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3 a 16 de outubro de 2002


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PERNAMBUCO NÃO PÁRA!
Contrariando as expectativas do mercado fonográfico, a cena pernambucana continua produzindo boa música

por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

ecife está em constante movimento. Para quem acha que o manguebit morreu, os "caranguejos com cérebro" da manguecéia continuam espumando boa música.
E já que o mercado fonográfico não abre portas para esses artistas, o caminho é a independência. Só no último mês foram lançados quatro bons discos, quase sem alarde por parte dos grandes veículos. A música de Cinval, Siba, Renata Rosa e Cascabulho, num primeiro momento, pode parecer estranha para os ouvidos mais acostumados com o que as rádios e a MTV costumar tocar. Mas a partir da segunda vez que se ouve esse som, ele torna-se mais "digerível".

Assim como o mangue, o lema dos quatro é a diversidade. É verdade que nem todos os artistas estão ligados diretamente ao movimento, mas sem dúvida o caminho foi aberto por Chico Science, Fred 04 e seus asseclas. Vale checar esse caminho.

VIGIANDO A TANAJURA - CARANGUEJO RECORDS
Este é o quinto disco (4 inéditos e uma coletânea) de Cinval Coco Grude, ou apenas Cinval. Figura conhecida entre os mangueboys, ele começou sua carreira com o Querosene Jacaré, banda seminal do manguebit. O QJ surgiu depois de Cinval ter visto algumas apresentações de Chico Science & Nação Zumbi. Porém, mesmo com o grupo, Cinval fez seu projeto solo: o Cinval Coco Grude. Gravando num estúdio caseiro, seus álbuns demonstram uma clara evolução musical e de produção. Vigiando a Tanajura é sem dúvida o seu álbum mais bem produzido. Com participação do flautista Ciano Alves, do Quinteto Violado, e de outros músicos convidados, o CD é realmente uma salada sonora: mistura coco (ritmo afro típico do nordeste brasileiro) com psicodelia, ciranda com música eletrônica, gravações de conversas de ambulantes, efeitos sonoros feitos com a boca e outras viagens. "Formigamento Jazziano (cabulosa FM) Este som vai para US3", um drum´n´bass regional com ganzá, flauta e bases eletrônicas, mostra bem o que uma mente criativa pode fazer, mesmo enfrentando diversas dificuldade$. Para lançar seus discos, Cinval criou a Caranguejo Records, que conta com a distribuição das lojas de seus amigos. Contato: (81) 3231.7782

CACO DE VIDRO PURO - VS MUSIC
O que dizer de um disco que tem, entre outras, participações de Fred 04, Tom Zé, Marcos Suzano e Naná Vasconcelos? Alguém pode dizer que a banda é fraca e por isso precisa de artistas famosos para fazer um bom disco. Com certeza esse não é o caso do Cascabulho. Este segundo disco da banda (o primeiro foi o ótimo Fome Dá Dor de Cabeça, de 1998) traz diversas mudanças. A primeira é a ausência de Silvério Pessoa, que saiu em 2000 para fazer carreira solo. Além disso, agregaram-se à banda Emanuel Santana, Guga Santos e Alexandre Ferreira. Quanto às músicas, este CD mostra o quanto os dirigentes de gravadoras e rádios não entendem de música. O álbum é pedrada atrás de pedrada, uma música melhor que a outra. Trabalhando basicamente com elementos sonoros tradicionais como o samba e o xote, o resultado é um disco rebuscado sem ser "cabeça". "Samba da Atitude", com Tom Zé e 04, "Batecum" e "Feira de Santana" são músicas pra tocar em todas as festas e rádios do Brasil real. Contato: vsmusic@bol.com.br

FULORESTA DO SAMBA - TERREIRO DISCOS
Siba demonstra ser um sujeito pacato. Mas neste disco solo ele se mostrou um cabra arretado, que foi atrás da sua fonte musical. Rabequeiro da banda Mestre Ambrósio, Siba foi morar em Nazaré da Mata, interior pernambucano, para conviver de perto com os artistas populares. O resultado foi a Fuloresta do Samba, nome do disco e da banda que se formou para fazer as apresentações. A exploração dessa rica floresta encontrou dois ritmos: a ciranda e o maracatu-rural. O maracatu-rural ou baque solto é um folguedo carnavalesco que quase não tem registro sonoro gravado. Siba soube muito bem trabalhar com este ritmo que depende muito da apresentação visual dos caboclos-de-lança. Já pra quem nunca dançou ciranda é uma ótima oportunidade de juntar os amigos, dar as mãos e formar uma roda e cirandar a noite toda. Contato: fuloresta@uol.com.br

ZUNIDO DA MATA - TERREIRO DISCOS
Este disco pode ser considerado continuação natural do disco da Comadre Florzinha, banda feminina pernambucana. Mas desta vez é apenas Renata Rosa que participa. Isso não quer dizer que ela está sozinha, mas é um álbum solo. O CD é cheio de coco (ritmo afro-brasileiro), forró, ciranda. Com uma voz maravilhosa, Renata segue a trilha deixada pelas comadres e mostra que tem talento suficiente para mostrar que o Brasil não é "monocultural". Contato: terreirodiscos@uol.com.br