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3 a 16 de outubro de 2002


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METÁFORA DO NOVO MUNDO
Exposição de Albert Eckhout mostra visão européia do Brasil seiscentista

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

berto ao público na segunda quinzena de setembro, no Instituto Ricardo Brennand, em Recife, o Projeto Albert Eckhout Volta ao Brasil - 1644-2002 traz, em 24 telas e três peças de tapeçaria, a ótica européia do Brasil seiscentista representadas pelo artista holandês. Esta é a primeira grande exposição de Eckhout no Brasil, desde que a comitiva de Nassau deixou a capital pernambucana há 358 anos.

A mostra inicia-se com três, dos oito tapetes, da série Anciennes Indes, produzidas pelas Oficinas Gobelins utilizando cartões de Eckhout, em 1687. As peças mostram o Novo Mundo como um "Paraíso Terrestre", que apresentava-se paralelamente selvagem e bárbaro, encantando enormemente os europeus no século XVII. Na mesma sala, em versão multimídia, encontram-se diversos itens que visam contextualizar a ocupação holandesa, servindo como portal de acesso às telas que registram as riquezas botânicas e humanas do Brasil Colonial.

Natureza Morta é o título da primeira coleção de 12 obras, que reproduz a beleza das frutas tropicais minuciosamente organizadas em cestas. O estilo acabou sendo propagado pela Europa, trazendo esta idéia de natureza sem vida, ou seja, algo fora de seu estado natural. A segunda parte da exibição traz as 12 retratações dos tipos humanos, impressionando pela explosão sensorial promovida no observador: as cores, o traço firme, as expressões faciais, o contraste entre realidade e o olhar estrangeiro e a riqueza de detalhes, que transformam as gravuras em verdadeiras composições do momento histórico vivido pela colônia. Os quadros são a concretização dos esboços que o pintor fez em suas andanças, mas expõem um desejo intrínseco de dominação delineados em pequenos elementos. A transfiguração da mulher Tupi é um bom exemplo: esta carrega consigo uma criança mestiça, trabalha no canavial, utiliza vestes e tem o olhar resignado, manifestando o processo de aculturação que acometeu os indígenas após a chegada dos europeus ao Brasil.

A perspectiva de Eckhout influenciou firmemente o estereótipo de uma nação bela, porém rústica, onde os habitantes vivem em florestas, dormem em redes, dançam em seus rituais, alimentam-se de raízes e utilizam poucas vestimentas. Embora já tenham se passado mais de três séculos desde a partida dos holandeses, esta imagem ainda permeia o ideário estrangeiro a respeito da população brasileira.

UM MISTÉRIO CHAMADO ECKHOUT
Biografia do artista holandês ainda é permeada de incertezas

Nascido na cidade de Groningen, norte dos países baixos, por volta de 1610, Albert Eckhout foi apresentado à pintura por seu tio Gheert Roeleffs e aperfeiçoou seu talento até tornar-se um excelente desenhista, retratista e pintor. Aos 26 anos embarcou para o Brasil como membro da comitiva de Maurício de Nassau, instalando-se na cidade de Recife, onde viveu por oito anos. Neste período ele produziu um conjunto importante de oito obras, representando a diversidade étnica e cultural do Brasil Holandês, que mais tarde foram presenteadas ao rei da Dinamarca, Frederik II, por Nassau, e que hoje fazem parte do acervo do Museu Nacional da Dinamarca.

Não se sabe ao certo a dimensão do trabalho produzido durante sua estadia na América do Sul, porém, este foi suficiente para assegurar-lhe a posição de artista respeitado devido a sua contribuição na criação de uma nova temática visual, através da representação da realidade brasileira, influenciando a história da arte mundial.Ao deixar o Brasil, em 1644, com a expulsão dos holandeses, ele retorna a sua cidade natal e ingressa na corporação de ofício dos pintores. Em 1653 foi indicado por Nassau para trabalhar como pintor da corte de João Jorge II, em Dresden na Alemanha.

O artista retornou a Groningen um ano antes de seu falecimento, que segundo informações históricas, deu-se em 1664. Em 1687 os cartões produzidos pelo holandês foram transformados em tapeçaria, pelas Oficinas Gibelins, em Paris e posteriormente dadas a Luis XIV, rei da França. A incerteza sobre a vida de Eckhout e a inexistência de registros artísticos anteriores a sua estada no Brasil, geraram discussão a respeito da autoria dos quadros atribuídos a ele. Porém, este fato não influenciou negativamente a circulação de suas obras pelo mundo, em homenagens póstumas, que deve encerrar-se após esta mostra no Brasil.