| ARTE POPULAR
Bebês, alienígenas, cães
latindo e pirâmides: a obra de Keith Haring só se torna
mais pop quanto mais o tempo passa
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
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| "Brazil", 1989 |
uem
viu o show que o U2 fez no Brasil durante a Pop Mart Tour talvez
se lembre do momento em que Bono cantava “One” e, no
telão, um desenho de um coração dava lugar
para dois
bonequinhos. Um deles criava um buraco na barriga, e o outro
o rodava como um bambolê. A cena se repetia várias
vezes, sem dúvida uma das melhores representações
gráficas para “we’re one, but we’re not
the same, we’ve got to carry each other...”. Keith Haring,
o autor daqueles desenhos, já não estava mais vivo
na época, mas sem dúvida apreciaria muito o uso que
lhes foi dado.
Keith Haring foi um dos grandes artistas plásticos
da década de 1980. Durante toda sua carreira, seu estilo
foi marcado por traços grossos, formas simplificadas e cores
contrastantes. Fez fama em Nova York, mas espalhou trabalhos pelo
mundo todo, antes de sua morte em 1990. Foi um dos poucos artistas
recentes que conseguiu fazer um trabalho que agradava tanto os críticos
como os leigos.
Haring nasceu em 1958, em Kutztown, Pennsylvania.
Bastante jovem, demonstrou talento para o desenho, criando bonequinhos
que, na sua concepção na época, não
eram “arte”. Depois do colegial, em 1975, foi estudar
arte em Pittsburgh, onde aprenderia a fazer algo comercialmente
produtivo, mas não ficou lá por muito tempo. “Logo
percebi que não queria ser um ilustrador ou designer gráfico.
As pessoas que faziam isso pareciam muito infelizes; diziam que
isso era apenas um emprego enquanto faziam seus trabalhos pessoais
nas horas vagas, mas na verdade acabavam perdendo sua arte. Eu larguei
a escola”. Antes de cair fora, no entanto, conseguiu fazer
lá sua primeira grande exposição, onde mostrou
aquele que seria seu estilo por muito tempo: enormes painéis
abstratos de pequenas formas interconectadas e coloridas.
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| Keith Haring desenhando no metrô |
Em 1978 conseguiu uma bolsa de estudos na Escola
de Artes Visuais de Nova York. A energia da metrópole permitiu
que Haring expandisse seus horizontes de várias maneiras.
Lá, estava cercado pelos artistas experimentais da East Village;
conheceu pessoas dos mais variados tipos étnicos e culturais;
conseguiu a liberdade para desenvolver sua indentidade gay; e conheceu
a cultura de rua, principalmente os grafites das estações
de metrô de Nova York.
Em 1980, Keith começou a desenhar em painéis
publicitários vazios do metrô, criando os trabalhos
que o tornariam famoso. “Os cartazes publicitários
que preenchem as estações de Nova York são
trocados periodicamente. Quando não há anúncios
novos o suficiente, preenchem o painel vazio com uma folha de papel
preto. No dia em que os notei, numa estação do Times
Square, subi imediatamente, comprei giz, voltei e comecei a desenhar
sobre um deles”. Haring havia encontrado uma forma original
de levar seu trabalho para o público, e logo tornou-se conhecido
sem ter que passar pelo crivo dos críticos. Esse tipo de
situação lhe permitia receber uma avaliação
imediata do público. As pessoas o viam desenhando e lhe desejavam
boa sorte, ou não entendiam o que estava acontecendo, ou,
se fossem policiais, às vezes o prendiam. Muitas vezes o
cartaz ficava apenas um dia ou dois “exposto”, antes
de ir para o lixo.
Foi
nesses trabalhos no metrô que Haring desenvolveu grande parte
do vocabulário visual que viria a se tornar sua marca registrada:
bebês engatinhando, discos voadores, cachorros latindo, pirâmides
vibrando, homenzinhos que voam, sempre desenhados de maneira crua
e rápida. Não demorou muito para que ele conseguisse
um agente que oferecesse seus trabalhos para os colecionadores de
arte, e Haring conseguisse viver exclusivamente de sua arte. Em
pouco tempo ele tinha obras sendo exibidas em várias partes
do mundo, incluindo a Bienal de São Paulo em 1983 e um mural
no Rio de Janeiro em 1984. Haring tornou-se um dos artistas mais
conceituados da época, e suas obras valiam milhares de dólares.
O sucesso teve seus efeitos adversos. Em 1986 Haring
parou de desenhar no metrô: seus desenhos eram roubados poucas
horas depois de concluídos, e ressurgiam à venda em
poucos dias. Os altos preços de seus trabalhos impossibilitavam
que o público comum tivesse acesso a eles; ao mesmo tempo,
reproduções de suas obras enfeitavam camisetas e bermudas
do mundo todo. A fim de diminuir o abismo que se abria entre ele
e o público e atender a essa demanda, Haring abriu neste
ano a Pop Shop, onde vendia pôsteres, roupas e artigos variados
com desenhos de sua autoria. Se o mundo da arte não passava
de um mercado, que pelo menos aqueles que não são
podres de ricos tenham acesso a ela também.
Keith
contribuiu para campanhas importantes para a época, como
o desarmamento das armas nucleares, criando cartazes e panfletos.
Depois de anunciar numa entrevista à Rolling Stone em 1988
que tinha AIDS, a prevenção da doença ganhou
sua atenção. Haring morreu em 1990, sem jamais ter
parado de trabalhar. Pouco antes de sua morte, montou a Keith Haring
Foundation, que colabora com projetos de auxílio a crianças
e prevenção da AIDS. Suas obras continuam circulando
o mundo da arte em mostras do mundo todo. Haring foi sem dúvida
um dos artistas mais pop (e populares) dos anos oitenta; não
era de se espantar, portanto, encontrar seu trabalho no fundo de
um espetáculo que, afinal de contas, se chamava Pop Tour.
Citações retiradas de trechos do
diário do artista e entrevistas com ele, disponíveis
no site http://www.haring.com

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