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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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COM O CORAÇÃO NA MÃO
Clint Eastwood mostra vitalidade ao explorar a própria fragilidade no novo suspense Dívida de Sangue

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

lint Eastwood é o mais mundano dos grandes diretores de Hollywood. Nunca aspira a grandes elucubrações artísticas, filma histórias com as quais não possui nenhuma ligação pessoal e é adepto de um dos gêneros mais surrados e desprovidos de qualquer glamour atualmente: o policial. E, mesmo quando não é excepcional, como em Os Imperdoáveis, o trabalho de Eastwood é sempre no mínimo inteligente.

Dívida de Sangue não foge à regra e foi uma boa pedida na 26ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo para quem tem aversão a abstracionismos iranianos. Eastwood escolheu como base do roteiro um livro de Michael Connelly, um daqueles autores americanos que fabircam literatura como carros numa esteira de produção: o resultado é quadradinho, meio careta, mas eficiente.

Eastwood interpreta Terry McCaleb, ex-agente do FBI que há dois anos sofreu um ataque do coração perseguindo um serial killer conhecido como “Assassino do Código”. McCaleb recebeu um coração em um transplante e, a pedido de sua médica, aposentou-se. O cardíaco, porém, volta à ativa quando uma garçonete latina lhe suplica que investigue o assassinato da irmã. Aqui vem todo o gancho do enredo: ele só aceita porque a vítima foi a doadora de seu atual coração.

Seguem-se os clichês do gênero, incluindo policiais incompetentes que só servem para comer rosquinhas; uma ex-amante que lhe passa documentos confidenciais da polícia; e o esperado envolvimento de McCaleb com sua “cliente”. A única diferença são as cenas de ação, cedidas na base do conta-gotas e por isso mesmo muito mais interessantes . Afinal, McCaleb não é mais um garotão.

Já não é a primeira vez, aliás, que Eastwood encontra na própria velhice um aspecto a explorar em seus personagens. A mesma tática lhe rendeu dividendos engraçados (quem diria, o durão fazendo humor) em Cowboys do Espaço. Esse consciência da própria idade, em um ambiente como Hollywood, onde o normal é passar-se por idiota tentando agir sempre como alguém dez anos mais novo, só fornece mais motivos para admirar a maturidade de Eastwood.

Quem também faz questão de honrar as rugas no rosto é Anjelica Huston, aqui num papel coadjuvante como médica de McCaleb. A idade não afetou em nada o magnetismo da atriz – sua presença permanece tão avassaladora que rouba todas as cenas em que atua ao lado de Eastwood. A relação dos dois renderia vários parágrafos de análise deliciosa, pois ela funciona, simultaneamente e no limite da ambigüidade, como a grande aliada na recuperação de McCaleb e como o mais explícito lembrete de que ele nunca mais será plenamente saudável. Huston tem cacife o suficiente para acrescentar profundidade à personagem.

Só não dá para dizer que Dívida de Sangue desce redondo porque para mentes um pouco mais aguçadas (e acostumadas com o esquematismo da literatura policial americana) o mistério do filme é bastante fácil de resolver. Para quem entende inglês, há também um vacilo inaceitável na legendagem, que chama à atenção uma pista que merecia passar desapercebida. O responsável por esse erro, sim, merecia pagar a dívida com muito sangue. Invariavelmente, mesmo sabendo que chegamos ao desfecho antes de Eastwood, resta-nos acompanhá-lo na investigação com enorme prazer e certa paciência. O vovô tá vindo de bengala, mas ainda cheio de panca.