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3 a 16 de outubro de 2002


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FEITO PARA O OSCAR
Grandes nomes e amontoado de clichês colocam Estrada para Perdição na lista dos favoritos da Academia

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

ara o cinemão hollywoodiano, o ápice da glória é a conquista de um Oscar. Por mais que as bilheterias zilionárias encham de orgulho os figurões da indústria cinematográfica, sempre existe uma pontinha de inveja daquele filme que conseguiu se mostrar o melhor do ano. Para os cineastas e para boa parte do público, o Oscar é um certificado de qualidade que ainda tem valor. É claro que a cada ano que passa o prêmio distribuído pela Academia passa a ter mais valor comercial, seguindo menos critérios artísticos. A guerra de campanha de relações públicas que envolve os grandes estúdios dá à estatueta careca um status de prêmio pago. O mais triste é perceber que o grande público ainda se agita em torno das indicações, torcendo por seus filmes prediletos como se fossem escolas de samba desfilando na Sapucaí. A imprensa vai na onda da indústria, que arranja tudo para que o Oscar sirva ao seu verdadeiro propósito: vender filmes e premiar os heróis daquilo que já foi chamado de sétima arte.

Estrada para Perdição, novo trabalho de Sam Mendes, é um típico cavalo de corrida moderno, feito para colecionar prêmios. Seus anabolizantes são os nomes que envolvem a produção - começando pelo diretor, o mesmo de Beleza Americana - e o sentimentalismo boboca e superficial que compõem a trama. Não é um filme péssimo, mas não seria surpresa se fracassasse num mercado livre do jogo de empurra promovido pelos grandes estúdios e pelas distribuidoras. OK, isso é utopia. O futuro de Estrada para Perdição é deixar lágrimas no canto dos olhos do público e alguns troféuzinhos nas estantes da casa de Sam Mendes, Richard Zanuck, Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law e cia. Mas o que faz deste filme um tiro certeiro para o Oscar e os outros concursos "pop" do próximo ano?

1) O nome do diretor é um grande trunfo do filme. Sam Mendes é queridinho da Academia desde que colocou Beleza Americana nas listas de preferidos tanto do público quanto da crítica. O filme foi uma espécie de "Lolita para leigos". Uma problemática séria abordada de maneira palatável e deglutível para o espectador médio. Beleza Americana tinha seus méritos, mas não é tudo isso que dizem. Só que Mendes, protegido de Spielberg, ganhou prestígio com o filme. E a Academia tende a achar - de antemão - que filme de diretor premiado merece, no mínimo, ser indicado. Oliver Stone, Clint Eastwood e o próprio Spielberg, por exemplo, são intocáveis. Seguindo esta lógica, se Mendes fez, é porque é bom. E ponto final. Na verdade, Estrada... poderia ter saído melhor que seu irmão mais velho, mas acabou sendo estragado pela incompetência do diretor. Eu disse estragado? Estou enganado: o filme foi é maquiado e empetecado para faturar Oscars.

2) De novo, Steven Spielberg. Não existe uma grande máfia judaica em Hollywood, como dizem por aí. Mas Spielberg dá motivo para os racistas suspeitarem disso. Tudo que ele toca vira ouro e atrai prêmios. Como godfather do diretor Sam Mendes, já conseguiu angariar votos para que Beleza Americana fosse consagrado como filmaço. Não será surpresa se sair por aí exigindo que Estrada... seja eleito o melhor filme de 2002. A indústria tem cedido aos apelos deste marqueteiro de primeira. Exceção, é claro, à derrota de Resgate do Soldado Ryan em 1999. Mas aquele foi o ano em que a Miramax abriu o cofrinho e encheu os membros da Academia de mimos para que Shakespeare Apaixonado levasse o prêmio máximo.

3) Tom Hanks e Paul Newman. Com cinco indicações, o primeiro já levou pra casa dois Oscars de melhor ator - em anos consecutivos, por Filadélfia e Forrest Gump. Newman conseguiu o absurdo de oito indicações, levando a estatueta por seu trabalho em A Cor do Dinheiro. Com currículos assim, não é preciso nem atuar: basta brincar na frente das câmeras que a bilheteria já está garantida. Os prêmios, também. Para completar, o filme ainda conta com outro ator que está com a moral em alta em Hollywood. Jude Law é craque, e não tem culpa se usarem seu nome como chamariz marqueteiro.

4) Tem uma coisa que não dá pra negar: Estrada para Perdição é um filme tecnicamente muito bem realizado. A reconstituição da Chicago da Grande Depressão é perfeita. Detalhista e cuidadosa aos extremos. É mérito do filme, que também atrai a atenção da Academia. Eles adoram esses orçamentos gigantescos, folhas de pagamento quilométricas só de pessoal da área técnica. É isso que move a indústria deles, não? Um diretor mais talentoso seria capaz de deitar e rolar com toda essa grana. Esse aí ficou no mediano, mas não dá pra exigir de um Sam Mendes um produto final no nível dos irmãos Coen.

5) Pegue um dilema moral, adicione algumas metáforas de compreensão fácil e deixe o público sair do cinema se sentindo inteligente. Só que não é preciso nem raciocinar para absorver a "complicadíssima" analogia entre a estrada (de verdade) que leva para a cidade de Perdição e o caminho que Tom Hanks tenta evitar que o filho tome. O chato é que a história não é ruim, e o tema daria pano pra manga. Mas o resultado final... Com Estrada..., temos a típica fita estilo McDonalds: na hora, dá pra encarar, mas alguns minutos depois já estamos de barriga vazia. Você vai pegar seu carro no estacionamento do shopping e o filme já terá desaparecido de sua memória. Falta aquele dilema gostoso dos filmes de máfia de Martin Scorcese. Sobra um moralismo bobo e sentimentalóide, nada mais do que o esperado de um apadrinhado de Spielberg. No final, a mesma redenção-surpresa de Beleza Americana. Desta vez nem é tão surpresa assim. Também não será surpresa pra ninguém se o filmeco de Sam Mendes rapelar uma boa quantidade de Oscars na festa do ano que vem.