| O SOM DA SOLIDÃO
Chega a vez do apaixonante Fale
com Ela, um tratado de Almodóvar sobre o silêncio
e a miséria das relações humanas
por Leopoldo
Godoy (leogodoy@hotmail.com)
 hega
aos cinemas, no próximo dia 1º de novembro, um filme
imperdível. Fale com Ela é outro grande passo
na carreira de Pedro Almodóvar, canonizado como unanimidade
de público e crítica em 2000 com Tudo Sobre Minha
Mãe. Superficialmente, Fale com Ela poderia ser
mais um estudo sobre homens e mulheres, mas consegue ir muito além
da tensão irritante e um pouco falsa de Mulheres à
Beira de um Ataque de Nervos. Almodóvar realmente evoluiu:
seu novo filme é um tratado sobre a condição
solitária e infeliz da humanidade, mostrando seres que travam
batalhas constantes contra o silêncio e a insanidade cotidiana.
O primeiro encontro de Benigno (Javier Camara) e
Marco (Dario Grandinetti) é marcado pelas lágrimas
de Marco, que quebram e dissolvem a tristeza de um espetáculo
de Pina Bausch. O acaso os uniu pela primeira vez, e voltará
a colocar estes dois homens no mesmo ambiente. Benigno é
o enfermeiro de sua amada, a jovem bailarina Alicia (Leonor Watling),
que está em coma há anos. Marco vê sua companheira
Lydia (Rosario Flores) ser destroçada por um touro durante
uma corrida. A jovem matadora, em coma, vai para
o mesmo hospital de Alicia. As lágrimas, mais uma vez, colocam
os dois jovens na mesma barca. A partir daí, Almodóvar
vai cuidando de apresentar a história de cada um destes personagens,
as aflições e as cicatrizes do passado, até
o desenrolar de seus relacionamentos com as silenciosas mulheres.
O
grande mérito de Fale com Ela é o talento do
diretor espanhol em contar histórias. O filme flui, o que
não é fácil por se tratar de uma situação
recheada de simbologia e reflexão. A montagem é mais
do que soberba, com seus flashbacks e seus constantes cortes
temporais. É claro, não atrapalhou nem um pouco o
fato de que estamos falando de um elenco preparadíssimo.
São papéis (ou alegorias?) mais do que complicados,
mas nada para tirar do sério o grupo de atores escolhidos
para a produção. Javier Camara dá show: Benigno
sai ambíguo, um lado doce e inofensivo que apenas confirma
nossas convicções ao final do filme. (Daí o
“Benigno”). Dario Grandinetti não deixa por menos.
Seu Marco traz em seus olhares o mistério e a angústia
da Argentina. O errante portenho nos comove com suas lágrimas
e por sua história marcada por decepções amorosas.
Não que seja para equilibrar a rivalidade sul-americana,
mas Caetano Veloso também faz uma ponta no filme.
Mas é de Rosario Flores a cena mais bela do
filme. Toureando com sensualidade, Lydia recria na arena a tensão
sexual que nos caracteriza como Humanidade. É um elogio mais
do que aberto à tauromaquia, uma belíssima e empolgante
arte, embora pouco compreendida fora da Espanha [leia
mais aqui]. Acaba sendo também uma extensão
da vida pessoal de Lydia, que não consegue falar para Marcos
que está se reconciliando com seu antigo amante. Marcos,
por sua vez, tenta superar as dores de um casamento que não
deu certo. O touro – símbolo dúbio do divino
e do profano – não perdoa esta consciência em
apuros. A corrida deixa de ser o ponto de escape para a perdição
de Lydia e se transforma em sua destruição. É
a força do silêncio, mais uma vez.
Fale
com Ela mostra a nossa ilusão frente ao mundo. Benigno
conversa com Alicia, e se diz tendo um relacionamento mais do que
perfeito. “Nos entendemos melhor que muitos casais”,
diz o enfermeiro ao amigo Marcos. Benigno fala e, aparentemente,
Alicia não pode responder. Eles vivem em universos paralelos,
com percepções totalmente diferentes da realidade.
Já era assim, diga-se de passagem, desde os tempos em que
Alicia ainda estava acordada. Mas Benigno continua ali, pois foi
criado para isso. Cuidou de sua mãe, isolado em um quarto
durante toda a sua vida. Da janela – de sua casa e de seu
mundo – conheceu Alicia. E com esta mulher ele está
disposto a construir o maior relacionamento de sua vida.
Perceba a solidão deste rapaz. Acorde para
o fato de que essa também é a história de nossas
vidas, caro leitor. Seu interlocutor poderia muito bem estar em
coma, pois estamos fadados a vivermos isolados em nosso mundo, impossibilitados
de compartilhar nossa existência. Somos incompatíveis,
incompreensíveis, seres fechados em nossas conchas, em nossos
comas. Não adianta gritar, pois ninguém está
ouvindo o que você quer dizer. Ou melhor, ninguém está
ouvindo exatamente o que você está tentando expressar,
pois cada indivíduo viverá para sempre aprisionado
em sua incongruência com o mundo que o cerca. O sexo, felizmente,
será um ponto de tangência, onde poderemos nos sentir
preenchidos de humanidade e divindade. É uma exposição
redentora de nossos defeitos. Mas é claro que nesta vida
moderna temos que abdicar de boa parte dos momentos de plenitude.
Só que isso já é assunto para outra ocasião.
O
sexo acabará, no final das contas, definindo toda a existência
de Alicia, Benigno e Marco. É um conto de amor e morte, para
citar um livro de Arthur Schnitzler. E, como já definia o
contemporâneo de Freud, amor e morte andam juntos, de mãos
dadas e, por vezes, não dá pra saber onde começa
um e acaba o outro. E aí vem um final arrebatador, triste
e esperançoso ao mesmo tempo. Nada de tricky ending...
Isso pode muito bem ficar com Hollywood, que precisa desse tipo
de truque para entupir de imbecis as salas de cinema e quebrar recordes
de bilheteria. Os europeus se dão ao luxo de contar a verdade,
mesmo que isso signifique deixar o espectador com um nó na
garganta. 
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