equipe discussao anteriores
3 a 16 de outubro de 2002


Picosearch

MAIS QUE MIL PALAVRAS
As reportagens em quadrinhos de Joe Sacco trazem as imagens de conflitos internacionais que as telas não sabem mostrar

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

O jornalista e desenhista Joe Sacco

 imagem que temos de Israel: um bando de homens engravatados com um quipá no alto da cabeça, conversando com quem quer que seja o presidente dos Estados Unidos no período. A imagem que temos dos palestinos: um velho beiçudo com um lençol na cabeça comandando um bando de gente que sai explodindo coisas por aí. A imagem que temos do conflito entre os dois: um bando de gente brigando por uma tripinha de terra num lugar inóspito. A imagem que temos da guerra da Bósnia: pessoas num canto da Europa brigando não se sabe bem por que. Imagens de TV, enviadas via CNN, às vezes descritas num jornal.

Pode parecer impressionante dizer que histórias em quadrinhos em preto-e-branco, com desenhos num estilo meio caricatural, podem trazer imagens melhores que estas. Mas é um fato, tornado real pelo jornalista Joe Sacco. Inaugurando o que se chama de "jornalismo em quadrinhos", Sacco é o autor de dois livros: Palestina - Uma Nação Ocupada, sobre o que viu em Israel, e Área de Segurança Gorazde, sobre os meses que passou na Bósnia.

Não é necessário ler o enorme prefácio que José Arbex escreveu em Palestina tentando justificar o jornalismo em quadrinhos (apesar dele ser muito interessante) para saber que esta é uma maneira válida de se relatar fatos. Sacco encontrou nos quadrinhos uma maneira surpreendentemente eficaz de levar a seus leitores as sensações que tinha nessas áreas de conflito. Eles permitem ao leitor tomar o tempo que quiser observando uma cena, uma expressão, e relendo um texto para melhor compreendê-lo, de uma maneira que a televisão simplesmente não permite com seus cortes de dez segundos. A primeira página de Palestina, retratando a chegada do jornalista no Cairo, transmite o caos e os ruídos do lugar como nenhum outro meio - livro, revista, rádio ou televisão - poderia fazer.

E, talvez mais importante, a reportagem em quadrinhos dá voz às pessoas. Em ambos os livros Sacco transcreve as inúmeras entrevistas que fez; a figura do entrevistador, no entanto, praticamente desaparece. É como se estes personagens (reais) estivessem falando diretamente com o leitor, que pode muitas vezes "ver" as situações que narram e em suas expressões ao as relatarem. Nenhuma outra mídia consegue fazer isso de forma convincente; veja-se por exemplo as reconstituições toscas apresentadas em qualquer programa mundo-cão.

A intenção de Palestina é mostrar quem são e como vivem os milhares de palestinos que foram expulsos das terras em que viviam pelos judeus. Sacco mostra uma população que há anos vive "provisoriamente", tendo aos poucos sua história e dignidade apagadas pelos judeus. O jornalista permite aos palestinos relatarem as violências a que são submetidos há anos, e também passa suas impressões sobre uma população em que o anormal é não ter sido preso nenhuma vez e que toma muito, muito chá. Os quadrinhos são usados de maneira criativa: quando narra a prisão de um palestino, por exemplo, os painéis vão ficando cada vez menores, transmitindo a claustrofobia do narrador; quando descreve um protesto que acaba em conflito, eles são jogados de maneira aleatória na página, reproduzindo a confusão da cena.

Apesar de mais "tradicional" na disposição dos quadros, Gorazde mostra o quanto tanto o artista como o contador de histórias Joe Sacco evoluíram desde a obra anterior. Bem mais extenso, esse segundo livro relata a experiência do autor em Gorazde, uma pequena cidade bósnia que resiste em território ocupado pelos sérvios. Sacco toma o leitor pela mão e o faz passar pelo mesmo processo de descoberta por que passou. A história começa de situações não tão distantes das de países em paz e vai descobrindo uma por uma cada ferida aberta nos anos de guerra na ex-Iugoslávia. De simples objetos jornalísticos, a população islâmica ilhada em Gorazde vai ganhando profundidade, relatando como passaram fome, como não conseguem estudar, como perderam parentes, como se sentem esquecidos pela capital Sarajevo, e como fariam quase qualquer coisa por um jeans novo. A natureza do conflito vai sendo explicada ao longo do livro, muitas vezes com depoimentos dos moradores da cidade. Ao contrário de Palestina, em Gorazde o autor utiliza seis ou sete pessoas como "personagens principais", o que cria uma empatia muito maior do leitor com a história. A reportagem ganha uma estrutura narrativa, chegando até a ter clímax.

Os traços de Sacco se refinaram muito de um livro para o outro. As pessoas deixaram de ser bocudas e perderam as expressões levemente cômicas que tinham em Palestina. Gorazde apresenta uma riqueza de detalhes impressionante, que penetra a visão do leitor e vale mais do que muitas palavras. Não há como não ficar incomodado com as onipresentes marcas de explosivos no asfalto das ruas da cidade. As expressões de desespero e desesperança de seus moradores fixam-se na retina, e as cenas dos massacres acontecidos na região (e acredite, houve mais do que você sequer imagina) ficam marcados na mente de maneira dolorosa.

Joe Sacco conseguiu em seus livros retratar para o mundo duas realidades tão distantes de maneira humana e, por isso mesmo, sensibilizadora, principalmente para uma cultura tão acostumada a assistir ao sofrimento e violência como a nossa. Ele faz os olhos verem para que nosso coração sinta um pouco do que se passa nesses mundos. Ao fim de seus livros, sente quase um alívio que nossa situação seja diferente dessa que acabamos de ler. Pelo menos sabemos lidar com a violência nossa de cada dia.