equipe discussao anteriores
3 a 16 de outubro de 2002


Picosearch

ESTRADA CONGESTIONADA
Má adaptação de uma história belíssima expõe a mediocridade de Sam Mendes, num filminho que tinha tudo para ser um filmão

por Carolina Meyer (carolina_meyer@yahoo.fr)

magine que você tem nas mãos uma BMW Z8, com um motor de 400 cavalos de potência, podendo atingir uma velocidade de 250 km/h em menos de 10 segundos. Perceba que, à sua frente, você tem uma estrada vazia, toda asfaltada. Não há limites de velocidade. Você dá a partida no carro, mete o pé no acelerador e... não sai de míseros 60 km/h porque deixou o freio de mão puxado. Desesperador, não é? O piloto desse carrão, na verdade, é Sam Mendes (o diretor de Beleza Americana) e a BMW Z8, sua mais nova empreitada: o filme Estrada para Perdição, que estréia dia 11 desse mês.

Pois é. Estrada para Perdição tinha tudo - tudo mesmo - para ser um filmão. Um elenco fantástico (Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law e Stanley Tucci), excelente fotografia (os méritos são todos de Conrad Hall), produção irretocável, com o trabalho apuradíssimo do figurinista Albert Wolsky e um roteiro brilhante. O problema é que faltou um bom piloto para este carrão, quer dizer, um diretor à altura da produção.

Nos idos da Grande Depressão, anos 30, a máfia reinava absoluta na florescente Chicago. O mafioso Michael Sullivan (Tom Hanks), braço direito do chefão John Ronney (Paul Newman), acaba perdendo a mulher e o filho mais novo por conta da ambição de um outro mafioso: Connor Rooney (interpretado pelo britânico Daniel Craig), filho de John. É nesse momento que a história se revela - ou deveria se revelar - intrigante. Afinal de contas, Michael Sullivan perdeu sua família graças ao filho do homem que aprendera a considerar como pai. Aqui começa a luta de Hanks por vingança.

Só que, nesse momento, seus problemas com a máfia passam a servir de pano de fundo para um dilema ainda maior: impedir que seu filho mais velho, Michael Sullivan Jr. (Tyler Hoechlin), de apenas 12 anos, siga o mesmo caminho que o pai. É nessa hora que percebemos que o título do filme introduz dois significados: representa não só a estrada para a cidade de Perdição, para onde os dois se dirigem, como também o dilema do pai para que o filho não caia em perdição, como ele caiu.

Nesse ponto, Sam Mendes surpreende pela incapacidade de trazer às telas o que deveria ser uma luta terrível. Graças à nítida falta de tato do diretor, não há um dilema moral. Há, sim, uma espécie de moralismo ingênuo, quase imbecilizante. Afinal de contas, em momento algum o menino é tentado pelo poder e pelo dinheiro fácil da máfia. Não há nem sombra de tentação ou de dilema. Ao que parece, Michael Sullivan Jr, de alma pura e boa, sabe que ser mafioso é mau e, de cara, se posiciona do lado do bem.

Tom Hanks também não colabora. O astro de Filadélfia, Forrest Gump, O Náufrago e tantos outros filmões pareceu não ter profundidade para lidar com a complexidade do personagem. Ele, tão carrancudo no começo do filme, acaba ficando coração mole, nos moldes de Quero ser Grande. Fica muito claro que joga no time dos bonzinhos.

Isso para não falar no personagem de Jude Law, Maguire, um jornalista policial que, eventualmente, presta serviços à máfia. É um daqueles tipos que, literalmente, aparecem e desaparecem do nada. Sim, ele faz parte do filme, mas Estrada para Perdição não teria perdido nada se ele não fizesse. Personagem totalmente dispensável à trama, a ponto de ele desaparecer e o espectador nem perceber. E, quando ressurge na tela, ouve-se o clássico murmurar no cinema: quem é esse cara mesmo?

Mas nem tudo é uma desgraça. O fato de o motorista, errr... Sam Mendes, ter se mostrado medíocre, não quer dizer que o carro, em si, não seja um projetão. Afinal de contas, como eu disse, você está com uma BMW nas mãos, não com um fusca 67!

Há muitas coisas que valem o filme. Se pensar em pagar um ingresso para ver Tom Hanks se esforçando para interpretar o papel lhe parece uma idéia estapafúrdia, sugiro que, ao contrário, você vá ao cinema para ver Paul Newman dando um show de atuação, sem se esforçar. Newman interpreta um mafioso - que também é pai e que, por conta disso, atravessa situações dificílimas - com perfeição.

Outro que merece alguns aplausos por seu desempenho é Stanley Tucci. Seu personagem, o mafioso Frank Nitti, existiu na vida real como braço direito do maior mafioso da História: Al Capone. Tucci está, também, muito bem no papel de um homem que mantém "relações comerciais" com a turma de Ronney.

Mas o que vale mesmo em Estrada... é a poesia e a produção, mais até do que um roteiro mal adaptado, como foi o caso. Tudo tem importância no filme: as paisagens, o ambiente constantemente cinza, a luz do sol. Os cuidados foram tais que até a água é um personagem. No trabalho de pesquisa de época, os produtores descobriram que, para conservar um cadáver durante o velório, os mafiosos utilizavam gelo dentro do caixão. Resultado: derretido, escorria e pingava dentro de baldes. Essa metáfora de utilizar a água como simbologia para a morte permeia todo a película, sobretudo nos momentos mais decisivos.

O figurino, também, é muito bem cuidado, com a recriação, inclusive, dos tipos de tecidos utilizados na época. A fotografia é belíssima: Bresson ficaria orgulhoso do trabalho de Conrad Hall. Aliás, graças às suas imagens, Estrada para Perdiçãonão é uma esculhambação total. Ao contrário, é um filme que, por sua poesia - e pelo dilema que conseguimos supor que existiu - vale um ingresso nos caríssimos cinemas da capital paulista.