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17 a 30 de outubro de 2002


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QUARENTA ANOS DE LOVE ME DO
Os Beatles comemoram o quadragésimo aniversário do seu début em disco com a formação que a notabilizou - John, Paul, George e Ringo

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

uma sexta-feira, 5 de outubro de 1962, há exatos quarenta anos, chegava às lojas de todo o Reino Unido o primeiro compacto dos Beatles — "Love Me Do/P.S I Love You", fruto de duas sessões de gravação. A primeira versão de "Love Me Do", com Ringo na bateria, foi lançada apenas na primeira prensagem do compacto, naquele mesmo ano. A segunda versão — que a maioria dos ouvintes conhece — contou com a participação de Alan White na percussão, é a que seria incluída posteriormente no primeiro disco da banda, "Please Please Me", de 1963. O single chegou ao 17o lugar nas paradas, um bom começo, se contarmos que as vendas se restringiram inicialmente aos arredores de Liverpool. Há quem diga que o empresário da banda, Brian Epistein, teria adquirido 10 mil cópias direto do varejo, o que explicaria a posição do disco nas paradas, mesmo tratando-se de uma banda ainda desconhecida.

Diz a lenda que, certa vez, Winston Churchill entrou no antigo casarão da gravadora EMI em 3 Abbey Road, Londres, NW8 — construído em 1830 e transformado em estúdio em 1931 — para gravar um disco com trechos de seus discursos para o então obscuro selo Parlophone. Ao entrar na velha casa, ele ficou impressionado com o ar de vivenda campestre e o fato de todos os funcionários trajarem uniformes brancos. "Aquilo parecia um hospital", revelou Churchill, estupefato com a alvura das dependências de Abbey Road.

Foi mais ou menos esse ambiente que os Beatles — John, Paul, George e Ringo — se depararam na sua primeira audição, ainda em julho daquele ano e depois, em 4 de setembro, a fim de gravar o que seria o seu primeiro disco — um compacto simples. A questão é que o début da banda em disco não seria "Love Me Do". Quando o grupo chegou de Liverpool até Londres, naquela manhã de terça, eles sabiam que tinham uma batalha em suas mãos. O produtor, George Martin, já ouvira a música, mas preferia que eles lançassem uma canção "de encomenda", mais precisamente um original de Mitch Murray, intitulado "How Do You Do It".

Mesmo contrariados, os Beatles gravaram e chegaram a mixar a música: "Eles não queriam de forma alguma lançar a música", relembra Martin, em depoimento a Mark Lewisohn, biógrafo dos Beatles. "Mas fizeram um bom serviço", diz. Não foi tudo em vão. "How Do You Do It" foi regravada por Gerry Mardsen e os Pacemakers — outra banda empresariada por Brian Epistein, e que chegou ao primeiro lugar nas paradas britânicas. Depois de "How Do You Do It", os cabeludos retornaram para gravar "Love Me Do".

O grande problema a ser superado era a questão do baterista. George Martin não estava contente com o desempenho de Pete Best, o primeiro percussionista da banda, quando eles realizaram a primeira sessão, no começo de junho. De lá para cá, George, Paul e John haviam trocado Best por Ringo Starr, que era quem ficava na "cozinha" dos Rory Storm and The Hurricanes. Mesmo assim, Martin preferiria utilizar um baterista de estúdio, para uma primeira gravação oficial e, desta forma, a escolha recaiu por Andy White.

Ficou marcado para o dia onze de setembro a gravação do compacto. Ringo chegou a participar dos primeiros takes, na sessão do dia quatro, mas foi depois substituído por White. Além do mais, sendo novo no grupo, o novo baterista se sentiu desajeitado em estúdio. Mesmo que gravar fosse algo simples naquela época, o som de Ringo era "cru" demais para um disco. O produtor daquela sessão, Ron Richards, se lembra da cena: "Ringo se sentou na sala de controle, e eu lhe sugeri que tocasse maracas na segunda canção, "P.S I Love You".

Ele respondeu: "ótimo, faço o que você quiser". Segundo Richards, Ringo não demostrava exigir estar no set de gravação. Então, Starr faz a percussão de "P.S I Love You, que foi concluída em dez tomadas. Logo depois, os Beatles retomaram "Love Me Do", com Andy White na bateria e Ringo — como prêmio de consolação — no pandeiro. Por sua vez, "Love Me Do" levou dezoito tomadas para que se escolhesse o take principal . Se Martin e Richards estavam corretos, a verdade é que os produtores haviam conseguido assim "amenizar" um pouco a linguagem crua da banda.

Antes, porém, outra questão pendente com relação à "Love Me Do" era saber quem era o "lead singer": John ou Paul? John fazia os vocais principais, mas havia um problema: ele tocava a gaita. "Como tocar e cantar o refrão, ao mesmo tempo?", indagou Martin interrompendo o ensaio. Falou:"temos um problema, aqui. Alguém tem que cantar, mas o refrão não pode ser feito por um só". Martin olhou para Paul McCartney, e disse: "você vai fazer o refrão!". Como eles faziam tudo "ao vivo", John faria o trecho com a gaita, e Paul ficaria com o refrão.

"Ainda sinto a minha voz tremendo na gravação, quando ouço "Love Me Do" hoje", revelou Paul, em depoimento a Mark Lewisohn, em 1988. "Quando George Martin disse que eu seria o cantor principal, eu fiquei apavorado, estava apavorado, me diziam que era John quem deveria cantar aquele trecho, ele tinha uma voz mais suave, estava mais acostumado e cantava melhor do que eu o refrão", disse. No fim, salvaram-se todos, inclusive Paul que, com certeza, é o único que tem alguma "restrição" quanto ao trabalho vocal de "Love Me Do".