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DE VOLTA PARA O FUTURO
Em seus últimos suspiros, Felicity
volta no tempo para se auto-justificar e injetar um pouco de criatividade
numa trama cansada
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 o
último dia 23, a ingênua Felicity foi-se embora e levou
consigo, para sempre, seus cachos e "cachos". As aspas
se justificam: a mais famosa anti-heroína da TV a cabo não
irá mais perder seus cabelos encaracolados tentando escolher
entre o Bonitão Ben e o Bom Moço Noel - o conflito
que, numa única linha, sumariza a tônica da série.
Depois de quatro anos, os produtores decidiram por bem encerrar
as agruras da menina, fazendo-a decidir (numa redundância
desnecessária para os fãs) pelo galã Bonitão
Ben.
Por um acaso do destino, Felicity, que se
ambientava numa faculdade, durou exatamente o período letivo
médio de um curso superior. A protagonista começou
a série graduando-se no colegial e, agora, tornou-se uma
profissional completa e mais madura. Como todo universitário,
porém, ela deixou a maior parte deste amadurecimento para
um tour de force nos seus últimos dias, quando uma
reviravolta do roteiro a fez viajar no tempo para (gritem se vocês
notarem um certo déjà vu) tentar escolher entre
o Bonitão Ben e o Bom Moço Noel.
A série encerrou-se, oficialmente, depois
que se arremedou as pontas soltas do último arco de história,
que envolvia a gravidez inesperada de uma colega alcoólatra
do pai de Bonitão Ben. Como dá para notar, foi uma
desculpa argumentativa ruim para separá-lo de Felicity e
finalmente reuni-los no que seria um desfecho comedido e apropriado.
O que se viu nos cinco episódios seguintes foi uma espécie
epílogo, de prorrogação. Talvez um presente
para os fãs, que sempre compartilharam tão visceralmente
as dúvidas da personagem.
Felicity,
desiludida com mais uma traição de Bonitão
Ben, é enviada de volta no tempo por um feitiço da
amiga Meghan, tendo assim a oportunidade de (ok, mais uma vez) escolher
o amor do Bom Moço Noel. Houve quem reclamasse de tal surrealismo,
ainda mais em uma série que sempre primou por um toque documental
(particularmente na fotografia e na iluminação). Mas
não se trata de um experimentalismo pioneiro. Espectadores
de boa memória irão recordar o episódio da
primeira temporada rodado em banco-e-preto, em tom retrô,
que homenageava o seriado Além da Imaginação.
O risco, em ambos os casos, valeu a pena. Nestes
últimos cinco episódios, a série retomou o
pique que havia perdido em anos de indecisão. Foi um ato
extremado: ao invés de criar pequenos novos motivos, cada
vez mais inverossímeis e odiosos, para separar Felicity e
Bonitão Ben, preferiu-se chutar o balde com algo radical
e ainda mais improvável. Comparado com o que havia ocorrido
antes e ajudado pelo embargo sempre emocional que são os
últimos suspiros de qualquer série, o tal epílogo
fantástico foi um sucesso. Com toda a liberdade criativa
que ele permitia.
Bom Moço Noel morreu. Julie retornou. Felicity
foi parar num hospício (a menina passa a série surtando
por coisas mínimas e é internada só porque
acha que voltou no tempo?). Contudo, não se explorou todas
as possibilidades, visto que a série cometeu mais uma vez
o erro de centrar-se só no (outra vez, vamos lá) dilema
Bonitão Ben X Bom Moço Noel. Os roteiristas desaprenderam
a criar boas histórias para a sub-utilizada Elena e resumiram
o casal Sean e Meghan a uma paródia rasa de Felicity e Bonitão
Ben, num eterno casa-separa sem muita graça.
O último capítulo foi um resuminho
de tudo que havia acontecido nestes quatro anos, conforme relatado
por Felicity para um "feiticeiro" que a enviaria de volta
à época atual. Flashbacks auto-indulgentes
relembraram a dupla paixão de Felicity por seus colegas de
universidade, a comicidade de Javier, a dureza de Elena, a bizarria
de Meghan. Varreu-se para debaixo do tapete grandes tiros n'água,
como os dois namorados de Felicity na segunda temporada, sua conturbada
relação com os pais, as interferências de certas
coadjuvantes femininas (como Julie ou aquela inglesinha do terceiro
ano cujo nome ninguém lembra), etc.
Em
suma: Fleicity voltou no tempo e fez questão de levar os
espectadores junto. A memória seletiva não deixa de
ser um reflexo da ingenuidade maniqueista da protagonista. Mas,
assim como ela, também foi extremamente emocionante. A série
acaba deixando boas lembranças. Mais ainda: deixa também
um enorme espaço vago no coração de teenagers
e na grade de programação da Sony que algo como Dawson's
Creek dificilmente vai preencher. 
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