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17 a 30 de outubro de 2002


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A JACOBINA DE CAMISOLA
Um texto que não era para ser sobre um filme idem

por Julia Moióli (jumoioli@lycos.com )

uando saí do cinema, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que A Paixão de Jacobina, de Fábio Barreto, não merecia uma nota sequer. É no mínimo estranho que em uma época em que tanto se fala sobre o “ressurgimento do cinema nacional” – e, mais importante, das produções brasileiras de altíssima qualidade –,um filme como esse seja exibido em tantas salas em São Paulo.

Antes de tudo, quero deixar claro que esse texto é escrito por uma entusiasta das produções brasileiras recentes. Vi e revi Central do Brasil, considero sensacionais a história, a edição e a trilha sonora de Bicho de Sete Cabeças e acredito que Abril Despedaçado e LavourArcaica estão entre os nacionais mais bem filmados e plasticamente envolventes. Isso sem mencionar o recente Cidade de Deus. Mas A Paixão de Jacobina” simplesmente não dá. Do roteiro ao figurino, o filme é mal cuidado.

Jacobina é considerada estranha desde criança, com suas visões e seus desmaios. Vive no Sul do país com sua mãe e seus irmãos, em um cenário que muito lembra o de O Quatrilho, também de Barreto. Depois de adulta e casada e em uma cena que está mais para o kitsch de Madonna no clipe de “Like a Prayer”, recebe uma mensagem de Jesus Cristo. Então, passa a ajudar pacientes doentes de seu marido curandeiro e organiza uma espécie de templo religioso (com direito a fanáticos de sobra), que arrebanha grande parte dos fiéis da igreja local. Nem é preciso dizer que isso gera uma série de conflitos.

Mas o calvário (sem trocadilhos) do filme são os atores. A grata surpresa que todos tivemos com a atuação de Rodrigo Santoro no cinema não é o caso de A Paixão de Jacobina. A protagonista é Letícia Spiller. Ou Letícia Spiller é Jacobina. Ou todas são a Babalu (de Quatro por Quatro, para os noveleiros).Thiago Lacerda (“Matteo, amore mio”) é o galã – como se em uma história dessas fizesse algum sentido um galã. Até um ressuscitado Alexandre Paternost (de O Quatrilho) aparece como marido de Jacobina. Todos eles são exatamente o que se vê na televisão. Nem mesmo o excelente Caco Ciocler se salva. É muito difícil saber se Letícia Spiller está feliz porreceber as mensagens divinas ou se aquilo é seu drama pessoal. E não vale dizer que a ambigüidade é proposital porque claramente não é. Para piorar, sua camisola e sua peruca fariam até mesmo os produtores de Marisol ficarem corados.

Mas se o filme não merecia nem mesmo uma menção, então por que esse texto? Bem, porque apesar de tudo, A Paixão de Jacobina ilustra alguns pontos cruciais do cinema brasileiro. O primeiro e mais claro de todos é: não basta (graças a Deus) ser ator da Globo pra fazer cinema. O segundo é que nem mesmo os maiores entusiastas do cinema nacional ainda se convencem com qualquer coisa que tenha o título “made in brazil”. O último e mais importante é que está cada vez mais claro quais são as produções realmente caprichadas e quais são aquelas que apenas querem entrar na onda da boa fase cinematográfica brasileira. Filme bom é bom em qualquer lugar e ponto final.