| INTERROGAÇÃO!
Você pode até detestar
futebol, mas precisa conferir o divertidíssimo Mesa Redonda
de Avallone e Chico Lang
por Leopoldo
Godoy (leogodoy@hotmail.com)
fotos Carolina Meyer (carol@rabisco.com.br)
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| Roberto Avallone Jr, vírgula,
o jornalista |
enhuma
rodada de futebol no domingo fica completa sem um programa de mesa-redonda.
É batata: acabou a maratona de jogos no fim de semana, começam
a pipocar os programas em quase todos os canais. Um deles é
essencial: chama-se, apropriadamente, Mesa Redonda, e leva
o subtítulo muito esclarecedor de “Futebol Debate”.
Você pode até não gostar de futebol, mas não
pode deixar de ver, pelo menos uma vez na vida, esta pérola
televisiva comandada pelos jornalistas Roberto Avallone, vírgula,
o palmeirense, e o corintianíssimo Chico Lang, que vai ao
ar todos os domingos às 22 horas na TV Gazeta. É um
espetáculo ímpar.
Por mais desgastado que seja o formato, o Mesa
Redonda se destaca pelo imenso folclore que o cerca. Avallone
e Chico Lang são duas figuraças que poderiam muito
bem ser heróis de história em quadrinhos. Ambos são
recheados de maneirismos, bordões e marcas registradas. Brigam
o tempo todo, discutem com os convidados e transformam o programa
numa mesa de bar. Notícias surgem como se fossem boatos:
“um passarinho me contou”, começa Avallone...
E você já sabe que se trata de uma grande negociação
entre clubes, mas que talvez jamais se concretizará. É
claro, há muito espaço para jornalismo. Mas, até
aí, nada que não se veja nas mesas dos outros canais.
Que me desculpem os modestos apresentadores, mas eles fazem a diferença
que garante ao Mesa uma audiência de mais de 200 mil
residências na Grande São Paulo.
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| Chico Lang: "Timão SETE,
Palmeiras ZERO" |
Apoiado pelo então comandante da Gazeta Constantino
Cury, Avallone trouxe Chico Lang para ser seu braço direito
no Mesa em 1990. A empatia entre os dois foi imediata. O
palmeirense carrega a batuta de comandante do encontro dominical,
mas prefere fazer o tipo democrático. Gosta de ver o circo
pegar fogo, mas não impõe sua opinião. Já
Chico, o símbolo do corintiano chato, não admite nunca
estar errado. Atropela os outros jornalistas da mesa – os
veteranos Fernando Soléra e Dalmo Pessoa – e distribui
críticas a quem vai contra seus interesses de torcedor do
Timão. Na dialética entre os dois apresentadores,
Chico é o mais polêmico, e ele atinge seu objetivo:
apesar de claramente caricaturesco, consegue deixar são-paulinos,
palmeirenses e santistas irados. Não dá pra imaginar
que pessoalmente o jornalista seja responsável, simpático
e consciente de que interpreta um personagem.
O “Chico Lang” surgiu, como ele mesmo
gosta de definir, em 1983, quando o jornalista trabalhava na extinta
Folha da Tarde. Chico ganhou uma coluna no jornal, e desde
o início se assumiu corintiano roxo, apelando para a polêmica
e para a visão mais do que parcial de um torcedor apaixonado.
“É um personagem mesmo”, admite o jornalista.
Não dá para dizer o contrário. Na TV, Chico
se nega a ver jogadas nas quais o Corinthians recebeu uma ajudinha
do árbitro. “Lance normal!”, grita, enquanto
os companheiros de mesa não conseguem segurar a gargalhada.
Ele “inventa” pênaltis que teriam dado a vitória
para o Timão e nunca admite que um atacante alvinegro estivesse
impedido, por mais que as câmeras mostrassem o contrário.
“O videoteipe é burro”, diz, citando Nelson Rodrigues.
Chico se diz influenciado pelo mestre carioca, que assumiu ser Fluminense
desde o início. Mas as semelhanças acabam aí.
Distante do rococó rodrigueano, Chico é mais popularesco,
na estirpe da Folha da Tarde e do Notícias Populares.
“Sou diferente do Avallone. Enquanto ele diz que um lance
é ‘pífio’, eu já defino a jogada
como ‘boba’ mesmo”.
O
acento italianado de Avallone, carregado no “errrrres”,
dá a ele um ar mais sério, sem deixar de ser engraçado.
Não poderia ser de outra forma. Avallone pontua – com
vírgula, exclamação, três pontinhos,
travessão e a célebre interrogação –
todas as suas frases. “Não é nada forçado.
É uma herança dos meus tempos de jornalista de meios
impressos, quando tudo tinha que ficar bem claro. Na TV, nem sempre
você consegue dar ênfase naquilo que você quer”.
Avallone esbanja: repete a expressão “no pique”
pelo menos dez vezes em cada bloco. Gesticula, risca o ar com o
dedo em riste. O “interrogação!” já
deixou de ser um recurso para se tornar uma marca registrada. Anuncia,
da maneira de sempre, o clássico do Brasileirão: “Corinthians,
Palmeiras, Palmeiras, Corinthians”. Enfrenta, para variar,
Chico Lang, que diz que o Timão vai encontrar dificuldades,
mas vai meter 7 x 0 no rival. A mesa cai na gargalhada, já
acostumada com os placares elásticos de Chico.
O palmeirense iniciou sua carreira jornalística
no Última Hora, e foi para o Jornal da Tarde
ainda nos anos 60. Eram os áureos tempos do diário,
que pertence ao Grupo Estado. “Fui obrigado a ler João
Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, José Lins do Rego...”
Não é de se estranhar que Avallone use termos como
“élan” e “sofisma”, tão
alienígenas ao jornalismo esportivo atual. É um cronista
sui generis, é preciso admitir. Cita Gassman e o neo-realismo
italiano com a mesma facilidade que declama a escalação
da Ponte Preta vice-campeã paulista de 1977. Chama Fábio
Luciano de Anthony Perkins e Valdir Espinosa de Marlon Brando. “Sou
fã de cinema, e futebol é uma alegoria, um espetáculo
como a sétima arte”. Pergunto se o futebol de hoje
ainda se parece com o cinema. “Talvez o primeiro Fellini,
não o de Satyricon. Mas hoje já se perdeu muito
do romantismo de antigamente”, lamenta.
O
embate entre Avallone e Chico é mesmo fantástico.
Os dois garantem que não é nada encenado, impressão
confirmada no estúdio: os produtores riem o tempo todo com
as cutucadas distribuídas entre eles. Na maioria das vezes,
sobram estilhaços para os convidados. Rogério Ceni,
um habitué do programa, é obrigado a ter muito
jogo de cintura para não perder a paciência com Avallone,
que o provoca por causa do fatídico pênalti do jogo
São Paulo x Santos (pelo Brasileiro, em 16 de outubro). No
final, tudo acaba em amizade. Mas nem sempre as feridas são
curadas rapidamente: Ricardinho, por exemplo, ficou um bom tempo
sem ir ao Mesa Redonda depois que Chico Lang divulgou a notícia
de que ele teria apanhado dos companheiros, durante sua disputa
com Marcelinho Carioca pelo poder no Corinthians.
É interessante ver que tanto Chico quando
Avallone, por mais que dêem crédito à seriedade
do jornalismo do Mesa, admitem que o tom cômico é
o que garante a vitória sobre a concorrência. Não
é por acaso que Juca Kfouri investiu em Kajuru – hoje
na TV Cultura – e Milton Neves colocou Cacá Rosset
no papel de “mala” em seu Terceiro Tempo, na
Record. As cópias (mal-feitas) são um reconhecimento
de um bom trabalho, comemora Chico Lang. Tem toda a razão.
O jornalismo esportivo precisa desta verve mais cômica para
sobreviver. Não interessa ao cronista a posição
elitista do jornalismo cultural, que se veste de uma aura imbecil
de superioridade para convencer o público. A lição
do Mesa Redonda é essa: jornalistas bem informados,
sempre, mas com um quê de artista circense. Exclamação!

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