos têm coração.
Também legitimado pelo fato de se basear numa história
real, o livro não passa de mais uma versão de uma
das histórias mais reaproveitada de todos os tempos, Romeu
e Julieta (a própria orelha do livro o apresenta citando
“Montéquios e Capuletos de granadas na mão”).
Infelizmente, não fascina pela história nem pela realidade
apresentada. Mas também não é ruim. Na falta
de coisa melhor para ler, vale.
No Coração do Comando conta
a história do amor entre Marquinho Neguinho, bandidão
boa-pinta, e Valéria, ladra cabeça-quente. Os dois
se conhecem enquanto cumprem pena no Complexo Penitenciário
Frei Caneca, ela na ala feminina, o presídio Nelson Hungria,
e ele no prédio vizinho, o Milton Dias Moreira. O romance
se desenvolve da janela de uma cela para a outra, sem que os dois
consigam sequer se tocar. Obviamente, porém, as coisas não
podiam ser “simples”. Neguinho é uma figura importante
do Comando Vermelho, que controla seu presídio; Valéria
é sobrinha do chefão do Terceiro Comando, facção
rival. O amor entre os dois não é aprovado por nenhum
dos lados, e eles enfrentam todo o status quo para viver
o mais clássico amor proibido.
A parte sociológica do livro é bem
interessante. O leitor descobre um mundo em que os bandidos são
obrigados a se cumprimentar dizendo “Fé em Deus”
e guiado por um rígido código de conduta estabelecido
pelo Comando Vermelho, que “botou ordem no presídio”.
As regras para o relacionamento entre os detentos de um prédio
e as presas do outro também estão estabelecidas: quando
a mulher manda uma mecha de cabelo junto com uma calcinha para o
pretendente do prédio à frente, por exemplo, está
selando o compromisso. Os pombinhos transam masturbando-se um para
o outro, na frente da janela. O texto é cheio de expressões
do crime, fazendo com que o leitor consiga o gostinho de exótico
marginal que buscava no livro.
 |
| O autor, Julio Ludemir |
Não tendo coragem para encarar um desafio
à la Guimarães Rosa e escrever seu livro todo
na linguagem da malandragem, no entanto, Ludemir oscila entre o
diálogo supercoloquial de seus personagens e um narrador
que utiliza português correto. E mesmo quando tenta infiltrar
a bandidagem em suas descrições, o recurso não
se ajusta bem. Trechos como “Seu coração ficou
mais gelado que um presunto desovado no morro” ou “arrombando-lhe
as portas do inconsciente com a determinação de quem
está fazendo um 157” não são poucos.
Para quem não está por dentro das gírias, há
um pequeno glossário no fim do livro.
E, no fim das contas, mesmo não sendo longo,
o livro cansa. Depois que o estranhamento do mundo atrás
das grades passa, o que resta é uma historinha meio água-com-açúcar
(tudo bem que no caso o pó branco poderia ser outro) que
não envolve muito o leitor. Que a história não
vai acabar bem é claro desde o começo; o problema
é que o final é bastante mal-acabado. Os acontecimentos
que levam à inevitável tragédia acontecem apressadamente,
a desgraça não entristece, e o desfecho fica no ar.
O clímax é tão chocho que passa pelo leitor
e ele mal nota.
Do jeito que andam as coisas, não será
surpreendente se No Coração do Comando virar
filme daqui a alguns anos, tentando sugar o que pode de um gênero
que já deverá ter se desgastado bastante até
lá. Existe a regra empírica do cinema, no entanto,
que diz que livros medianos costumam render bons filmes; torçamos
para que isso aconteça. Até lá, caso queira
mergulhar na vida atrás das grades, leia o excelente Estação
Carandiru. Se quiser uma história romântica, dê
uma procurada que não será difícil achar uma
melhor que essa. Na falta de opção, esse serve. 
|