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17 a 30 de outubro de 2002


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ÂNGELA PROCURA
A edição gay do Fica Comigo derrapou mais uma vez na escolha das candidatas, mas cumpriu seu papel conscientizador

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

elo menos a intenção foi boa. A MTV Brasil, tentando sempre manter seu posto como a rede mais moderninha da televisão brasileira, decidiu exibir há duas semanas mais uma edição especial do programa Fica Comigo, desta vez apenas com meninas. Quem estava minimamente ligado no que ocorria no mundo televisivo no ano passado com certeza se lembra da primeira edição especial do programa, apelidado de “Fica Comigo Gay”. O beijão que o “querido” Conrado deu em seu escolhido no final do programa foi alardeado pela mídia como o primeiro beijo entre dois homens no horário nobre brasileiro, as revistas acompanharam as duas semanas inteiras de namoro entre os dois etc. Infelizmente, se a intenção da produção do programa era que a repercussão se repetisse, o plano não deu certo.

Talvez a única pessoa que não possa ser culpada pela falta de sucesso do programa seja a “querida” Ângela Prado. Ela foi de longe uma das melhores escolhas feitas pelo programa. Alta, bonita, bem vestida e, acima de tudo, muito feminina, a moça tirou de letra a situação delicada em que se encontrava. No discurso edificante e levemente panfletário que fez no início do programa mostrou bastante desenvoltura, simpatia e inteligência. Sem dúvida a namorada que qualquer menina (ou mesmo menino) daria tudo para ter.

A querida Ângela Prado

Infelizmente a seleção das concorrentes não conseguiu encontrar mulheres que fizessem jus a tão qualificada querida. Assim como no Fica Comigo Gay original, essa edição colocou no ar para disputarem Ângela estereótipos do mundo lésbico: quatro mulheres com cara de homenzinho ou “mano” e jeito de bicho-do-mato. Chega a ser assustador pensar que, entre as mais de 300 meninas que se inscreveram para disputar a querida, aquelas eram as quatro melhores. Se Ângela era a menina dos sonhos de todos(as?) lá, é difícil acreditar que alguém com nível universitário como ela escolheria qualquer uma das quatro para alvo de suas intenções amorosas em qualquer outra situação.

A partir daí o programa não passou de uma torcida desesperada (apesar de inútil, já que o programa já havia sido gravado) do telespectador para que a querida escolhesse a menos pior das concorrentes. Sinceramente, o páreo estava duro; os dez primeiros minutos do programa já dão uma idéia do martírio. Entre os presentes que Ângela recebeu estava uma sapa de porcelana, brincando com o termo “carinhoso” de se referir às lésbicas, abreviação de sapatão. Não muito fino. Os atores preferidos das candidatas eram todos heróis de filmes de ação. Autores preferidos, escritores de livros espíritas (a escolha de Ângela havia sido Sartre). No quesito “mulher bonita”, uma das pretendentes escreveu “Caroline Lizeta Jones”, querendo se referir a Catherine Zeta-Jones.

Há um ano, o comentário de todos que haviam assistido ao Fica Comigo Gay era “se tivesse que escolher entre aqueles quatro candidatos, eu ficava com a Fernanda Lima”. Nessa edição lésbica, a apresentadora foi mais uma vez a melhor opção. Infelizmente ela estava fora do páreo. Ao fim do programa, a dúvida era apenas uma: será que Ângela vai ter tanto amor à causa gay a ponto de beijar a menina que escolheu? Aqui se mostrou na prática a diferença entre homens e mulheres, e a querida não conseguiu encarar o canhão que lhe havia sobrado em prol da luta contra o preconceito, como havia feito Conrado. O primeiro beijo entre duas mulheres no horário nobre brasileiro ficou para a próxima.

Há no entanto um ponto positivo desta edição. Ela manteve boa parte dos anunciantes costumeiros do programa, ao contrário da primeira, que não teve um sequer. Talvez as grandes marcas não tenham mais tanto receio de ligar sua imagem aos gays a ponto de perder a audiência sem dúvida maior que esses especiais geram. E, se o alarde não foi tanto, isso talvez tenha outro significado: o efeito zoológico de homossexuais procurando sua alma gêmea na TV talvez esteja diminuindo. Mais um passo foi dado para que edições gays do Fica Comigo se tornem tão corriqueiras (e comicamente sem sal) quanto as hétero. Resta então desejar boa sorte à querida (e heroína) Ângela na sua procura por uma namorada. Depois do show que deu na MTV, com certeza pretendentes é que não irão lhe faltar.