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MAIS QUE MIL PALAVRAS
As reportagens em quadrinhos de Joe
Sacco trazem as imagens de conflitos internacionais que as telas
não sabem mostrar
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
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| O jornalista e desenhista Joe Sacco |
 imagem
que temos de Israel: um bando de homens engravatados com um quipá
no alto da cabeça, conversando com quem quer que seja o presidente
dos Estados Unidos no período. A imagem que temos dos palestinos:
um velho beiçudo com um lençol na cabeça comandando
um bando de gente que sai explodindo coisas por aí. A imagem
que temos do conflito entre os dois: um bando de gente brigando
por uma tripinha de terra num lugar inóspito. A imagem que
temos da guerra da Bósnia: pessoas num canto da Europa brigando
não se sabe bem por que. Imagens de TV, enviadas via CNN,
às vezes descritas num jornal.
Pode parecer impressionante dizer que histórias
em quadrinhos em preto-e-branco, com desenhos num estilo meio caricatural,
podem trazer imagens melhores que estas. Mas é um fato, tornado
real pelo jornalista Joe Sacco. Inaugurando o que se chama de "jornalismo
em quadrinhos", Sacco é o autor de dois livros: Palestina
- Uma Nação Ocupada, sobre o que viu em Israel,
e Área de Segurança Gorazde, sobre os meses
que passou na Bósnia.
Não é necessário ler o enorme
prefácio que José Arbex escreveu em Palestina
tentando justificar o jornalismo em quadrinhos (apesar dele ser
muito interessante) para saber que esta é uma maneira válida
de se relatar fatos. Sacco encontrou nos quadrinhos uma maneira
surpreendentemente eficaz de levar a seus leitores as sensações
que tinha nessas áreas de conflito. Eles permitem ao leitor
tomar o tempo que quiser observando uma cena, uma expressão,
e relendo um texto para melhor compreendê-lo, de uma maneira
que a televisão simplesmente não permite com seus
cortes de dez segundos. A primeira página de Palestina,
retratando a chegada do jornalista no Cairo, transmite o caos e
os ruídos do lugar como nenhum outro meio - livro, revista,
rádio ou televisão - poderia fazer.
E,
talvez mais importante, a reportagem em quadrinhos dá voz
às pessoas. Em ambos os livros Sacco transcreve as inúmeras
entrevistas que fez; a figura do entrevistador, no entanto, praticamente
desaparece. É como se estes personagens (reais) estivessem
falando diretamente com o leitor, que pode muitas vezes "ver"
as situações que narram e em suas expressões
ao as relatarem. Nenhuma outra mídia consegue fazer isso
de forma convincente; veja-se por exemplo as reconstituições
toscas apresentadas em qualquer programa mundo-cão.
A intenção de Palestina é
mostrar quem são e como vivem os milhares de palestinos que
foram expulsos das terras em que viviam pelos judeus. Sacco mostra
uma população que há anos vive "provisoriamente",
tendo aos poucos sua história e dignidade apagadas pelos
judeus. O jornalista permite aos palestinos relatarem as violências
a que são submetidos há anos, e também passa
suas impressões sobre uma população em que
o anormal é não ter sido preso nenhuma vez e que toma
muito, muito chá. Os quadrinhos são usados de maneira
criativa: quando narra a prisão de um palestino, por exemplo,
os painéis vão ficando cada vez menores, transmitindo
a claustrofobia do narrador; quando descreve um protesto que acaba
em conflito, eles são jogados de maneira aleatória
na página, reproduzindo a confusão da cena.
Apesar de mais "tradicional" na disposição
dos quadros, Gorazde mostra o quanto tanto o artista como
o contador de histórias Joe Sacco evoluíram desde
a obra anterior. Bem mais extenso, esse segundo livro relata a experiência
do autor em Gorazde, uma pequena cidade bósnia que resiste
em território ocupado pelos sérvios. Sacco toma o
leitor pela mão e o faz passar pelo mesmo processo de descoberta
por que passou. A história começa de situações
não tão distantes das de países em paz e vai
descobrindo uma por uma cada ferida aberta nos anos de guerra na
ex-Iugoslávia. De simples objetos jornalísticos, a
população islâmica ilhada em Gorazde vai ganhando
profundidade, relatando como passaram fome, como não conseguem
estudar, como perderam parentes, como se sentem esquecidos pela
capital Sarajevo, e como fariam quase qualquer coisa por um jeans
novo. A natureza do conflito vai sendo explicada ao longo do livro,
muitas vezes com depoimentos dos moradores da cidade. Ao contrário
de Palestina, em Gorazde o autor utiliza seis ou sete
pessoas como "personagens principais", o que cria uma
empatia muito maior do leitor com a história. A reportagem
ganha uma estrutura narrativa, chegando até a ter clímax.
Os
traços de Sacco se refinaram muito de um livro para o outro.
As pessoas deixaram de ser bocudas e perderam as expressões
levemente cômicas que tinham em Palestina. Gorazde
apresenta uma riqueza de detalhes impressionante, que penetra a
visão do leitor e vale mais do que muitas palavras. Não
há como não ficar incomodado com as onipresentes marcas
de explosivos no asfalto das ruas da cidade. As expressões
de desespero e desesperança de seus moradores fixam-se na
retina, e as cenas dos massacres acontecidos na região (e
acredite, houve mais do que você sequer imagina) ficam marcados
na mente de maneira dolorosa.
Joe Sacco conseguiu em seus livros retratar para
o mundo duas realidades tão distantes de maneira humana e,
por isso mesmo, sensibilizadora, principalmente para uma cultura
tão acostumada a assistir ao sofrimento e violência
como a nossa. Ele faz os olhos verem para que nosso coração
sinta um pouco do que se passa nesses mundos. Ao fim de seus livros,
sente quase um alívio que nossa situação seja
diferente dessa que acabamos de ler. Pelo menos sabemos lidar com
a violência nossa de cada dia. 
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