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3 a 16 de outubro de 2002


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S1M0NE É QUE ERA MULHER DE MENTIRA
A criatura do Frankenstein do terceiro milênio é feita de 1s e 0s e de monstro não tem nada

por Celso Antonio de Almeida (celso@imneverwrong.com)

raticamente todo mundo adora celebridades. Em tempos de Internet e reality shows, então, elas são criadas aos montes e distribuídas via monitores - de TV ou computador - no atacado. E são esquecidas tão rápido quanto surgem. Afinal, todos querem os já proverbiais 15 minutos de fama, e o dia tem 24 horas.

Foi pensando nisso que o diretor Andrew Niccol (que também roteirizou o espetacular O Show de Truman) fez S1m0ne, que estréia este mês no Brasil. Al Pacino é um produtor de cinema de Hollywood que tem a boa - porém, admitamos, não lá muito original - idéia de criar sua própria estrela de cinema. Mas não criar no sentido figurado, de transformar um artista insosso em celebridade, e sim criar no principal sentido da palavra, ou seja, do nada. O slogan do filme, inclusive, é um trocadilho com a famosa frase "nasce uma estrela": a star is... created ("é criada uma estrela").

A bem da verdade, S1m0ne, que é como Viktor Taransky, o personagem de Pacino, decide chamar sua criação, não foi criada exatamente do nada. Ela é um amálgama das características de estrelas bem conhecidas por nós. Ela tem traços de Cameron Diaz, Jennifer Lopez, entre outras beldades cinematográficas. Seu nome é um acrônimo para SIMulation ONE, ou "Simulação Um". No lugar das letras I e O temos 1 e 0, que são, sabidamente, a única linguagem que os computadores entendem.

Isso se deve ao fato de que S1m0ne foi criada como os dinossauros de Jurassic Park, ou seja, a partir de muitos e muitos bytes. O resultado dessa "colcha de retalhos" das belas da tela, dessa criação que de Frankenstein tem apenas o modo como foi levada a cabo, é uma mulher perfeita. Só que a tecnologia para criar realmente S1m0ne não existe, pelo menos não ainda. Foi escalada para a difícil missão de mulher perfeita, portanto, a modelo canadense Rachel Roberts (ei, será que ela tomou emprestado o sobrenome de Julia?!).

Rachel, ou S1m0ne, passa grande parte do filme com uma expressão blasé, como convém a uma garota que não existe, e quem "move os fios" é Taransky. Só que nem mesmo o inteligente Niccol fugiu do clichê "a máquina domina o homem", e S1m0ne passa a agir por conta própria e, como toda mulher que se preze, assume as rédeas da situação.

Taransky passa então a tentar destruir - ou deletar - sua criação, mas já é tarde demais. Uma cena memorável do filme é aquela em que ele diz "mas fui eu quem a criou!" e ouve como resposta "não, Viktor, ela criou você".

GAROTAS VIRTUAIS

S1m0ne não é de forma alguma a primogênita da linhagem das mulheres de mentira que atiçam de verdade a libido de uma imensidão de homens - e de algumas mulheres também - ao redor do mundo. Uma das primeiras foi lady Lara Croft, do já clássico videogame Tomb Raider e que virou mulher de (muita) carne e osso na pele da bad girl Angelina Jolie na telona. Temos também a Dra. Aki Ross, de Final Fantasy, esta sim totalmente virtual e que tem fotos dela nua espalhadas por vários sites de fãs pela Internet afora. Isso sem falar na nacional Se7e Zoom, que não é atriz, mas segundo sua própria biografia "semideusa e fotógrafa" (??). A belíssima morena de olhos claros Se7e foi criada para ser garota-propaganda de uma conhecida marca de dentifrício e, além da beleza estonteante, tem uma inteligência artificial tão aguçada que permite aos visitantes de seu site, em sua maioria do sexo masculino, claro, entabular horas de conversação com a atirada garota. Muitos nem se dão conta de que ela não é real, pelo menos não no sentido que estamos habituados a dar a esta palavra.