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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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INTERROGAÇÃO!
Você pode até detestar futebol, mas precisa conferir o divertidíssimo Mesa Redonda de Avallone e Chico Lang

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)
fotos Carolina Meyer (carol@rabisco.com.br)

 Roberto Avallone Jr, vírgula, o jornalista

enhuma rodada de futebol no domingo fica completa sem um programa de mesa-redonda. É batata: acabou a maratona de jogos no fim de semana, começam a pipocar os programas em quase todos os canais. Um deles é essencial: chama-se, apropriadamente, Mesa Redonda, e leva o subtítulo muito esclarecedor de “Futebol Debate”. Você pode até não gostar de futebol, mas não pode deixar de ver, pelo menos uma vez na vida, esta pérola televisiva comandada pelos jornalistas Roberto Avallone, vírgula, o palmeirense, e o corintianíssimo Chico Lang, que vai ao ar todos os domingos às 22 horas na TV Gazeta. É um espetáculo ímpar.

Por mais desgastado que seja o formato, o Mesa Redonda se destaca pelo imenso folclore que o cerca. Avallone e Chico Lang são duas figuraças que poderiam muito bem ser heróis de história em quadrinhos. Ambos são recheados de maneirismos, bordões e marcas registradas. Brigam o tempo todo, discutem com os convidados e transformam o programa numa mesa de bar. Notícias surgem como se fossem boatos: “um passarinho me contou”, começa Avallone... E você já sabe que se trata de uma grande negociação entre clubes, mas que talvez jamais se concretizará. É claro, há muito espaço para jornalismo. Mas, até aí, nada que não se veja nas mesas dos outros canais. Que me desculpem os modestos apresentadores, mas eles fazem a diferença que garante ao Mesa uma audiência de mais de 200 mil residências na Grande São Paulo.

 Chico Lang: "Timão SETE, Palmeiras ZERO"

Apoiado pelo então comandante da Gazeta Constantino Cury, Avallone trouxe Chico Lang para ser seu braço direito no Mesa em 1990. A empatia entre os dois foi imediata. O palmeirense carrega a batuta de comandante do encontro dominical, mas prefere fazer o tipo democrático. Gosta de ver o circo pegar fogo, mas não impõe sua opinião. Já Chico, o símbolo do corintiano chato, não admite nunca estar errado. Atropela os outros jornalistas da mesa – os veteranos Fernando Soléra e Dalmo Pessoa – e distribui críticas a quem vai contra seus interesses de torcedor do Timão. Na dialética entre os dois apresentadores, Chico é o mais polêmico, e ele atinge seu objetivo: apesar de claramente caricaturesco, consegue deixar são-paulinos, palmeirenses e santistas irados. Não dá pra imaginar que pessoalmente o jornalista seja responsável, simpático e consciente de que interpreta um personagem.

O “Chico Lang” surgiu, como ele mesmo gosta de definir, em 1983, quando o jornalista trabalhava na extinta Folha da Tarde. Chico ganhou uma coluna no jornal, e desde o início se assumiu corintiano roxo, apelando para a polêmica e para a visão mais do que parcial de um torcedor apaixonado. “É um personagem mesmo”, admite o jornalista. Não dá para dizer o contrário. Na TV, Chico se nega a ver jogadas nas quais o Corinthians recebeu uma ajudinha do árbitro. “Lance normal!”, grita, enquanto os companheiros de mesa não conseguem segurar a gargalhada. Ele “inventa” pênaltis que teriam dado a vitória para o Timão e nunca admite que um atacante alvinegro estivesse impedido, por mais que as câmeras mostrassem o contrário. “O videoteipe é burro”, diz, citando Nelson Rodrigues. Chico se diz influenciado pelo mestre carioca, que assumiu ser Fluminense desde o início. Mas as semelhanças acabam aí. Distante do rococó rodrigueano, Chico é mais popularesco, na estirpe da Folha da Tarde e do Notícias Populares. “Sou diferente do Avallone. Enquanto ele diz que um lance é ‘pífio’, eu já defino a jogada como ‘boba’ mesmo”.

O acento italianado de Avallone, carregado no “errrrres”, dá a ele um ar mais sério, sem deixar de ser engraçado. Não poderia ser de outra forma. Avallone pontua – com vírgula, exclamação, três pontinhos, travessão e a célebre interrogação – todas as suas frases. “Não é nada forçado. É uma herança dos meus tempos de jornalista de meios impressos, quando tudo tinha que ficar bem claro. Na TV, nem sempre você consegue dar ênfase naquilo que você quer”. Avallone esbanja: repete a expressão “no pique” pelo menos dez vezes em cada bloco. Gesticula, risca o ar com o dedo em riste. O “interrogação!” já deixou de ser um recurso para se tornar uma marca registrada. Anuncia, da maneira de sempre, o clássico do Brasileirão: “Corinthians, Palmeiras, Palmeiras, Corinthians”. Enfrenta, para variar, Chico Lang, que diz que o Timão vai encontrar dificuldades, mas vai meter 7 x 0 no rival. A mesa cai na gargalhada, já acostumada com os placares elásticos de Chico.

O palmeirense iniciou sua carreira jornalística no Última Hora, e foi para o Jornal da Tarde ainda nos anos 60. Eram os áureos tempos do diário, que pertence ao Grupo Estado. “Fui obrigado a ler João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, José Lins do Rego...” Não é de se estranhar que Avallone use termos como “élan” e “sofisma”, tão alienígenas ao jornalismo esportivo atual. É um cronista sui generis, é preciso admitir. Cita Gassman e o neo-realismo italiano com a mesma facilidade que declama a escalação da Ponte Preta vice-campeã paulista de 1977. Chama Fábio Luciano de Anthony Perkins e Valdir Espinosa de Marlon Brando. “Sou fã de cinema, e futebol é uma alegoria, um espetáculo como a sétima arte”. Pergunto se o futebol de hoje ainda se parece com o cinema. “Talvez o primeiro Fellini, não o de Satyricon. Mas hoje já se perdeu muito do romantismo de antigamente”, lamenta.

O embate entre Avallone e Chico é mesmo fantástico. Os dois garantem que não é nada encenado, impressão confirmada no estúdio: os produtores riem o tempo todo com as cutucadas distribuídas entre eles. Na maioria das vezes, sobram estilhaços para os convidados. Rogério Ceni, um habitué do programa, é obrigado a ter muito jogo de cintura para não perder a paciência com Avallone, que o provoca por causa do fatídico pênalti do jogo São Paulo x Santos (pelo Brasileiro, em 16 de outubro). No final, tudo acaba em amizade. Mas nem sempre as feridas são curadas rapidamente: Ricardinho, por exemplo, ficou um bom tempo sem ir ao Mesa Redonda depois que Chico Lang divulgou a notícia de que ele teria apanhado dos companheiros, durante sua disputa com Marcelinho Carioca pelo poder no Corinthians.

É interessante ver que tanto Chico quando Avallone, por mais que dêem crédito à seriedade do jornalismo do Mesa, admitem que o tom cômico é o que garante a vitória sobre a concorrência. Não é por acaso que Juca Kfouri investiu em Kajuru – hoje na TV Cultura – e Milton Neves colocou Cacá Rosset no papel de “mala” em seu Terceiro Tempo, na Record. As cópias (mal-feitas) são um reconhecimento de um bom trabalho, comemora Chico Lang. Tem toda a razão. O jornalismo esportivo precisa desta verve mais cômica para sobreviver. Não interessa ao cronista a posição elitista do jornalismo cultural, que se veste de uma aura imbecil de superioridade para convencer o público. A lição do Mesa Redonda é essa: jornalistas bem informados, sempre, mas com um quê de artista circense. Exclamação!