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ELVIS CONTRA OS "POLITICAMENTE
INCORRETOS"
O pioneiro do rock'n'roll sempre foi
alvo fácil dos iconoclastas da "América branca"
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br
)
 Numa
conhecida entrevista, concedida em 1969, o ator
norte-americano John Wayne malhou sem piedade o filme
Perdidos na Noite, que havia ganhado o Oscar de melhor
filme naquele ano. O filme, grosso modo, reduzia o
mito do cowboy a um homem sem caráter, potencialmente
efeminado e quase mendicante, mais associado aos
hippies e demais outsiders que infestavam os Estados
Unidos dos tempos da guerra do Vietnã. Em defesa de
sua causa, Wayne rechaçou o que ele chamou de
"embuste", um filme "de maricas", afirmando,
em outras
palavras, que a história era uma inverdade, uma
inversão de valores, uma caricaturização da
imagem do
herói autóctone, que ele representou em dezenas de
filmes. Me lembrei dessa entrevista esta semana, lendo
uma crítica sobre Elvis Presley.
Sempre que eu leio críticas a respeito de
Elvis escritas por gente do time dos politicamente corretos, aparecem
adjetivos do tipo "bronco, um ingênuo, uma criatura de
seu empresário". No fim, este tipo de posicionamento
sobre a "importância" do Rei do Rock pertence a
quem sempre foi um daqueles que joga no time do John Wayne, uma
espécie de porta-voz da América branca, conservadora
e mantenedora dos bons costumes. Nessa lógica, inclusive,
daria para se ir até mais longe.
Elvis como o estereótipo do herói ianque.
Bom moço, porta-voz do establishment, heróico e romântico,
uma espécie de Gary Cooper da era Eisenhower. Por trás
desse estereótipo, que seria depois reforçado pelo
mito, Elvis seria, ainda dentro daquele ponto-de-vista, uma farsa
sem vontade própria, ou "criatura de seu empresário".
Ou seja, desta forma ele seria apenas um padrão envernizado
pela mídia contra seus instintos e a sua própria intuição.
Isso faria sentido ao pensarmos na forma como o produto
Elvis Presley se disseminou através de relançamentos
dos seus discos, na estilização da sua imagem, nas
suas apresentações apoteóticas e em seus filmes.
Enfim, se para a maioria de seus fãs ele era o "Rei",
para outros ele representava o anti-herói, o ser humano destituído
de vontade própria, o bom selvagem taylorizado em artigo
em promoção. Seria um novo exemplo do velho modelo
do americano que matava índios e colonizou a América.
Em seu lugar, os "politicamente corretos"
apontariam como seu antagonista alguma coisa mais próxima
da "caricatura" de Perdidos na Noite. Esse modelo do filme
trazia uma imagem que nasceu "de baixo", de uma parte
da sociedade que não se identificava com ídolos criados
pela cultura "branca elitista e tradicional" e que, por
sua vez, preferia endeusar o anti-paradigma que se notabilizaria
à princípio na estética da cultura beat, e
se disseminaria nas letras do rock dos anos 60.
O protótipo do "Midnight Cowboy"
seria o fruto tardio daquele pensamento, cuja voga havia crescido
naquele momento histórico dos Estados Unidos, que mandava
os seus para morrerem numa guerra e voltarem mutilados e transformados
em troféus de guerra, naturalmente sem abalar o mito. Uma
parte da América negava o modelo "conservador"
do ianque, belicoso e conquistador, que lutava no Vietnã
e, como diz aquela letra de protesto, não contava os mortos
porque "Deus estava do lado deles".
Os "politicamente corretos", naturalmente,
também não se identificavam com Elvis. Se ele era
revolucionário como show man, por outro lado ele era rei
em detrimento do "verdadeiro rock". Assim como Pat Boone,
o autor de "Love me Tender", roubava as músicas
e a irreverência de Little Richard, e vendia quinze vezes
mais do que o inventor de "Tutti Frutti". Tanto isso é
verdade que esta canção é mais identificada
à figura de Elvis do que de Richard.
Branco
e religioso, Boone também vendia milhões com as músicas
de artistas pretos, que não tinham espaço nas rádios.
Aliás, poucos deles faziam sucesso na América dos
anos 50, que também não via com bons olhos o nascente
rock'n roll e a forma que ele entrava nos lares norte-americanos.
Já Elvis, apesar de seu ostensivo sex appeal no palco, aos
poucos foi sendo "amansado" pelo empresário - como
diriam os politicamente corretos - até se transformar no
"bom moço da América".
Apesar de ter corporificado o rock, Elvis não
"prestava" mais como ídolo dos iconoclastas. De
fato, a sua música passou a ser tida como assimilável
e comercial, vendendo milhões de cópias - fato que
acontece hoje mais do que nunca. Agora, aos poucos, o Elvis que
era taxado de "Pelvis" por causa de suas estripulias no
palco, se transformava aos olhos de seus detratores num modelo do
ianque do herói do tempo das diligências, da América
conservadora dos mitos de "coesão social".
Para eles, se o "Rei" tinha alguma função,
era a de mistificar e retornar aos velhos costumes e aliciar os
jovens para o lado da "América" bravia e beligerante,
em nome de Deus e da liberdade. Por isso, os "politicamente
corretos" atacavam Elvis em seu caráter naquilo que
haveria de encoberto. Ao contrário dos roqueiros que idolatravam
Huxley ou Kerouac, ele era um boneco, "bronco", que a
gravadora explorava como se fosse um mico de realejo.
Voltando ao foco da questão: Elvis era questionado
com relação ao seu caráter porque, na visão
dos seus "inimigos", ele não tinha nada de novo
a dizer - aliás, nada a dizer. Na verdade, a crítica
a qual me referi acima cobrava (e ainda está a cobrar) uma
postura mais engajada e menos alienada, como seus contemporâneos,
que sempre tinham nos bolsos uma posição sobre o Vietnã.
Para eles, Elvis não poderia ser apenas "o cantor";
do alto de sua popularidade, ele deveria ser "o político",
e não "o marionete".
O que Elvis Presley diria sobre o 11 de setembro
e as intenções de George Bush de mais uma intervenção
militar no Oriente? Com certeza seria a favor, como muita gente
que se auto-proclamava de esquerda nos anos 50, e que depois se
descobriu que não eram tão de esquerda assim. Nada
mais natural, aliás. Ou não. Afinal, o mundo deu muitas
voltas. Mas se eles ficassem ao lado do presidente norte-americano,
ninguém iria estranhar. Mesmo assim, seus discos se escoariam
nas lojas como nunca.
Será que Elvis apoiaria a intervenção
norte-americana ao Iraque? Não importa. Pelo menos para quem
não se importa. É claro que nenhum artista deve ser
um militante político, e a criação e a interpretação
não precisam se pautar através de um termômetro
ideológico - até porque, falando em arte, não
é esse tipo de posição que está em jogo.
Se o "Rei do Rock" era uma simples "marionete",
não se poderia dizer objetivamente. O certo é que
tal questão jamais interferiu em seu talento inigualável.
A prova dos nove está no fato concreto que,
assim como El Cid ganhava batalhas mesmo depois de morto, Elvis
continua ganhando discos de ouro à mão cheia, e, como
Gardel, segue cantando melhor do que nunca... 
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