| ÂNGELA PROCURA
A edição gay do Fica
Comigo derrapou mais uma vez na escolha das candidatas, mas
cumpriu seu papel conscientizador
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
 elo
menos a intenção foi boa. A MTV Brasil, tentando sempre
manter seu posto como a rede mais moderninha da televisão
brasileira, decidiu exibir há duas semanas mais uma edição
especial do programa Fica Comigo, desta vez apenas com meninas.
Quem estava minimamente ligado no que ocorria no mundo televisivo
no ano passado com certeza se lembra da primeira edição
especial do programa, apelidado de “Fica Comigo Gay”.
O beijão que o “querido” Conrado deu em seu escolhido
no final do programa foi alardeado pela mídia como o primeiro
beijo entre dois homens no horário nobre brasileiro, as revistas
acompanharam as duas semanas inteiras de namoro entre os dois etc.
Infelizmente, se a intenção da produção
do programa era que a repercussão se repetisse, o plano não
deu certo.
Talvez a única pessoa que não possa
ser culpada pela falta de sucesso do programa seja a “querida”
Ângela Prado. Ela foi de longe uma das melhores escolhas feitas
pelo programa. Alta, bonita, bem vestida e, acima de tudo, muito
feminina, a moça tirou de letra a situação
delicada em que se encontrava. No discurso edificante e levemente
panfletário que fez no início do programa mostrou
bastante desenvoltura, simpatia e inteligência. Sem dúvida
a namorada que qualquer menina (ou mesmo menino) daria tudo para
ter.
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| A querida Ângela Prado |
Infelizmente a seleção das concorrentes
não conseguiu encontrar mulheres que fizessem jus a tão
qualificada querida. Assim como no Fica Comigo Gay original,
essa edição colocou no ar para disputarem Ângela
estereótipos do mundo lésbico: quatro mulheres com
cara de homenzinho ou “mano” e jeito de bicho-do-mato.
Chega a ser assustador pensar que, entre as mais de 300 meninas
que se inscreveram para disputar a querida, aquelas eram as quatro
melhores. Se Ângela era a menina dos sonhos de todos(as?)
lá, é difícil acreditar que alguém com
nível universitário como ela escolheria qualquer uma
das quatro para alvo de suas intenções amorosas em
qualquer outra situação.
A partir daí o programa não passou
de uma torcida desesperada (apesar de inútil, já que
o programa já havia sido gravado) do telespectador para que
a querida escolhesse a menos pior das concorrentes. Sinceramente,
o páreo estava duro; os dez primeiros minutos do programa
já dão uma idéia do martírio. Entre
os presentes que Ângela recebeu estava uma sapa de porcelana,
brincando com o termo “carinhoso” de se referir às
lésbicas, abreviação de sapatão. Não
muito fino. Os atores preferidos das candidatas eram todos heróis
de filmes de ação. Autores preferidos, escritores
de livros espíritas (a escolha de Ângela havia sido
Sartre). No quesito “mulher bonita”, uma das pretendentes
escreveu “Caroline Lizeta Jones”, querendo se referir
a Catherine Zeta-Jones.
Há um ano, o comentário de todos que
haviam assistido ao Fica Comigo Gay era “se tivesse
que escolher entre aqueles quatro candidatos, eu ficava com a Fernanda
Lima”. Nessa edição lésbica, a apresentadora
foi mais uma vez a melhor opção. Infelizmente ela
estava fora do páreo. Ao fim do programa, a dúvida
era apenas uma: será que Ângela vai ter tanto amor
à causa gay a ponto de beijar a menina que escolheu? Aqui
se mostrou na prática a diferença entre homens e mulheres,
e a querida não conseguiu encarar o canhão que lhe
havia sobrado em prol da luta contra o preconceito, como havia feito
Conrado. O primeiro beijo entre duas mulheres no horário
nobre brasileiro ficou para a próxima.
Há
no entanto um ponto positivo desta edição. Ela manteve
boa parte dos anunciantes costumeiros do programa, ao contrário
da primeira, que não teve um sequer. Talvez as grandes marcas
não tenham mais tanto receio de ligar sua imagem aos gays
a ponto de perder a audiência sem dúvida maior que
esses especiais geram. E, se o alarde não foi tanto, isso
talvez tenha outro significado: o efeito zoológico de homossexuais
procurando sua alma gêmea na TV talvez esteja diminuindo.
Mais um passo foi dado para que edições gays do Fica
Comigo se tornem tão corriqueiras (e comicamente sem
sal) quanto as hétero. Resta então desejar boa sorte
à querida (e heroína) Ângela na sua procura
por uma namorada. Depois do show que deu na MTV, com certeza pretendentes
é que não irão lhe faltar. 
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