| A JACOBINA DE CAMISOLA
Um texto que não era para ser
sobre um filme idem
por Julia
Moióli (jumoioli@lycos.com
)
 uando
saí do cinema, a primeira coisa que me veio à cabeça
foi que A Paixão de Jacobina, de Fábio Barreto,
não merecia uma nota sequer. É no mínimo estranho
que em uma época em que tanto se fala sobre o “ressurgimento
do cinema nacional” – e, mais importante, das produções
brasileiras de altíssima qualidade –,um filme como
esse seja exibido em tantas salas em São Paulo.
Antes de tudo, quero deixar claro que esse texto
é escrito por uma entusiasta das produções
brasileiras recentes. Vi e revi Central do Brasil, considero
sensacionais a história, a edição e a trilha
sonora de Bicho de Sete Cabeças e acredito que Abril
Despedaçado e LavourArcaica estão entre
os nacionais mais bem filmados e plasticamente envolventes. Isso
sem mencionar o recente Cidade de Deus. Mas A Paixão
de Jacobina” simplesmente não dá. Do roteiro
ao figurino, o filme é mal cuidado.
Jacobina
é considerada estranha desde criança, com suas visões
e seus desmaios. Vive no Sul do país com sua mãe e
seus irmãos, em um cenário que muito lembra o de O
Quatrilho, também de Barreto. Depois de adulta e casada
e em uma cena que está mais para o kitsch de Madonna no clipe
de “Like a Prayer”, recebe uma mensagem de Jesus Cristo.
Então, passa a ajudar pacientes doentes de seu marido curandeiro
e organiza uma espécie de templo religioso (com direito a
fanáticos de sobra), que arrebanha grande parte dos fiéis
da igreja local. Nem é preciso dizer que isso gera uma série
de conflitos.
Mas o calvário (sem trocadilhos) do filme
são os atores. A grata surpresa que todos tivemos com a atuação
de Rodrigo Santoro no cinema não é o caso de A
Paixão de Jacobina. A protagonista é Letícia
Spiller. Ou Letícia Spiller é Jacobina. Ou todas são
a Babalu (de Quatro por Quatro, para os noveleiros).Thiago
Lacerda (“Matteo, amore mio”) é o galã
– como se em uma história dessas fizesse algum sentido
um galã. Até um ressuscitado Alexandre Paternost (de
O Quatrilho) aparece como marido de Jacobina. Todos eles
são exatamente o que se vê na televisão. Nem
mesmo o excelente Caco Ciocler se salva. É muito difícil
saber se Letícia Spiller está feliz porreceber as
mensagens divinas ou se aquilo é seu drama pessoal. E não
vale dizer que a ambigüidade é proposital porque claramente
não é. Para piorar, sua camisola e sua peruca fariam
até mesmo os produtores de Marisol ficarem corados.
Mas
se o filme não merecia nem mesmo uma menção,
então por que esse texto? Bem, porque apesar de tudo, A
Paixão de Jacobina ilustra alguns pontos cruciais do
cinema brasileiro. O primeiro e mais claro de todos é: não
basta (graças a Deus) ser ator da Globo pra fazer cinema.
O segundo é que nem mesmo os maiores entusiastas do cinema
nacional ainda se convencem com qualquer coisa que tenha o título
“made in brazil”. O último e mais importante
é que está cada vez mais claro quais são as
produções realmente caprichadas e quais são
aquelas que apenas querem entrar na onda da boa fase cinematográfica
brasileira. Filme bom é bom em qualquer lugar e ponto final.

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