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ESTRADA CONGESTIONADA
Má adaptação
de uma história belíssima expõe a mediocridade
de Sam Mendes, num filminho que tinha tudo para ser um filmão
por Carolina
Meyer (carolina_meyer@yahoo.fr)
 magine
que você tem nas mãos uma BMW Z8, com um motor de 400
cavalos de potência, podendo atingir uma velocidade de 250
km/h em menos de 10 segundos. Perceba que, à sua frente,
você tem uma estrada vazia, toda asfaltada. Não há
limites de velocidade. Você dá a partida no carro,
mete o pé no acelerador e... não sai de míseros
60 km/h porque deixou o freio de mão puxado. Desesperador,
não é? O piloto desse carrão, na verdade, é
Sam Mendes (o diretor de Beleza Americana) e a BMW Z8, sua
mais nova empreitada: o filme Estrada para Perdição,
que estréia dia 11 desse mês.
Pois é. Estrada para Perdição
tinha tudo - tudo mesmo - para ser um filmão. Um elenco fantástico
(Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law e Stanley Tucci), excelente fotografia
(os méritos são todos de Conrad Hall), produção
irretocável, com o trabalho apuradíssimo do figurinista
Albert Wolsky e um roteiro brilhante. O problema é que faltou
um bom piloto para este carrão, quer dizer, um diretor à
altura da produção.
Nos idos da Grande Depressão, anos 30, a máfia
reinava absoluta na florescente Chicago. O mafioso Michael Sullivan
(Tom Hanks), braço direito do chefão John Ronney (Paul
Newman), acaba perdendo a mulher e o filho mais novo por conta da
ambição de um outro mafioso: Connor Rooney (interpretado
pelo britânico Daniel Craig), filho de John. É nesse
momento que a história se revela - ou deveria se revelar
- intrigante. Afinal de contas, Michael Sullivan perdeu sua família
graças ao filho do homem que aprendera a considerar como
pai. Aqui começa a luta de Hanks por vingança.
Só que, nesse momento, seus problemas com
a máfia passam a servir de pano de fundo para um dilema ainda
maior: impedir que seu filho mais velho, Michael Sullivan Jr. (Tyler
Hoechlin), de apenas 12 anos, siga o mesmo caminho que o pai. É
nessa hora que percebemos que o título do filme introduz
dois significados: representa não só a estrada para
a cidade de Perdição, para onde os dois se dirigem,
como também o dilema do pai para que o filho não caia
em perdição, como ele caiu.
Nesse
ponto, Sam Mendes surpreende pela incapacidade de trazer às
telas o que deveria ser uma luta terrível. Graças
à nítida falta de tato do diretor, não há
um dilema moral. Há, sim, uma espécie de moralismo
ingênuo, quase imbecilizante. Afinal de contas, em momento
algum o menino é tentado pelo poder e pelo dinheiro fácil
da máfia. Não há nem sombra de tentação
ou de dilema. Ao que parece, Michael Sullivan Jr, de alma pura e
boa, sabe que ser mafioso é mau e, de cara, se posiciona
do lado do bem.
Tom Hanks também não colabora. O astro
de Filadélfia, Forrest Gump, O Náufrago
e tantos outros filmões pareceu não ter profundidade
para lidar com a complexidade do personagem. Ele, tão carrancudo
no começo do filme, acaba ficando coração mole,
nos moldes de Quero ser Grande. Fica muito claro que joga
no time dos bonzinhos.
Isso para não falar no personagem de Jude
Law, Maguire, um jornalista policial que, eventualmente, presta
serviços à máfia. É um daqueles tipos
que, literalmente, aparecem e desaparecem do nada. Sim, ele faz
parte do filme, mas Estrada para Perdição não
teria perdido nada se ele não fizesse. Personagem totalmente
dispensável à trama, a ponto de ele desaparecer e
o espectador nem perceber. E, quando ressurge na tela, ouve-se o
clássico murmurar no cinema: quem é esse cara mesmo?
Mas nem tudo é uma desgraça. O fato
de o motorista, errr... Sam Mendes, ter se mostrado medíocre,
não quer dizer que o carro, em si, não seja um projetão.
Afinal de contas, como eu disse, você está com uma
BMW nas mãos, não com um fusca 67!
Há muitas coisas que valem o filme. Se pensar
em pagar um ingresso para ver Tom Hanks se esforçando para
interpretar o papel lhe parece uma idéia estapafúrdia,
sugiro que, ao contrário, você vá ao cinema
para ver Paul Newman dando um show de atuação, sem
se esforçar. Newman interpreta um mafioso - que também
é pai e que, por conta disso, atravessa situações
dificílimas - com perfeição.
Outro que merece alguns aplausos por seu desempenho
é Stanley Tucci. Seu personagem, o mafioso Frank Nitti, existiu
na vida real como braço direito do maior mafioso da História:
Al Capone. Tucci está, também, muito bem no papel
de um homem que mantém "relações comerciais"
com a turma de Ronney.
Mas
o que vale mesmo em Estrada... é a poesia e a produção,
mais até do que um roteiro mal adaptado, como foi o caso.
Tudo tem importância no filme: as paisagens, o ambiente constantemente
cinza, a luz do sol. Os cuidados foram tais que até a água
é um personagem. No trabalho de pesquisa de época,
os produtores descobriram que, para conservar um cadáver
durante o velório, os mafiosos utilizavam gelo dentro do
caixão. Resultado: derretido, escorria e pingava dentro de
baldes. Essa metáfora de utilizar a água como simbologia
para a morte permeia todo a película, sobretudo nos momentos
mais decisivos.
O figurino, também, é muito bem cuidado,
com a recriação, inclusive, dos tipos de tecidos utilizados
na época. A fotografia é belíssima: Bresson
ficaria orgulhoso do trabalho de Conrad Hall. Aliás, graças
às suas imagens, Estrada para Perdiçãonão
é uma esculhambação total. Ao contrário,
é um filme que, por sua poesia - e pelo dilema que conseguimos
supor que existiu - vale um ingresso nos caríssimos cinemas
da capital paulista. 
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