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3 a 16 de outubro de 2002


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QUE LINDO É O MEU UMBIGO
Obras da literatura-diário como Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck, não passam de modismo passageiro

por Steffania Paola (ste_paola@hotmail.com)

nde estarão os novos Machados de Assis, Fernandos Pessoa ou Cecílias Meireles? A nova "literatura" está longe disso, ou estaria além?

Com a nova onda dos reality shows, as novas produções literárias se assemelham muito aos reality shows, e são um sucesso. Falar da própria vida, admitir-se puta, contar como foi a noite com o cara do boteco da esquina, narrar noites de bebedeira a fio e xingar, eis a receita para o sucesso. Em uma época em que a angústia da vida moderna é o que determina as relações, e seriedade é sinônimo de estresse, nada mais plausível que recorrer às futilidades do cotidiano para ganhar fãs e dinheiro.

A velocidade com que recebemos as informações e o caos da contemporaneidade talvez explique o boom da literatura-diário. Outros nomes dentro da literatura-diário merecem destaque: Marcelo Mirisola (O Azul do Filho Morto), Fernanda Young (O Efeito Urano), André Takeda (Clube dos Corações Solitários) etc. Mas um dos maiores ícones da literatura-teen é Clarah Averbuck, cujo blog, Brazileira Preta!, tem cerca de 1300 visitas diárias. Em seu primeiro livro, Máquina de Pinball, a autora esmiuça seu dia-a-dia, como na internet. Inspirada em autores da geração beat como Fante, Bukowski e Leminski, a autora apelidou sua escrita de "bitchnik".

A literatura-diário assemelha-se ao universo blogueiro, à linguagem cibernética, e transfere-se para os livros no tipo da linguagem, no padrão de diário. O livro começa com uma mudança de Porto Alegre para São Paulo, deixando para trás as mordomias de uma vida cheia de gatos e um quase marido. Daqui a história transfere-se para Londres, depois para o Rio e novamente para São Paulo. O livro trata exclusivamente do universo em que a autora se insere, o que torna sua escrita um tanto "umbuiguista". Ela é a personagem, e tenta durante todo o livro transformar sua vida em uma ficção, mesmo alegando que apenas 20% do livro é ficcional.

 A autora, Clarah Averbuck

Há de levar-se em consideração o bom humor da autora no decorrer do livro. Clarah constroí frases engraçadas e irreverentes :"Sim, sou mulherzinha. Uso maquiagem, salto agulha, piercing no umbigo e esmalte com glitter. E sou feliz assim. Mulherzinha. Mas com bolas", ou "(...) homens são mesmo clichês ambulantes. Depois de gozar, ele acendeu um cigarro e soltou a fumaça com um 'ahh' de prazer. Meu deus, eles fumam depois de gozar. Tem coisa mais Óliudiana?".

E há de desconsiderar sua produção como sendo literária. Livros como Máquina de Pinball são bons como entretenimento, assim como TV e internet, mas como literatura deixam a desejar. A literatura-diário é ainda muito imatura, principalmente por não se preocupar tanto com um tratamento mais apurado no uso das palavras. Vale lembrar que autores como Fernando Pessoa também viveram em épocas difíceis, de mudanças profundas como a nossa, e vejam a bela obra que Pessoa deixou. Ele certamente retratou o cotidiano, mas de uma forma literária, de fato. Os blogs viraram modismo, os reality shows também, e como bem sabemos, modismo é fogo de palha. Literatura que é literatura fica, e os modismos, do mesmo modo repentino que aparecem, desaparecem.