| MINÚCIAS DRUMMONIANAS
Há um século nascia
Carlos Drummond de Andrade: homem, poeta e enigma
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)
 á
exatamente 100 anos, em 31 de outubro de 1902, um anjo torto aparecia
na cidade interiorana de Itabira do Mato Dentro (MG) para saudar
Carlos Drummond de Andrade com um “Vai, Carlos, ser gauche
na vida”. Ele, que nasceu Carlos Drummond Andrade - o “de”
foi acrescentado anos depois para proporcionar uma sonoridade mais
agradável a seu nome - viu sua infância ser configurada
nas bases de uma relação tímida e distante
com o pai, que muito o influenciaria, e na rotina da pacata cidade,
onde caçava passarinhos e tomava banho de bica na praia do
Rosário. Lembranças inesquecíveis de uma Itabira
que não voltaria a rever na velhice.
Aos 13 anos, já tomado de amor pelas palavras,
foi convidado a dar palestras literárias no Grêmio
Dramático e Literário Artur Azevedo, do qual fazia
parte. Os traços de genialidade começavam a aparecer
e o causariam transtornos quatro anos depois, quando sofreu uma
penosa humilhação no Colégio Anchieta, em Nova
Friburgo (RJ), ao ter um desentendimento com o professor de Língua
Portuguesa e ser expulso por “insubordinação
mental”. A saída provocou profundas mudanças
em sua vida acadêmica e religiosa, comentadas pelo próprio
em sua autobiografia - publicada em Confissões de Minas
(Ensaios e crônicas) [1944, Rio de Janeiro, Americ-Edit]:
“Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança
na justiça dos que me julgavam”.
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Em Revista de Antropofagia, 1928
Incluído em Alguma Poesia (1930) |
Os julgamentos, no entanto, nunca o abandonaram.
Começaram fortes e incisivos no final da década de
20, quando a Revista de Antropofagia de São Paulo
estampou em suas páginas o poema “No meio do caminho”;
e continuam, ainda hoje, quinze anos após a sua morte, incentivando
uma discussão sobre a real magnitude de sua obra.
Em momentos de dificuldades como este, de 1928, o
poeta via-se prontamente socorrido pelos poucos e fiéis amigos.
Dentre eles, seu companheiro de infância, Gustavo Capanema,
que dois anos depois convoca-o para chefiar seu gabinete no Ministério
da Educação. É neste panorama que ele comete
um “delito” curioso em nome da amizade: para poupar
o tempo do ocupadíssimo amigo-ministro, Carlos Drummond de
Andrade imitou, algumas vezes, a assinatura de Gustavo Capanema
para despachar a papelada burocrática que o cercava diariamente.
Fazia isso com tamanha perfeição, que causou admiração
nos que souberam do caso.
Porém, a lista de traquinagens não
estagna neste ponto. Sentindo dificuldades para encontrar autores
que realizassem os textos de apresentação, que seriam
colocados nas abas dos livros-chamadas de orelha - ao gosto do poeta,
um dos editores da Editora José Olimpio propôs que
ele mesmo os fizesse. Ele aproveitou a oportunidade para fazer uma
auto-avaliação, e comentar detalhes de suas poesias,
protegido pela isenção de assinatura nas orelhas.
Outras curiosidades que permeiam o mundo Drummoniano são
encontradas em suas críticas cinematográficas: ele
assinava como Gato Félix ou Mickey Mouse. Era mestre em criar
pseudônimos. Durante toda sua vida contabilizou mais de 60,
alguns interessantes como: El Caballero Sentimental, Policarpo Quaresma
Neto e Observador Literário. No entanto, o mais famoso deles
é Antônio Crispim, utilizado no início da carreira
jornalística que manteve, paralelamente, à ocupação
de funcionário público, da qual se aposentou em 1963.
Deste ano em diante dedicou-se apenas à poesia, à
literatura e ao jornalismo. Porém, manteve os mesmos hábitos,
como o de picar papel em pedacinhos, para então embrulhá-los
em lançá-los ao
lixo. Diz-se que esta mania de Drummond era extensiva a tecidos
também e que certa vez comprou uma camisa para o neto e ao
prová-la em casa, pensou ter adquirido o número errado.
Transformou a peça em pedaços de pano, garantindo
ao neto, perplexo, que no outro dia lhe traria outra igualzinha.
Cultivou estas e outras manias durante toda a vida.
Era conhecido como uma pessoa retraída em público,
mas amável e falante entre amigos íntimos. Estes descreviam-no
como um “homem telefônico”, por manter longas
e animadas conversas e promover trotes inigualáveis em suas
comunicações ao telefone. Reações que
seu comedimento público jamais deixaria transparecer. Carlos
Drummond de Andrade foi, em vida, um enigma. 
|