| QUARENTA ANOS DE LOVE ME DO
Os Beatles comemoram o quadragésimo
aniversário do seu début em disco com a formação
que a notabilizou - John, Paul, George e Ringo
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br)
 uma
sexta-feira, 5 de outubro de 1962, há exatos quarenta anos,
chegava às lojas de todo o Reino Unido o primeiro compacto
dos Beatles — "Love Me Do/P.S I Love You", fruto
de duas sessões de gravação. A primeira versão
de "Love Me Do", com Ringo na bateria, foi lançada
apenas na primeira prensagem do compacto, naquele mesmo ano. A segunda
versão — que a maioria dos ouvintes conhece —
contou com a participação de Alan White na percussão,
é a que seria incluída posteriormente no primeiro
disco da banda, "Please Please Me", de 1963. O single
chegou ao 17o lugar nas paradas, um bom começo, se contarmos
que as vendas se restringiram inicialmente aos arredores de Liverpool.
Há quem diga que o empresário da banda, Brian Epistein,
teria adquirido 10 mil cópias direto do varejo, o que explicaria
a posição do disco nas paradas, mesmo tratando-se
de uma banda ainda desconhecida.
Diz a lenda que, certa vez, Winston Churchill entrou
no antigo casarão da gravadora EMI em 3 Abbey Road, Londres,
NW8 — construído em 1830 e transformado em estúdio
em 1931 — para gravar um disco com trechos de seus discursos
para o então obscuro selo Parlophone. Ao entrar na velha
casa, ele ficou impressionado com o ar de vivenda campestre e o
fato de todos os funcionários trajarem uniformes brancos.
"Aquilo parecia um hospital", revelou Churchill, estupefato
com a alvura das dependências de Abbey Road.
Foi mais ou menos esse ambiente que os Beatles —
John, Paul, George e Ringo — se depararam na sua primeira
audição, ainda em julho daquele ano e depois, em 4
de setembro, a fim de gravar o que seria o seu primeiro disco —
um compacto simples. A questão é que o début
da banda em disco não seria "Love Me Do". Quando
o grupo chegou de Liverpool até Londres, naquela manhã
de terça, eles sabiam que tinham uma batalha em suas mãos.
O produtor, George Martin, já ouvira a música, mas
preferia que eles lançassem uma canção "de
encomenda", mais precisamente um original de Mitch Murray,
intitulado "How Do You Do It".
Mesmo contrariados, os Beatles gravaram e chegaram
a mixar a música: "Eles não queriam de forma
alguma lançar a música", relembra Martin, em
depoimento a Mark Lewisohn, biógrafo dos Beatles. "Mas
fizeram um bom serviço", diz. Não foi tudo em
vão. "How Do You Do It" foi regravada por Gerry
Mardsen e os Pacemakers — outra banda empresariada por Brian
Epistein, e que chegou ao primeiro lugar nas paradas britânicas.
Depois de "How Do You Do It", os cabeludos retornaram
para gravar "Love Me Do".
O
grande problema a ser superado era a questão do baterista.
George Martin não estava contente com o desempenho de Pete
Best, o primeiro percussionista da banda, quando eles realizaram
a primeira sessão, no começo de junho. De lá
para cá, George, Paul e John haviam trocado Best por Ringo
Starr, que era quem ficava na "cozinha" dos Rory Storm
and The Hurricanes. Mesmo assim, Martin preferiria utilizar um baterista
de estúdio, para uma primeira gravação oficial
e, desta forma, a escolha recaiu por Andy White.
Ficou marcado para o dia onze de setembro a gravação
do compacto. Ringo chegou a participar dos primeiros takes, na sessão
do dia quatro, mas foi depois substituído por White. Além
do mais, sendo novo no grupo, o novo baterista se sentiu desajeitado
em estúdio. Mesmo que gravar fosse algo simples naquela época,
o som de Ringo era "cru" demais para um disco. O produtor
daquela sessão, Ron Richards, se lembra da cena: "Ringo
se sentou na sala de controle, e eu lhe sugeri que tocasse maracas
na segunda canção, "P.S I Love You".
Ele respondeu: "ótimo, faço o
que você quiser". Segundo Richards, Ringo não
demostrava exigir estar no set de gravação. Então,
Starr faz a percussão de "P.S I Love You, que foi concluída
em dez tomadas. Logo depois, os Beatles retomaram "Love Me
Do", com Andy White na bateria e Ringo — como prêmio
de consolação — no pandeiro. Por sua vez, "Love
Me Do" levou dezoito tomadas para que se escolhesse o take
principal . Se Martin e Richards estavam corretos, a verdade é
que os produtores haviam conseguido assim "amenizar" um
pouco a linguagem crua da banda.
Antes,
porém, outra questão pendente com relação
à "Love Me Do" era saber quem era o "lead
singer": John ou Paul? John fazia os vocais principais, mas
havia um problema: ele tocava a gaita. "Como tocar e cantar
o refrão, ao mesmo tempo?", indagou Martin interrompendo
o ensaio. Falou:"temos um problema, aqui. Alguém tem
que cantar, mas o refrão não pode ser feito por um
só". Martin olhou para Paul McCartney, e disse: "você
vai fazer o refrão!". Como eles faziam tudo "ao
vivo", John faria o trecho com a gaita, e Paul ficaria com
o refrão.
"Ainda sinto a minha voz tremendo na gravação,
quando ouço "Love Me Do" hoje", revelou Paul,
em depoimento a Mark Lewisohn, em 1988. "Quando George Martin
disse que eu seria o cantor principal, eu fiquei apavorado, estava
apavorado, me diziam que era John quem deveria cantar aquele trecho,
ele tinha uma voz mais suave, estava mais acostumado e cantava melhor
do que eu o refrão", disse. No fim, salvaram-se todos,
inclusive Paul que, com certeza, é o único que tem
alguma "restrição" quanto ao trabalho vocal
de "Love Me Do".  |