| O CINEMA ENVELHECE
O que resta de um marco como Kramer
vs. Kramer, antiquado e relançado 23 anos depois?
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 ão
se confunda. O cinema é atemporal; os filmes não.
Os filmes envelhecem. A onda de relançamentos gerada pelo
DVD tem estimulado essa curiosidade e comprovado essa percepção.
Graças a Deus, certas obras ficam datadas – têm
a chance de indicar maturidade em outros aspectos, e de se mostrar
diferente para um espectador que, afinal das contas, também
não é mais o mesmo.
O problema é que alguns filmes marcam tanto
a época em que foram feitos que parecem mais deslocados no
tempo quando revistos posteriormente. O que resta de um drama como
Kramer vs. Kramer, vinte e três anos depois? O filme
abordou o divórcio e a luta pela custódia de uma criança
com tanta dignidade que chegou a virar precedente legal em julgamentos
reais nos EUA – e, culturalmente, isso supera de longe os
cinco Oscars, incluindo de melhor filme, que ele arrebatou.
Ao contrário do que se pode imaginar, o impacto
na época não foi exclusivamente por tocar em um assunto
que era considerado tabu, porque esta é a maneira mais fácil
de se conseguir notoriedade independentemente da qualidade do filme.
O verdadeiro desafio consiste em chegar um pouco depois; em discutir
um tema que tinha acabado de deixar de ser tabu; quando o terreno
ainda é instável e ainda não há como
medir as infinitas conseqüências culturais dessa mudança.
No final dos anos 70, quando a geração que crescera
com a revolução do amor livre já usava terno
e gravata tal qual o personagem de Dustin Hoffman, filhos de pais
separados já não eram incomuns. Mas incomum foi a
abordagem de Robert Benton, roteirista e diretor deste que foi o
mais pessoal de todos os projetos em sua carreira.
Hoje,
inegavelmente, o cerne da questão soa um tanto fake
em Kramer vs. Kramer. Se os costumes viraram de pernas para
o ar da década de 60 à de 70, imagine de então
até hoje. Meryl Streep separa-se de Dustin Hoffman porque
ele não lhe deixa trabalhar. Não a deixa encontrar
a si mesma. Um motivo válido, mas que torna o casal, aos
olhos de hoje, inviável. Não há mais como se
fazer drama em cima de uma questão que até o feminismo
já enterrou. Tudo soa estranhamente falso; o personagem de
Dustin Hoffman é o eixo do enredo e, assim, recai especialmente
sobre ele a incongruência. Ele é o homem que só
pensa na carreira e negligencia esposa e filho. Qual família
ainda funciona nessa divisão de trabalho?
Volto a perguntar: o que resta, então, de
Kramer vs. Kramer? Tirada a carapaça, sobra muita
coisa. É como um cadáver exumado: sobram os ossos;
o esqueleto; a estrutura. Kramer vs. Kramer é tecnicamente
um cinemão de primeira qualidade. É, de longe, o melhor
trabalho de Hoffman, e é difícil dizer isso de um
ator que um ano depois faria o delicioso Tootsie e, há
pouco tempo, merecia outro Oscar por Mera Coincidência.
O excelente documentário que acompanha o DVD ajuda a explicar
porque sua atuação é tão soberba –
em grande parte, porque ele influiu diretamente no roteiro. Cenas
emblemáticas, como a disputa com o filho pelo sorvete e o
copo espatifado na parede quando Meryl Streep lhe diz que quer a
guarda do filho de volta, foram improvisadas por ele. Quando não
conseguia a aquiescência do diretor, bastava-lhe a do cameraman.
Em parte, também, porque ele também passava, na vida
real, por um doloroso divórcio, e trouxe isso ao personagem
Além disso, Hoffman foi literalmente um pai
para o ator mirim Justin Henry, de apenas seis anos, que interpreta
com surpreendente profundidade o filho do casal. No extra, Hoffman
revela como manipulava as emoções do moleque para
fazê-lo chorar. Por fim, Meryl Streep fecha a trinca de ouro.
Apenas 15 minutos de participação na película
foram o suficiente para ela ganhar o Oscar. Mas Meryl é uma
atriz muito mais constante que Hoffman, então não
é nada de excepcional vê-la atuar bem.
O
diretor Robert Benton acertou o filme no elenco: Kramer vs. Kramer
é uma história pequena, um drama particular que honra
o título. A maioria das cenas são com, no máximo,
duas pessoas, e se elas não interagissem bem o filme inteiro
soaria artificial. Benton também foi capaz de momentos sublimes
que mereciam ser estudados em todas as escolas de cinema do mundo.
A longa tomada em que pai e filho acordam e tomam café da
manhã sem trocar uma palavra sintetiza tanto a evolução
do relacionamento dos dois quanto a representação
do que, de fato, é uma família – algo indizível.
O mesmo vale para a longa panorâmica horizontal, de perfil,
em que Hoffman carrega o filho acidentado, nos braços, até
o hospital.
O documentário sobre Kramer vs Kramer
incluído entre os extras foi feito apenas no ano passado,
e ver os atores envelhecidos (especialmente o garoto Justin Henry,
que hoje, obviamente, já é um homem feito) ajuda a
criar a impressão de que o filme está fora de época.
E está mesmo. Muita coisa se perdeu, se deteriorou. Mas,
em essência, ainda está ali, como um ótimo filme.
Não impressiona mais pela franqueza com que trata do divórcio,
mas pela franqueza com que trata de sentimentos humanos. A boa arte,
provavelmente, acaba por transcender a temática. 
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