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17 a 30 de outubro de 2002


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NEM POR UM BISCOITO SCOOBY
Scooby-Doo e sua gangue mereciam mais do que a adaptação sem graça e pouco criativa que chegou aos cinemas

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ada a atual epidemia de bem-sucedidas adaptações de outras mídias para o cinema, parece uma progressão lógica natural que a esganiçada pergunta do Salsicha, “Scooby-Doo, onde está você?”, seria eventualmente respondida por “nas telas do cinema”. Afinal, o cachorro medroso goza de um privilégio mercadológico que, digamos, Josie e as Gatinhas, recentemente lançado em versão carne-e-osso, nunca experimentou. Mesmo depois de trinta anos desde seu cancelamento, a série animada Scooby-Doo ainda detém enorme popularidade tanto entre o lucrativo público adolescente quanto entre as gerações mais velhas, que encaram o desenho com certo torpor nostálgico.

Mais do que isso, Scooby Doo partia de uma premissa (quatro jovens e um cachorro cruzando o país numa van em busca de mistérios para resolver) feita sob medida para o cinema-pipoca. Diferentemente, por exemplo, de Os Flintstones, outro Hanna-Barbera que ganhou versão cinematográfica. Os Flintstones tratava de assuntos cotidianos – era quase uma sitcom cartunesca. Daí a imensa dificuldade que os roteiristas do filme de 1992 encontraram para criar uma boa história que se encaixasse na duração de um longametragem.

E, apesar de todos esses pontos a favor, o filme Scooby-Doo (EUA, 2002) que chegou às telas no último dia 4 é uma lástima. Não chega nem a ser ruim a ponto de nos despertar ódio (como certos bons filmes ruins conseguem) porque tem uma ou outra boa piada. De resto, é um desperdício dos personagens.

Por incrível que pareça, Scooby-Doo, que foi muito mais rentável financeiramente que The Flintstones – O Filme e Josie e as Gatinhas, tem muito a aprender com ambos. O primeiro, por exemplo, compensava a fraqueza do enredo com um bom elenco. Os produtores seguiram um raciocínio óbvio: se é uma comédia, contratemos comediantes. Acertaram com John Goodman, Rosie O’Donnell e Rick Moranis. Em Scooby-Doo, partiram da idéia errada: o diretor Raja Gosnell apenas queria um casal da vida real para os papéis de Daphne e Fred. Arrematou o melhor que podia: os jovens astros Freddie Prinze Jr. e Sarah Michelle Gellar, recém-casados. Ganhou pontos entre o público adolescente, mas perdeu em vivacidade na tela. A dupla consegue parecer ainda menos autêntica que o próprio Scooby, todo criado em computação digital.

O pistolão deu certo, porém, com Matthew Lillard, que interpreta Salsicha. Lillard ganhou o papel a pedido do galã e melhor amigo Prinze Jr. (este é o quarto filme em que os dois trabalham juntos). Só que Lillard soube simular perfeitamente o medroso e levemente abilolado Salsicha – na expressão facial, na linguagem corporal, na voz. É, com certeza, o ponto alto do filme, especialmente se considerarmos que na maioria das cenas ele contracena com Scooby (ou seja, virtualmente com o nada, já que o cachorro só é inserido na mesa de montagem). Para tentar aumentar ainda o time de bons comediantes, Rowan Atkinson (o Mr. Bean) foi escalado como o cliente dos jovens detetives. Ele contrata a gangue para investigar estranhos acontecimentos numa parque de diversões numa ilha remota. Mas ele ficou com uma parte do roteiro que não lhe dava muita liberdade, então está bastante apagado.

E de Josie e as Gatinhas, o que Scooby-Doo pode aprender? A regra básica da verdadeira diversão: não se leve tão a sério. Sem a mesma pressão que Scooby-Doo enfrentou, o filme das três felinas roqueiras pode lidar com as personagens mais levemente, indo além do que pré-definia o desenho animado. A história é igualmente esquecível, mas faz o tempo passar.

Josie e as Gatinhas sabia também dialogar com um público um pouco mais adulto. Em Scooby-Doo, muito se discutiu sobre possíveis referências ao lesbianismo de Velma ou ao uso da maconha por Salsicha e seu animal de estimação. O filme recusa-se a endossar estas teorias de banheiro de colegial, embora haja duas cenas de duplo sentido envolvendo a famosa marijuana. Tudo é feito muito certinho, muito apropriado, muito família. A tradição inibe a criatividade. Como diria Velma, há algo de “seriamente suspeito” quando se percebe que o máximo de atualização que o personagem ganhou em trinta anos foi a parceria de Buffy, a Caça-Vampiros. Scooby merecia mais.