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19 de setembro a 2 de outubro de 2002


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PIERRE LEVY DISCORRE SOBRE AS INTELIGÊNCIAS COLETIVAS
Um dos principais pensadores da atualidade expôs seus estudos recentes sobre tecnociência no SESC Vila Mariana, em SP

por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

o dia 29 de agosto de 2002, o filósofo, sociólogo e historiador francês Pierre Levy esteve no Brasil para uma conferência no SESC Vila Mariana, lotado, sobre “Internet e Desenvolvimento Humano”.

Levy tem livros publicados em mais de 20 países e é, atualmete, um dos principais pensadores da tecnociência. Ele concebeu a o sistema de “Árvores do Conhecimento”, uma ferramenta de navegação que mapeia diversos conhecimentos e competências de pessoas de diferentes coletivos: escolas, hospitais, comunidades de bairro, empresas, etc.
Um dos seus livros mais famosos, Cybercultura, de 1997, é o compêndio de um relatório entregue ao Conselho Europeu dentro do projeto“Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação”. Cyberdémocratie, seu último livro, reúne centenas de atividades militantes, políticas e comunidades virtuais presentes na internet. Atualmente ele é professor da Universidade de Ottawa, Canadá.

Na palestra do SESC, como disse Danilo Santos de Miranda, diretor do departamento regional do SESC de São Paulo, Pierre Levy abordou "a cultura das comunidades como campo latente de desenvolvimento social e político do mundo contemporâneo”. Segue abaixo os principais pontos colocados pelo filósofo na conferência:

COMENTANDO SUAS "NACIONALIDADES"
“Nasci com passaporte francês, licença para morar no Canadá e coração brasileiro.”

SOBRE A INTELIGÊNCIA COLETIVA
“Esse é um movimento que se iniciou no domínio científico, pois foi a comunidade científica que inventou a internet e que se serviu primeiro dela para trocas de idéias, cooperações etc. Podemos dizer que ela [a comunidade científica] é uma das mais antigas praticantes da inteligência coletiva com suas jornadas científicas, seminários, colóquios onde cada um comenta o que faz e todos tentam construir juntos um saber comum, ao mesmo tempo que têm liberdade de propor teorias diferentes.”

SOBRE O FATO DE APENAS 7% DOS BRASILEIROS TEREM ACESSO À INTERNET
“... é preciso lembrar que isso é um processo histórico, uma tendência que deve ser avaliada em sua dimensão correta. Muitos séculos se passaram desde a invenção do alfabeto até a construção de uma civilização da escrita. Quando se inventou o alfabeto, por volta do ano 1.000 a.C., não foi imediatamente que as pessoas aprenderam a ler e escrever. Há dez anos mais ou menos que a maioria da população mundial - eu digo a maioria e não a totalidade – sabe ler e escrever. Foram necessários, portanto, três mil anos para se chegar a essa situação. A web existe há menos de dez anos...”

DE COMO A INTERNET POSSIBILITA NOVAS FORMAS DE CONHECIMENTO
“... se alguma coisa é escrita, ela já não faz parte da minha memória pessoal, mas faz parte da memória da comunidade à qual pertenço, e que mantém seus escritos. Hoje a escrita é alguma coisa que não está mais só no suporte papel, mas que está no suporte eletrônico e que, por isso, se torna mais acessível, flexível e, sobretudo, mais compartilhável.”

COMO A INTERNET REVOLUCIONOU A FORMA DO SABER
“Podemos, talvez, comparar a nossa época ao século XVII, época em que se inventou o microscópio e o telescópio, onde se descobriu todo um universo do 'infinitamente pequeno' e todo um universo do 'infinitamente grande'. Hoje estamos descobrindo o universo do 'infinitamente complexo' porque temos um meio de representá-lo, de interagir com esse universo justamente por causa da tecnologia intelectual que é a informática.”

EXPLICANDO O QUE É A INTELIGÊNCIA COLETIVA
“Observemos o comportamento de uma multidão. Uma multidão é menos inteligente do que um indivíduo dessa multidão. O fato de diversos indivíduos estarem reunidos não ajuda muito. Se observarmos uma administração muito burocrática, centralizadora, com uma hierarquia rígida, vamos dizer que essa administração é provavelmente mais inteligente do que uma multidão porque ela pode fazer muitas operações e chegar a um certo resultado, mas ela não equivale à multiplicação de todas as inteligências das pessoas que participam dessa hierarquia burocrática. Provavelmente essa hierarquia burocrática é menos inteligente do que o grupo de dirigentes.”

DEFENDENDO O DESENVOLVIMENTE DE UMA CIÊNCIA DA INTELIGÊNCIA COLETIVA
“...estou certo que este é o melhor caminho para se chegar a uma cultura da inteligência coletiva, ou seja, com a constituição de uma vasta rede de pesquisas a perspectiva é avançar em direção a uma transformação cultural que caminhe nesse sentido.... Porque uma cultura não é definida por um pequeno grupo de dirigentes ou de pensadores, é algo que é partilhado pelo conjunto de uma população.”

DIFERENCIANDO A INTELIGÊNCIA HUMANA E DOS OUTROS ANIMAIS
“...evidentemente a inteligência coletiva não começa com a espécie humana. Todo mundo sabe que o formigueiro é mais inteligente que a formiga e que a colméia é mais inteligente do que a abelha; até um grupo de zebras é mais inteligente do que a própria zebra. Por isso elas vivem em grupo. Mas nós, pela linguagem, abrimos um universo de comunicação completamente diferente.”

A IMPORTÂNCIA DA FALA PARA OS SERES HUMANOS
“Sabemos que os animais se comunicam entre si. A diferença é que a linguagem nos permite fazer três coisas que os animais não podem fazer: primeiro, fazer perguntas. Os animais não fazem perguntas... A segunda particularidade da linguagem humana é o fato de contarmos histórias. (...) e é porque contamos histórias que temos uma concepção do tempo. E, finalmente, já que eu falo de laços entre nós, temos o diálogo.”

SOBRE O MUNDO EM QUE OS HUMANOS VIVEM
“Evidentemente, vivemos no mundo físico, mas as pedras também vivem nele. O que existe de original no nosso modo de existir é que vivemos na significação e as pedras não. E como se organiza essa significação? É uma tensão viva entre três pólos. Em primeiro lugar, o pólo do signo. Se eu digo 'computador', é o som 'computador' que é o signo. Há o referente, aquilo do qual estou falando, a 'coisa'. E depois há o espírito, para quem o 'computador' significa a 'coisa'.”

COMENTANDO O PODER DE TRANSFORMAÇÃO DOS HOMENS
“A espécie humana é aquela que mais transformou o ambiente real em comparação com as outras espécies de mamíferos que conhecemos. Possuímos tal poder de transformação porque temos idéias.”

A MUDANÇA NA IMPORTÂNCIA DADA AO TRABALHO
“Antes o trabalho importante era o do operário, o do engenheiro que constrói e mantém as máquinas. ... Quem são as pessoas mais ricas do mundo hoje? São as pessoas que têm a sua fortuna baseada na propriedade intelectual: pessoas que trabalham com software, certos artistas, pessoas que vivem da própria imagem, porque a imagem é uma idéia. Não apenas idéias científicas, filosóficas, mas todo o tipo de idéias. Pode ser música, um jogo de futebol, por exemplo.”

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO PRODUZIDO ATÉ HOJE
“Eu sou a favor da cibercultura mas não acho que devemos fazer tabula rasa do passado, esquecer a antiga cultura. Ela é um tesouro inestimável que devemos conservar preciosamente, manter viva o mais tempo possível, pois é sobre ela que podemos construir o novo. Portanto, o capital cultural é, de certa maneira, a memória gravada da evolução cultural, que nos oferece uma enorme quantidade de idéias, de inspiração até hoje.”

O FUTURO
“Quando ensinamos às crianças como o pato faz, nós as introduzimos em uma etapa muito importante no desenvolvimento da humanidade. É a etapa do neolítico, quando inventou-se a escrita, a criação de animais, a agricultura etc. Podemos imaginar que daqui a alguns anos, talvez daqui a alguns séculos, teremos passado uma nova etapa comparável àquela do neolítico, na qual teremos aprendido a criar e cultivar as idéias. Quando eu digo que sou favorável a uma ciência da inteligência coletiva, é dessa ciência que estou falando, e espero que nós sejamos cada vez mais numerosos para nos engajarmos nessa empreitada.”