| NEM POR UM BISCOITO SCOOBY
Scooby-Doo e sua gangue mereciam mais
do que a adaptação sem graça e pouco criativa
que chegou aos cinemas
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 ada
a atual epidemia de bem-sucedidas adaptações de outras
mídias para o cinema, parece uma progressão lógica
natural que a esganiçada pergunta do Salsicha, “Scooby-Doo,
onde está você?”, seria eventualmente respondida
por “nas telas do cinema”. Afinal, o cachorro medroso
goza de um privilégio mercadológico que, digamos,
Josie e as Gatinhas, recentemente lançado em versão
carne-e-osso, nunca experimentou. Mesmo depois de trinta anos desde
seu cancelamento, a série animada Scooby-Doo ainda
detém enorme popularidade tanto entre o lucrativo público
adolescente quanto entre as gerações mais velhas,
que encaram o desenho com certo torpor nostálgico.
Mais do que isso, Scooby Doo partia de uma
premissa (quatro jovens e um cachorro cruzando o país numa
van em busca de mistérios para resolver) feita sob medida
para o cinema-pipoca. Diferentemente, por exemplo, de Os Flintstones,
outro Hanna-Barbera que ganhou versão cinematográfica.
Os Flintstones tratava de assuntos cotidianos – era quase
uma sitcom cartunesca. Daí a imensa dificuldade que
os roteiristas do filme de 1992 encontraram para criar uma boa história
que se encaixasse na duração de um longametragem.
E, apesar de todos esses pontos a favor, o filme
Scooby-Doo (EUA, 2002) que chegou às telas no último
dia 4 é uma lástima. Não chega nem a ser ruim
a ponto de nos despertar ódio (como certos bons filmes ruins
conseguem) porque tem uma ou outra boa piada. De resto, é
um desperdício dos personagens.
Por
incrível que pareça, Scooby-Doo, que foi muito
mais rentável financeiramente que The Flintstones –
O Filme e Josie e as Gatinhas, tem muito a aprender com
ambos. O primeiro, por exemplo, compensava a fraqueza do enredo
com um bom elenco. Os produtores seguiram um raciocínio óbvio:
se é uma comédia, contratemos comediantes. Acertaram
com John Goodman, Rosie O’Donnell e Rick Moranis. Em Scooby-Doo,
partiram da idéia errada: o diretor Raja Gosnell apenas queria
um casal da vida real para os papéis de Daphne e Fred. Arrematou
o melhor que podia: os jovens astros Freddie Prinze Jr. e Sarah
Michelle Gellar, recém-casados. Ganhou pontos entre o público
adolescente, mas perdeu em vivacidade na tela. A dupla consegue
parecer ainda menos autêntica que o próprio Scooby,
todo criado em computação digital.
O pistolão deu certo, porém, com Matthew
Lillard, que interpreta Salsicha. Lillard ganhou o papel a pedido
do galã e melhor amigo Prinze Jr. (este é o quarto
filme em que os dois trabalham juntos). Só que Lillard soube
simular perfeitamente o medroso e levemente abilolado Salsicha –
na expressão facial, na linguagem corporal, na voz. É,
com certeza, o ponto alto do filme, especialmente se considerarmos
que na maioria das cenas ele contracena com Scooby (ou seja, virtualmente
com o nada, já que o cachorro só é inserido
na mesa de montagem). Para tentar aumentar ainda o time de bons
comediantes, Rowan Atkinson (o Mr. Bean) foi escalado como o cliente
dos jovens detetives. Ele contrata a gangue para investigar estranhos
acontecimentos numa parque de diversões numa ilha remota.
Mas ele ficou com uma parte do roteiro que não lhe dava muita
liberdade, então está bastante apagado.
E
de Josie e as Gatinhas, o que Scooby-Doo pode aprender?
A regra básica da verdadeira diversão: não
se leve tão a sério. Sem a mesma pressão que
Scooby-Doo enfrentou, o filme das três felinas roqueiras
pode lidar com as personagens mais levemente, indo além do
que pré-definia o desenho animado. A história é
igualmente esquecível, mas faz o tempo passar.
Josie e as Gatinhas sabia também dialogar
com um público um pouco mais adulto. Em Scooby-Doo,
muito se discutiu sobre possíveis referências ao lesbianismo
de Velma ou ao uso da maconha por Salsicha e seu animal de estimação.
O filme recusa-se a endossar estas teorias de banheiro de colegial,
embora haja duas cenas de duplo sentido envolvendo a famosa marijuana.
Tudo é feito muito certinho, muito apropriado, muito família.
A tradição inibe a criatividade. Como diria Velma,
há algo de “seriamente suspeito” quando se percebe
que o máximo de atualização que o personagem
ganhou em trinta anos foi a parceria de Buffy, a Caça-Vampiros.
Scooby merecia mais. 
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