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17 a 30 de outubro de 2002


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EM PAZ E COM MUITO SAMBA
Em entrevista ao Rabisco, Marcelo Camelo, do Los Hermanos, fala sobre o novo disco da banda e sua nova paixão: o samba

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

ranqüilidade. Esta palavra resume bem o estado de espírito do compositor Marcelo Camelo – da banda Los Hermanos – no penúltimo show da turnê de O Bloco do Eu Sozinho, realizado no fim–de–semana passado em Recife. Sorridente e atencioso, ele trocou o jornalismo pela música e colhe os bons frutos de criar um disco, que embora desagradando o mercado, é considerado um dos mais belos trabalhos dos últimos anos, trazendo para a banda um público fiel em todo o país. Nesta entrevista, dada pouco antes de subir no palco, ele comenta a carreira, sua paixão pelo samba e os projetos futuros da banda.

Como está sendo esta nova fase da carreira de vocês depois do problema com a gravadora por conta do disco O Bloco do Eu Sozinho?

A gente não saiu da gravadora. A gente continua na Abril, e está ótimo. Na verdade a turnê do primeiro disco foi muito diferente do segundo. Em um primeiro momento a segunda turnê foi muito pouco numerosa, a gente pegou poucos shows e viveu um período complicado mesmo, trocamos de empresário logo no começo do trabalho deste disco e foi muito bom pra galera da banda. A gente tem tocado em lugares menores, para públicos interessadíssimos, e eu sinto que a cada cidade que a gente passa, planta uma semente. A gente esteve agora há pouco no Sul e foi impressionante tocar em lugares pequenos, com 800 pessoas, e todas as pessoas cantando todas as músicas do disco. Esse é um público que não se perde, é um público que faz do show algo histórico e volta no ano seguinte quando a gente estiver na cidade. A gente sabe que a gente vendeu só 22 mil cópias deste disco, mas é daqui pra cima. Não igual a Anna Julia, que 300 mil pessoas compraram o disco sem saber do que se tratava. Era um número irreal. Essas 22 mil pessoas que compraram O Bloco são 20 mil pessoas interessadas, que vão ao shows e cantam todas as músicas do começo ao fim e vão comprar os próximos discos.

Logo após o sucesso de “Anna Julia”, colocaram no Los Hermanos a imagem de “uma banda pop que logo acabaria”. Como foi a reação da crítica a esta mudança de estilo de vocês?

Em um primeiro lugar a gente queria dizer que a mudança de estilo na verdade não é uma coisa deliberada, não foi uma coisa intencional, é fruto de dois anos de convívio. A gente viveu dois anos juntos em uma intensidade que a gente não conhecia, tocando 23 vezes por mês. Melhoramos muito como banda, nos conhecemos melhor, tivemos que nos abrir mais um com o outro. O processo de produção foi difícil e uma série de coisas geraram a mudança de estilo. Na verdade esta foi uma coisa progressiva, e a crítica no primeiro momento foi reticente. A primeira crítica que saiu foi a do jornal O Globo, que é um jornal que sempre apoiou a gente, e o cara disse que a gente estava querendo virar adulto. Interpretou mal, eu acho. Mas num segundo momento o disco foi elogiadíssimo e foi eleito por vários meios, inclusive por este mesmo jornal, como o disco do ano.

O Bloco do Eu Sozinho é considerado um dos discos mais bonitos lançado nos últimos anos, como foi o processo de produção deste disco?

As canções já existiam e a gente foi para um sítio fazer os arranjos das músicas. Fizemos os arranjos juntos, conversando bastante. Não tem mistério.

Quais foram as principais influências de vocês neste disco?

A gente é muito diferente um do outro, então a gente ouve coisas diferentes. Eu posso responder por mim, tenho ouvido muito samba.

Como foi esta descoberta do samba?

Foi muito por causa do Acabou La Tequila, que é uma banda que tinha lá no Rio. É uma grande pena que a banda tenha acabado por que os caras eram visionários, sempre estiveram muito a frente do que era feito na cidade. Eu os vi uma vez tocando uma música da Beth Carvalho, de um disco chamado Pé No Chão, que é [cantarola] “Chora/ não vou ligar/ chegou a hora (...)/ Você pagou por traição (...)”, e eu comecei a ficar apaixonado por aquilo. Eles tocaram nesta ocasião também “Carimbó”, do Pinduca, [cantarola novamente] “vou ensinar a sinhá pureza / a dançar o carimbo...”. E eu já tinha uma coisa com música infantil e comecei a ouvir marchinha de carnaval e da marchinha foi indo.

Quais são os teus artistas preferidos?

Cara, eu ouço muita coisa. Eu gosto muito do Geraldo Pereira, que tem várias músicas lindas, gosto do Adoniran, do Ari Barroso, gosto do Noel, gosto de alguns intérpretes. Cartola eu gosto, mas não tanto quanto estes outros.

E como vocês lidam com a comparação de que o disco está parecido com Chico Buarque?

Ah! Eu rejeito por que acho a gente não merece ainda.

Mas vocês chegaram a fazer algum trabalho com ele?

Não, não. A gente gravou uma música dele agora, numa coleção de músicas infantis. Uma música dos Saltimbancos Trapalhões cuja letra é dele [“Hollywood”, para a qual eles conseguiram autorização de Chico Buarque para modificar a letra].

Vocês têm planos de lançamento de um próximo disco? Já estão trabalhando nele?

A idéia é que a gente grave em janeiro e fevereiro e lance em abril. A gente vai para o sítio terça–feira próxima [dia 15 de outubro, quatro dias após darem esta entrevista] para começar a fazer o disco.

Então vocês estão encerrando esta turnê amanhã com o Ceará Music? Qual a expectativa para o show?

É, o último show é este no Ceará. A expectativa é muito boa também. A gente recebe muito e-mail do pessoal de lá. A página virou nosso grande contato com os fãs, e a gente mede um pouco, é como um termômetro de como está na cidade pela quantidade de e-mails que a gente recebe. Eu acho isso bacana.

NEM TÃO SOZINHOS ASSIM
Los Hermanos faz show em Recife acompanhados de uma platéia apaixonada

Embora o nome do segundo disco do Los Hermanos seja O Bloco do Eu Sozinho, o fim da turnê – encerrada dia 12 de outubro no Ceará Music – serviu como prova de que os garotos não estão sós e nem mal acompanhados. Em um show peculiar, realizado no Teatro Armazém, em Recife, a banda deixou no público a sensação de que discos melhores virão.

A apresentação teve uma divulgação pequena, pois seriam disponibilizados apenas 800 ingressos. Estes chegaram aos locais de venda dois dias antes do show e esgotaram em um dia e meio. Não havendo entradas adicionais na hora do evento, muitas pessoas voltaram para casa sem conseguir ver os Hermanos. Como consolo, a Radio Cidade fez a transmissão ao vivo.

Dentro do Armazém a espera foi amenizada pela equipe do Coquetel Molotov, fazendo o pessoal dançar até a entrada da banda, que aconteceu por volta da meia noite. O grupo abriu com “A Flor” e a resposta foi imediata. A platéia cantou uníssona todas as canções e o ambiente vestiu–se de um caráter intimista. As pessoas compartilhavam uma espécie de identificação, como se a obra dos cariocas conseguisse traduzi–las. Elas se abraçavam, davam as mãos, sorriam, mandavam bilhetes, conversavam com músicos. Parecia não haver distinção entre o grupo e o público, tinha–se uma conversa franca entre amigos. Um clima irmandade.

Nos raros momentos em que se percebeu uma exaltação exagerada, foi solicitada a compreensão dos que se encontravam na parte de trás do teatro e que, ao pularem para frente, acabavam esmagando uma quantidade expressiva de meninas que dançavam à beira do palco. Tudo foi resolvido com muita calma, inclusive o falecimento da guitarra de Rodrigo Amarante, que parou de funcionar repentinamente e recebeu, em sua homenagem, uma marcha fúnebre tocada pela equipe de metais da banda, vindo a ressuscitar três músicas depois, sob aplausos e aclamações por parte dos presentes.

Aproximando–se a despedida, Camelo avisa: “olha, esta seria a última música, mas aí a gente toca mais duas e encerra, ok? A gente avisa logo para ficar tudo certinho”. De nada adiantou, os rapazes mal saíram do palco quando alguém pediu que eles tocassem mais um pouco. Eles retornaram para tocar mais três canções e o trio dos metais brindou o público com o frevo “Vassourinhas”. Houve uma verdadeira euforia no Armazém.

Mas como todo carnaval tem seu fim, uma hora e meia depois de subir ao palco, o Los Hermanos dava adeus à Veneza Brasileira rumo ao encerramento da turnê, na cidade de Fortaleza. Em seguida eles iniciam o trabalho de concepção do terceiro álbum, que será lançado em abril de 2003, no Abril Pro Rock, já confirmado pelo produtor Paulo André, organizador do evento.


Set List do Show

“A Flor”
“Todo carnaval tem seu fim”
“Fingi na hora rir”
“Adeus Você”
“Tenha Dó”
“Cadê teu suín”
“Deixa Estar”
“Love Story”
“Aline”
“Pierrot”
“Onze Dias”
“Quem Sabe”
“Sentimental”
“Esquadros”
“Vai Embora”
“Veja bem meu bem”
“A Palo Seco”
“Retrato pra Iaiá”
“Assim Será”
“Hollywood”
“Descoberta”


“Frevo – Vassourinhas”
“Azedume”
“Bárbara”