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19 de setembro a 2 de outubro de 2002


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BANDIDAGEM ROMÂNTICA
No Coração do Comando, livrinho romântico que vem surfando na onda das histórias marginais, não fede nem cheira

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

urgiu um novo movimento literário no Brasil. Não é descabido assumir que, assim como hoje nós estudamos o segundo movimento do Modernismo, com seu interesse pela vida do sertão, futuramente alunos de português estudarão o fascínio dos autores e do público pela vida marginal das grandes cidades. Está aí para quem quiser ver: Cidade de Deus é um grande sucesso, tanto em filme como em livro. Estação Carandiru, do médico-pop Drauzio Varella, é um enorme êxito editorial, e o filme baseado nesse livro está quase pronto. Além desses existe Beco Sem Saída: Eu Vivi no Carandiru, de Neninho de Obaluaê, Capão Pecado, de Ferréz, Memórias de Um Sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, e Pavilhão 9: Paixão e Morte no Carandiru, de Hosmany Ramos. A classe média descobriu um mundo novo, fascinante e muito mais interessante (e assustador) pelo fato de que “é de verdade”.

A investida da editora Record nesse nicho é o romance No Coração do Comando, de Julio Ludemir. Vem para mostrar que até os bandidos têm coração. Também legitimado pelo fato de se basear numa história real, o livro não passa de mais uma versão de uma das histórias mais reaproveitada de todos os tempos, Romeu e Julieta (a própria orelha do livro o apresenta citando “Montéquios e Capuletos de granadas na mão”). Infelizmente, não fascina pela história nem pela realidade apresentada. Mas também não é ruim. Na falta de coisa melhor para ler, vale.

No Coração do Comando conta a história do amor entre Marquinho Neguinho, bandidão boa-pinta, e Valéria, ladra cabeça-quente. Os dois se conhecem enquanto cumprem pena no Complexo Penitenciário Frei Caneca, ela na ala feminina, o presídio Nelson Hungria, e ele no prédio vizinho, o Milton Dias Moreira. O romance se desenvolve da janela de uma cela para a outra, sem que os dois consigam sequer se tocar. Obviamente, porém, as coisas não podiam ser “simples”. Neguinho é uma figura importante do Comando Vermelho, que controla seu presídio; Valéria é sobrinha do chefão do Terceiro Comando, facção rival. O amor entre os dois não é aprovado por nenhum dos lados, e eles enfrentam todo o status quo para viver o mais clássico amor proibido.

A parte sociológica do livro é bem interessante. O leitor descobre um mundo em que os bandidos são obrigados a se cumprimentar dizendo “Fé em Deus” e guiado por um rígido código de conduta estabelecido pelo Comando Vermelho, que “botou ordem no presídio”. As regras para o relacionamento entre os detentos de um prédio e as presas do outro também estão estabelecidas: quando a mulher manda uma mecha de cabelo junto com uma calcinha para o pretendente do prédio à frente, por exemplo, está selando o compromisso. Os pombinhos transam masturbando-se um para o outro, na frente da janela. O texto é cheio de expressões do crime, fazendo com que o leitor consiga o gostinho de exótico marginal que buscava no livro.

 O autor, Julio Ludemir

Não tendo coragem para encarar um desafio à la Guimarães Rosa e escrever seu livro todo na linguagem da malandragem, no entanto, Ludemir oscila entre o diálogo supercoloquial de seus personagens e um narrador que utiliza português correto. E mesmo quando tenta infiltrar a bandidagem em suas descrições, o recurso não se ajusta bem. Trechos como “Seu coração ficou mais gelado que um presunto desovado no morro” ou “arrombando-lhe as portas do inconsciente com a determinação de quem está fazendo um 157” não são poucos. Para quem não está por dentro das gírias, há um pequeno glossário no fim do livro.

E, no fim das contas, mesmo não sendo longo, o livro cansa. Depois que o estranhamento do mundo atrás das grades passa, o que resta é uma historinha meio água-com-açúcar (tudo bem que no caso o pó branco poderia ser outro) que não envolve muito o leitor. Que a história não vai acabar bem é claro desde o começo; o problema é que o final é bastante mal-acabado. Os acontecimentos que levam à inevitável tragédia acontecem apressadamente, a desgraça não entristece, e o desfecho fica no ar. O clímax é tão chocho que passa pelo leitor e ele mal nota.

Do jeito que andam as coisas, não será surpreendente se No Coração do Comando virar filme daqui a alguns anos, tentando sugar o que pode de um gênero que já deverá ter se desgastado bastante até lá. Existe a regra empírica do cinema, no entanto, que diz que livros medianos costumam render bons filmes; torçamos para que isso aconteça. Até lá, caso queira mergulhar na vida atrás das grades, leia o excelente Estação Carandiru. Se quiser uma história romântica, dê uma procurada que não será difícil achar uma melhor que essa. Na falta de opção, esse serve.