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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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SNUFF-MOVIE
Para quem pensa que o fim do mundo chegou, aguarde, o homem ainda reserva surpresas

por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)


inha doença é ter 46 cromossomos”. É assim que Fernanda, a protagonista do livro Snuff Movie – Depois do Fim do Mundo, explica sua condição no mundo. E na verdade esse é o mal que aflige todos os seres-humanos: ser humano. O homem cada vez mais se surpreende com as possibilidades da sua mente, e algo que ainda espanta, e muito, é a capacidade de uma pessoa matar outra por puro prazer.

Com certeza isso não é novidade na nossa civilização, mas, as formas de lidar com esse prazer mórbido estão acompanhando as evoluções tecnológicas. E foi justamente isso que de certa forma perturbou o cineasta Marcos Fábio Katudjian. “Ouvi falar pela primeira vez em snuff movies em 1997 pela boca do Arnaldo Jabor. Logo que a idéia de existir esse tipo de coisa entrou pelos meus ouvidos, concluí ser esse o fim do poço em termos de humanidade”, relata Marcos, que já dirigiu um curta e um média-metragem, Artigo 25 e Ano Novo, respectivamente.

Snuff movies são filmes que mostram cenas reais de morte, como a série Faces da Morte; porém, snuff se tornou sinônimo de um sub-gênero: os filmes pornôs em que um dos atores é torturado até a morte após o ato sexual (sem a sua conivência, claro). Há quem diga que esse tipo de filme não existe, é mera lenda urbana. O FBI, em vinte e cinco anos de investigação, jamais encontrou sequer um exemplar. Quem acredita diz que existe uma máfia produtora que comercializa os VHS´s por milhares de dólares, assim como foi mostrado no filme 8 mm, com Nicolas Cage.

O que deixa o assunto ainda mais envolto em mistério é a falta de fontes e referências sobre o assunto. Até o lançamento deste livro não havia nenhum livro sobre o tema no Brasil. Porém, como explica Marcos: “Tive inclusive o cuidado de pedir ao capista que colocasse abaixo do título a palavra “romance” para não se pensar tratar-se de um livro de pesquisa ou documento sobre o assunto”. Na verdade, o livro tem como pano de fundo os snuffs, que está ali apenas para mostrar a miséria que pode ser a condição humana.

Nesse sentido, o livro atende muito bem a dois públicos: quem procura algo sobre o que parece ser o tema do livro, e para quem gosta de suspense. A construção da narrativa apresenta um personagem por vez, assim, cada capítulo se entrelaça um com outro, e não num enredo linear. A história roda em torno de uma moça paulistana e um rapaz do interior, que se conhecem quando ela entra por engano no carro dele pensando ser um táxi. A partir daí, os dois começam uma relação amorosa e tumultuada envolvendo os snuffs movies.

Abaixo, trechos da entrevista que o autor concedeu por e-mail para o Rabisco:

 O autor, Marcos Fábio Katudjian

Sobre como surgiu a idéia do livro.
“Ouvi falar pela primeira vez em snuff movies em 97 pela boca do cineasta Arnaldo Jabor. Logo que a idéia de existir esse tipo de coisa entrou pelos meus ouvidos, concluí ser esse o fundo do poço em termos de humanidade. Assim, a idéia de construir alguma coisa a respeito me incomodou desde o princípio. Em outro nível, pela mesma época, um episódio interessante aconteceu comigo. Andando de carro pelas ruas de São Paulo, parado num semáforo, uma mulher entrou pela porta traseira confundindo meu carro com um táxi. Insisti para que ela permanecesse e a levei para onde queria. Essa passagem é a que dá início ao roteiro de longa-metragem que escrevi então intitulado Snuff Movie – A Vida, Amor e Glória de uma Serial Killer.

Detalhes da elaboração do roteiro
“O roteiro foi escrito de uma maneira estranha, durante os dias e noites de apenas cinco dias, como uma psicografia. Ao terminar, mostrei para o meu pai, que me sugeriu escrever um romance a partir daquele esqueleto. Assim nasceu o livro. Demorei dez meses para escrevê-lo, entre junho de 98 e abril de 99. Todo esse tempo de lá até o lançamento, caminhei no deserto da absoluta falta de respeito das editoras para com o autor”.

Mercado editorial no Brasil
“A falta de respeito por parte das editoras a que me refiro é um original ficar mofando mais de um ano numa prateleira e não ser lido. Aliás, quanto aos editores brasileiros, o melhor que pode ser dito é que eles não gostam de ler”.

O snuffs existem?
Não fico divagando sobre se os snuffs existem ou não. Nunca me empenhei em encontrar um para assistir. O que posso dizer é que acharia muito estranho se esse tipo de filme não existissem no mundo em que vivemos”.

Algum tipo de pesquisa sobre o assunto?
“Não, em nenhum lugar. Trata-se de um livro com zero de pesquisa”.

Qual a diferença entre dirigir um filme e escrever um livro?
“A experiência do livro foi bem mais profunda pessoalmente do que a dos curtas-metragens que dirigi. Mas, na verdade não tenho certeza se isso se refere ao veículo propriamente ou à história em particular. Quero dizer, fazer o longa a partir do romance talvez seja uma experiência do tamanho de escrevê-lo. Aliás, falando bem francamente, a minha experiência de escrever esse romance eu vejo como a sensação mais próxima que um homem pode ter de ser mãe.

O livro vai virar filme?
“O processo de produção do longa está parado, no momento. Ainda preciso reescrever o roteiro (já que aquele original foi totalmente superado) e arregaçar as mangas para o calvário da captação (de recursos)”.

O que há do autor no livro? A personagem Fernanda existe?
“Na verdade, o livro é mais do que pessoal. O livro é mais do que eu sou capaz de ser eu mesmo. Entre eu e o livro, ficaria com ele, sem dúvida. Ele é muito melhor que eu.

Em relação a Fernanda, o que eu posso dizer? A paixão que nos liga está escancarada em cada linha do romance. Se ela é minha filha? Sim. A personagem mesmo. Minha filha e minha mãe. Eu mesmo. A quem devo a vida, por ter me salvado de várias maneiras. Minha melhor parte. Minha filha, minha mestra, meu Cristo. Sinto que um dia ela aparecerá diante de mim tocando o chão, verdadeiramente. E nesse momento só me restará jogar-me a seus pés pedindo misericórdia, na esperança sincera e fingida que ela não me dá ouvidos.