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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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O SOM DA SOLIDÃO
Chega a vez do apaixonante Fale com Ela, um tratado de Almodóvar sobre o silêncio e a miséria das relações humanas

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

hega aos cinemas, no próximo dia 1º de novembro, um filme imperdível. Fale com Ela é outro grande passo na carreira de Pedro Almodóvar, canonizado como unanimidade de público e crítica em 2000 com Tudo Sobre Minha Mãe. Superficialmente, Fale com Ela poderia ser mais um estudo sobre homens e mulheres, mas consegue ir muito além da tensão irritante e um pouco falsa de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Almodóvar realmente evoluiu: seu novo filme é um tratado sobre a condição solitária e infeliz da humanidade, mostrando seres que travam batalhas constantes contra o silêncio e a insanidade cotidiana.

O primeiro encontro de Benigno (Javier Camara) e Marco (Dario Grandinetti) é marcado pelas lágrimas de Marco, que quebram e dissolvem a tristeza de um espetáculo de Pina Bausch. O acaso os uniu pela primeira vez, e voltará a colocar estes dois homens no mesmo ambiente. Benigno é o enfermeiro de sua amada, a jovem bailarina Alicia (Leonor Watling), que está em coma há anos. Marco vê sua companheira Lydia (Rosario Flores) ser destroçada por um touro durante uma corrida. A jovem matadora, em coma, vai para o mesmo hospital de Alicia. As lágrimas, mais uma vez, colocam os dois jovens na mesma barca. A partir daí, Almodóvar vai cuidando de apresentar a história de cada um destes personagens, as aflições e as cicatrizes do passado, até o desenrolar de seus relacionamentos com as silenciosas mulheres.

O grande mérito de Fale com Ela é o talento do diretor espanhol em contar histórias. O filme flui, o que não é fácil por se tratar de uma situação recheada de simbologia e reflexão. A montagem é mais do que soberba, com seus flashbacks e seus constantes cortes temporais. É claro, não atrapalhou nem um pouco o fato de que estamos falando de um elenco preparadíssimo. São papéis (ou alegorias?) mais do que complicados, mas nada para tirar do sério o grupo de atores escolhidos para a produção. Javier Camara dá show: Benigno sai ambíguo, um lado doce e inofensivo que apenas confirma nossas convicções ao final do filme. (Daí o “Benigno”). Dario Grandinetti não deixa por menos. Seu Marco traz em seus olhares o mistério e a angústia da Argentina. O errante portenho nos comove com suas lágrimas e por sua história marcada por decepções amorosas. Não que seja para equilibrar a rivalidade sul-americana, mas Caetano Veloso também faz uma ponta no filme.

Mas é de Rosario Flores a cena mais bela do filme. Toureando com sensualidade, Lydia recria na arena a tensão sexual que nos caracteriza como Humanidade. É um elogio mais do que aberto à tauromaquia, uma belíssima e empolgante arte, embora pouco compreendida fora da Espanha [leia mais aqui]. Acaba sendo também uma extensão da vida pessoal de Lydia, que não consegue falar para Marcos que está se reconciliando com seu antigo amante. Marcos, por sua vez, tenta superar as dores de um casamento que não deu certo. O touro – símbolo dúbio do divino e do profano – não perdoa esta consciência em apuros. A corrida deixa de ser o ponto de escape para a perdição de Lydia e se transforma em sua destruição. É a força do silêncio, mais uma vez.

Fale com Ela mostra a nossa ilusão frente ao mundo. Benigno conversa com Alicia, e se diz tendo um relacionamento mais do que perfeito. “Nos entendemos melhor que muitos casais”, diz o enfermeiro ao amigo Marcos. Benigno fala e, aparentemente, Alicia não pode responder. Eles vivem em universos paralelos, com percepções totalmente diferentes da realidade. Já era assim, diga-se de passagem, desde os tempos em que Alicia ainda estava acordada. Mas Benigno continua ali, pois foi criado para isso. Cuidou de sua mãe, isolado em um quarto durante toda a sua vida. Da janela – de sua casa e de seu mundo – conheceu Alicia. E com esta mulher ele está disposto a construir o maior relacionamento de sua vida.

Perceba a solidão deste rapaz. Acorde para o fato de que essa também é a história de nossas vidas, caro leitor. Seu interlocutor poderia muito bem estar em coma, pois estamos fadados a vivermos isolados em nosso mundo, impossibilitados de compartilhar nossa existência. Somos incompatíveis, incompreensíveis, seres fechados em nossas conchas, em nossos comas. Não adianta gritar, pois ninguém está ouvindo o que você quer dizer. Ou melhor, ninguém está ouvindo exatamente o que você está tentando expressar, pois cada indivíduo viverá para sempre aprisionado em sua incongruência com o mundo que o cerca. O sexo, felizmente, será um ponto de tangência, onde poderemos nos sentir preenchidos de humanidade e divindade. É uma exposição redentora de nossos defeitos. Mas é claro que nesta vida moderna temos que abdicar de boa parte dos momentos de plenitude. Só que isso já é assunto para outra ocasião.

O sexo acabará, no final das contas, definindo toda a existência de Alicia, Benigno e Marco. É um conto de amor e morte, para citar um livro de Arthur Schnitzler. E, como já definia o contemporâneo de Freud, amor e morte andam juntos, de mãos dadas e, por vezes, não dá pra saber onde começa um e acaba o outro. E aí vem um final arrebatador, triste e esperançoso ao mesmo tempo. Nada de tricky ending... Isso pode muito bem ficar com Hollywood, que precisa desse tipo de truque para entupir de imbecis as salas de cinema e quebrar recordes de bilheteria. Os europeus se dão ao luxo de contar a verdade, mesmo que isso signifique deixar o espectador com um nó na garganta.