| SNUFF-MOVIE
Para quem pensa que o fim do mundo
chegou, aguarde, o homem ainda reserva surpresas
por Luiz
Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

inha doença é ter 46 cromossomos”. É
assim que Fernanda, a protagonista do livro Snuff Movie –
Depois do Fim do Mundo, explica sua condição no
mundo. E na verdade esse é o mal que aflige todos os seres-humanos:
ser humano. O homem cada vez mais se surpreende com as possibilidades
da sua mente, e algo que ainda espanta, e muito, é a capacidade
de uma pessoa matar outra por puro prazer.
Com certeza isso não é novidade na
nossa civilização, mas, as formas de lidar com esse
prazer mórbido estão acompanhando as evoluções
tecnológicas. E foi justamente isso que de certa forma perturbou
o cineasta Marcos Fábio Katudjian. “Ouvi falar pela
primeira vez em snuff movies em 1997 pela boca do Arnaldo
Jabor. Logo que a idéia de existir esse tipo de coisa entrou
pelos meus ouvidos, concluí ser esse o fim do poço
em termos de humanidade”, relata Marcos, que já dirigiu
um curta e um média-metragem, Artigo 25 e Ano Novo,
respectivamente.
Snuff movies são filmes que mostram
cenas reais de morte, como a série Faces da Morte;
porém, snuff se tornou sinônimo de um sub-gênero:
os filmes pornôs em que um dos atores é torturado até
a morte após o ato sexual (sem a sua conivência, claro).
Há quem diga que esse tipo de filme não existe, é
mera lenda urbana. O FBI, em vinte e cinco anos de investigação,
jamais encontrou sequer um exemplar. Quem acredita diz que existe
uma máfia produtora que comercializa os VHS´s por milhares
de dólares, assim como foi mostrado no filme 8 mm,
com Nicolas Cage.
O que deixa o assunto ainda mais envolto em mistério
é a falta de fontes e referências sobre o assunto.
Até o lançamento deste livro não havia nenhum
livro sobre o tema no Brasil. Porém, como explica Marcos:
“Tive inclusive o cuidado de pedir ao capista que colocasse
abaixo do título a palavra “romance” para não
se pensar tratar-se de um livro de pesquisa ou documento sobre o
assunto”. Na verdade, o livro tem como pano de fundo os snuffs,
que está ali apenas para mostrar a miséria que pode
ser a condição humana.
Nesse sentido, o livro atende muito bem a dois públicos:
quem procura algo sobre o que parece ser o tema do livro, e para
quem gosta de suspense. A construção da narrativa
apresenta um personagem por vez, assim, cada capítulo se
entrelaça um com outro, e não num enredo linear. A
história roda em torno de uma moça paulistana e um
rapaz do interior, que se conhecem quando ela entra por engano no
carro dele pensando ser um táxi. A partir daí, os
dois começam uma relação amorosa e tumultuada
envolvendo os snuffs movies.
Abaixo, trechos da entrevista que o autor concedeu
por e-mail para o Rabisco:
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| O autor, Marcos Fábio Katudjian |
Sobre como surgiu a
idéia do livro.
“Ouvi falar pela primeira vez em snuff movies em 97
pela boca do cineasta Arnaldo Jabor. Logo que a idéia de
existir esse tipo de coisa entrou pelos meus ouvidos, concluí
ser esse o fundo do poço em termos de humanidade. Assim,
a idéia de construir alguma coisa a respeito me incomodou
desde o princípio. Em outro nível, pela mesma época,
um episódio interessante aconteceu comigo. Andando de carro
pelas ruas de São Paulo, parado num semáforo, uma
mulher entrou pela porta traseira confundindo meu carro com um táxi.
Insisti para que ela permanecesse e a levei para onde queria. Essa
passagem é a que dá início ao roteiro de longa-metragem
que escrevi então intitulado Snuff Movie – A Vida,
Amor e Glória de uma Serial Killer.
Detalhes da elaboração
do roteiro
“O roteiro foi escrito de uma maneira estranha, durante os
dias e noites de apenas cinco dias, como uma psicografia. Ao terminar,
mostrei para o meu pai, que me sugeriu escrever um romance a partir
daquele esqueleto. Assim nasceu o livro. Demorei dez meses para
escrevê-lo, entre junho de 98 e abril de 99. Todo esse tempo
de lá até o lançamento, caminhei no deserto
da absoluta falta de respeito das editoras para com o autor”.
Mercado editorial no
Brasil
“A falta de respeito por parte das editoras a que me refiro
é um original ficar mofando mais de um ano numa prateleira
e não ser lido. Aliás, quanto aos editores brasileiros,
o melhor que pode ser dito é que eles não gostam de
ler”.
O snuffs existem?
Não fico divagando sobre se os snuffs existem ou não.
Nunca me empenhei em encontrar um para assistir. O que posso dizer
é que acharia muito estranho se esse tipo de filme não
existissem no mundo em que vivemos”.
Algum tipo de pesquisa
sobre o assunto?
“Não, em nenhum lugar. Trata-se de um livro com zero
de pesquisa”.
Qual a diferença
entre dirigir um filme e escrever um livro?
“A experiência do livro foi bem mais profunda pessoalmente
do que a dos curtas-metragens que dirigi. Mas, na verdade não
tenho certeza se isso se refere ao veículo propriamente ou
à história em particular. Quero dizer, fazer o longa
a partir do romance talvez seja uma experiência do tamanho
de escrevê-lo. Aliás, falando bem francamente, a minha
experiência de escrever esse romance eu vejo como a sensação
mais próxima que um homem pode ter de ser mãe.
O livro vai virar filme?
“O processo de produção do longa está
parado, no momento. Ainda preciso reescrever o roteiro (já
que aquele original foi totalmente superado) e arregaçar
as mangas para o calvário da captação (de recursos)”.
O que há do autor
no livro? A personagem Fernanda existe?
“Na verdade, o livro é mais do que pessoal. O livro
é mais do que eu sou capaz de ser eu mesmo. Entre eu e o
livro, ficaria com ele, sem dúvida. Ele é muito melhor
que eu.
Em relação a Fernanda, o que eu posso
dizer? A paixão que nos liga está escancarada em cada
linha do romance. Se ela é minha filha? Sim. A personagem
mesmo. Minha filha e minha mãe. Eu mesmo. A quem devo a vida,
por ter me salvado de várias maneiras. Minha melhor parte.
Minha filha, minha mestra, meu Cristo. Sinto que um dia ela aparecerá
diante de mim tocando o chão, verdadeiramente. E nesse momento
só me restará jogar-me a seus pés pedindo misericórdia,
na esperança sincera e fingida que ela não me dá
ouvidos. 
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