| RESCALDOS DA MOSTRA
Não adianta tentar, não
dá para ver tudo! Veja aqui comentários sobre nove
filmes exibidos no festival
por Leopoldo
Godoy (leogodoy@hotmail.com)
ão
dá pra ver tudo na Mostra Internacional de Cinema em São
Paulo. Para piorar, nem sempre é possível ver os filmes
que escolhemos: milhares de outros cinéfilos lutam pelo seu
ingresso. Nesse espírito, resenhamos aqui nove filmes aleatórios,
não seguindo nenhum critério de seleção.
Afinal, é assim mesmo que quase todo mundo acompanha a Mostra!
Filantrópica
(Romênia/França, 2001) - Despretensioso, o filme
de Nae Caranfil foi uma das delícias desta Mostra. Trata-se
de uma comédia sensacional sobre a indústria da caridade.
Quebrado e apaixonado por uma mulher refinada, Ovidiu embarca em
uma empresa especializada em golpes. Ótima caricatura da
malandragem romena, tão latina quanto os vigaristas de Nove
Rainhas, um filmaço argentino que você precisa
ver. Filantrópica, é uma pena, não deve
chegar aos circuitos comerciais.
Elegia
de São Petesburgo (Rússia, 1990) - Foi o único
filme de Aleksandr Sokúrov (diretor em retrospectiva nessa
Mostra) a que consegui assistir. Seus planos-seqüência
fantásticos abriram o apetite por Arca Russa e seus
90 minutos sem corte! Elegia... é belíssimo,
mas está muito distante do nosso cinemão cotidiano.
Nos seus 40 minutos, vemos a história do ex-ator Fiodor Shaliapin,
que deixou São Petesburgo para viver nos EUA ainda quando
criança. Mas Sokúrov não para por aí:
em apenas dois planos (sem falas!), mostra a solidão e a
angústia da vida na cidade. Um filme realmente sensível
e tocante.
Perdido em La Mancha (Inglaterra, 2000)
- Documentário tragicômico, muito bem realizado
pelos diretores Keith Fulton e Louis Pepe. É um making-of
de um filme que jamais foi lançado, um projeto de Terry Gilliam
(de Brazil) inspirado na obra de Miguel de Cervantes. A maldição
de Dom Quixote afunda a película do diretor norte-americano,
assim como já havia destruído os sonhos de Orson Welles.
Mais do que entender como são feitos, ou melhor, não
são feitos os filmes, Perdido... é a história
do naufrágio do sonho de um homem, derrotado por seus próprios
moinhos de vento. Pode muito bem passar em TV por assinatura.
Paraíso
(Ale/EUA/Ita/Fra/Ing, 2001) - Você já conhece o
diretor Tom Tykwer. Ele é o mesmo do frenético Lola,
Corra, Lola, ícone da linguagem-MTV tão popular
no cinema atual. Paraíso passa a milhas do estilo
de Lola..., e tenta ser um filme bem mais reflexivo. Infelizmente
o resultado não é dos melhores. Paraíso
é chatérrimo e ultrapretensioso. Krzysztof Kieslowski,
autor do roteiro, deve estar se revirando na tumba. Aliás,
esta seria mais uma trilogia de Kieslowski, morto em 1996. Tykwer,
no entanto, disse que não vai filmar Purgatório e
Inferno. Ainda bem.
El Embrujo de Shanghai (Espanha, 2001)
- Dirigido por Fernando Trueba, deve passar longe das salas
brasileiras. Mais uma vez: que pena! El Embrujo de Shanghai
mostra um menino de 14 anos sofrendo as conseqüências
do pós-guerra. Conhece a belíssima Susana, que bem
poderia se chamar Lolita. Sua sensualidade desperta no garoto a
curiosidade de entender o mundo que os cerca. Como sempre, esse
amor terminará em cicatrizes para o pequeno Dani. A história
do bruxo, contada por um amigo do pai de Susana, dá ao filme
uma névoa de magia. A realidade, infelizmente, vai passar
bem longe da fantasia.
A
História de Lilly (Grécia/França/Eslovênia,
2002) - O pano de fundo desta obra de Robert Manthoulis é
uma história metalingüística sobre a produção
de um filme. Gregos, exilados por causa da ditadura, não
se sentem em casa em lugar algum do mundo. O filme explora esse
desconforto, fazendo um paralelo entre as relações
pessoais de um jovem cineasta com a atriz Melina e uma jornalista
francesa. Um trabalho belíssimo, que infelizmente não
deve ter sua chance nos cinemas nacionais.
La
Pluma Del Arcángel (Venezuela, 2002) - Medíocre.
Elenco de atores que poderiam ser da Rede Globo. Devem trabalhar,
com certeza, com telenovelas na televisão local. É
piegas, tosco, uma historinha melodramática bem chinfrim.
Se você não viu, não perdeu nada. Eu vi, e perdi
90 minutos do meu dia.
Jogando Boliche por Columbine (EUA,
2002) - Outro documentário. Michael Moore é um
dos grandes gênios do jornalismo alternativo americano, e
esta é sua quarta incursão no território do
cinema. Em Jogando..., Moore busca a origem da cultura bélica
dos EUA, país dos serial killers e das inúmeras
guerras. Faz humor sem deixar de ser engajado. Cáustico,
o filme bem que poderia ir para os cinemas brasileiros, mas vai
acabar mesmo na telinha. Pelo menos isso!
11
de Setembro (2002) - Onze curtas de onze minutos sobre o
11 de Setembro. Mais do que um joguinho de números, o resultado
final é uma análise interessantíssima do terror
e dos resultados da opressão política no mundo. A
base do trabalho coletivo é a variedade de nacionalidades
e a ausência de censura. Destaques para as seqüências
de Samira Makhmalbaf, Ken Loach e Alejandro Iñarritu. Os
11 minutos do israelense Amos Gitaï são feitos em um
plano único, sem cortes, uma tendência muito explorada
nessa Mostra. 11 de Setembro é um filme mais do que
imperdível, que deve estrear em breve nos cinemas do Brasil.

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