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3 a 16 de outubro de 2002


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DE VOLTA PARA O FUTURO
Em seus últimos suspiros, Felicity volta no tempo para se auto-justificar e injetar um pouco de criatividade numa trama cansada

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

o último dia 23, a ingênua Felicity foi-se embora e levou consigo, para sempre, seus cachos e "cachos". As aspas se justificam: a mais famosa anti-heroína da TV a cabo não irá mais perder seus cabelos encaracolados tentando escolher entre o Bonitão Ben e o Bom Moço Noel - o conflito que, numa única linha, sumariza a tônica da série. Depois de quatro anos, os produtores decidiram por bem encerrar as agruras da menina, fazendo-a decidir (numa redundância desnecessária para os fãs) pelo galã Bonitão Ben.

Por um acaso do destino, Felicity, que se ambientava numa faculdade, durou exatamente o período letivo médio de um curso superior. A protagonista começou a série graduando-se no colegial e, agora, tornou-se uma profissional completa e mais madura. Como todo universitário, porém, ela deixou a maior parte deste amadurecimento para um tour de force nos seus últimos dias, quando uma reviravolta do roteiro a fez viajar no tempo para (gritem se vocês notarem um certo déjà vu) tentar escolher entre o Bonitão Ben e o Bom Moço Noel.

A série encerrou-se, oficialmente, depois que se arremedou as pontas soltas do último arco de história, que envolvia a gravidez inesperada de uma colega alcoólatra do pai de Bonitão Ben. Como dá para notar, foi uma desculpa argumentativa ruim para separá-lo de Felicity e finalmente reuni-los no que seria um desfecho comedido e apropriado. O que se viu nos cinco episódios seguintes foi uma espécie epílogo, de prorrogação. Talvez um presente para os fãs, que sempre compartilharam tão visceralmente as dúvidas da personagem.

Felicity, desiludida com mais uma traição de Bonitão Ben, é enviada de volta no tempo por um feitiço da amiga Meghan, tendo assim a oportunidade de (ok, mais uma vez) escolher o amor do Bom Moço Noel. Houve quem reclamasse de tal surrealismo, ainda mais em uma série que sempre primou por um toque documental (particularmente na fotografia e na iluminação). Mas não se trata de um experimentalismo pioneiro. Espectadores de boa memória irão recordar o episódio da primeira temporada rodado em banco-e-preto, em tom retrô, que homenageava o seriado Além da Imaginação.

O risco, em ambos os casos, valeu a pena. Nestes últimos cinco episódios, a série retomou o pique que havia perdido em anos de indecisão. Foi um ato extremado: ao invés de criar pequenos novos motivos, cada vez mais inverossímeis e odiosos, para separar Felicity e Bonitão Ben, preferiu-se chutar o balde com algo radical e ainda mais improvável. Comparado com o que havia ocorrido antes e ajudado pelo embargo sempre emocional que são os últimos suspiros de qualquer série, o tal epílogo fantástico foi um sucesso. Com toda a liberdade criativa que ele permitia.

Bom Moço Noel morreu. Julie retornou. Felicity foi parar num hospício (a menina passa a série surtando por coisas mínimas e é internada só porque acha que voltou no tempo?). Contudo, não se explorou todas as possibilidades, visto que a série cometeu mais uma vez o erro de centrar-se só no (outra vez, vamos lá) dilema Bonitão Ben X Bom Moço Noel. Os roteiristas desaprenderam a criar boas histórias para a sub-utilizada Elena e resumiram o casal Sean e Meghan a uma paródia rasa de Felicity e Bonitão Ben, num eterno casa-separa sem muita graça.

O último capítulo foi um resuminho de tudo que havia acontecido nestes quatro anos, conforme relatado por Felicity para um "feiticeiro" que a enviaria de volta à época atual. Flashbacks auto-indulgentes relembraram a dupla paixão de Felicity por seus colegas de universidade, a comicidade de Javier, a dureza de Elena, a bizarria de Meghan. Varreu-se para debaixo do tapete grandes tiros n'água, como os dois namorados de Felicity na segunda temporada, sua conturbada relação com os pais, as interferências de certas coadjuvantes femininas (como Julie ou aquela inglesinha do terceiro ano cujo nome ninguém lembra), etc.

Em suma: Fleicity voltou no tempo e fez questão de levar os espectadores junto. A memória seletiva não deixa de ser um reflexo da ingenuidade maniqueista da protagonista. Mas, assim como ela, também foi extremamente emocionante. A série acaba deixando boas lembranças. Mais ainda: deixa também um enorme espaço vago no coração de teenagers e na grade de programação da Sony que algo como Dawson's Creek dificilmente vai preencher.