| COM O CORAÇÃO NA
MÃO
Clint Eastwood mostra vitalidade ao
explorar a própria fragilidade no novo suspense Dívida
de Sangue
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 lint
Eastwood é o mais mundano dos grandes diretores de Hollywood.
Nunca aspira a grandes elucubrações artísticas,
filma histórias com as quais não possui nenhuma ligação
pessoal e é adepto de um dos gêneros mais surrados
e desprovidos de qualquer glamour atualmente: o policial. E, mesmo
quando não é excepcional, como em Os Imperdoáveis,
o trabalho de Eastwood é sempre no mínimo inteligente.
Dívida de Sangue não foge
à regra e foi uma boa pedida na 26ª Mostra Internacional
de Cinema em São Paulo para quem tem aversão a abstracionismos
iranianos. Eastwood escolheu como base do roteiro um livro de Michael
Connelly, um daqueles autores americanos que fabircam literatura
como carros numa esteira de produção: o resultado
é quadradinho, meio careta, mas eficiente.
Eastwood interpreta Terry McCaleb, ex-agente do FBI
que há dois anos sofreu um ataque do coração
perseguindo um serial killer conhecido como “Assassino
do Código”. McCaleb recebeu um coração
em um transplante e, a pedido de sua médica, aposentou-se.
O cardíaco, porém, volta à ativa quando uma
garçonete latina lhe suplica que investigue o assassinato
da irmã. Aqui vem todo o gancho do enredo: ele só
aceita porque a vítima foi a doadora de seu atual coração.
Seguem-se
os clichês do gênero, incluindo policiais incompetentes
que só servem para comer rosquinhas; uma ex-amante que lhe
passa documentos confidenciais da polícia; e o esperado envolvimento
de McCaleb com sua “cliente”. A única diferença
são as cenas de ação, cedidas na base do conta-gotas
e por isso mesmo muito mais interessantes . Afinal, McCaleb não
é mais um garotão.
Já não é a primeira vez, aliás,
que Eastwood encontra na própria velhice um aspecto a explorar
em seus personagens. A mesma tática lhe rendeu dividendos
engraçados (quem diria, o durão fazendo humor) em
Cowboys do Espaço. Esse consciência da própria
idade, em um ambiente como Hollywood, onde o normal é passar-se
por idiota tentando agir sempre como alguém dez anos mais
novo, só fornece mais motivos para admirar a maturidade de
Eastwood.
Quem também faz questão de honrar as
rugas no rosto é Anjelica Huston, aqui num papel coadjuvante
como médica de McCaleb. A idade não afetou em nada
o magnetismo da atriz – sua presença permanece tão
avassaladora que rouba todas as cenas em que atua ao lado de Eastwood.
A relação dos dois renderia vários parágrafos
de análise deliciosa, pois ela funciona, simultaneamente
e no limite da ambigüidade, como a grande aliada na recuperação
de McCaleb e como o mais explícito lembrete de que ele nunca
mais será plenamente saudável. Huston tem cacife o
suficiente para acrescentar profundidade à personagem.
Só
não dá para dizer que Dívida de Sangue
desce redondo porque para mentes um pouco mais aguçadas (e
acostumadas com o esquematismo da literatura policial americana)
o mistério do filme é bastante fácil de resolver.
Para quem entende inglês, há também um vacilo
inaceitável na legendagem, que chama à atenção
uma pista que merecia passar desapercebida. O responsável
por esse erro, sim, merecia pagar a dívida com muito sangue.
Invariavelmente, mesmo sabendo que chegamos ao desfecho antes de
Eastwood, resta-nos acompanhá-lo na investigação
com enorme prazer e certa paciência. O vovô tá
vindo de bengala, mas ainda cheio de panca. 
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