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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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PERDIDO NAS ESTRELAS
Cranberries agarra-se aos últimos fãs com a coletânea Stars, que lembra a ascensão e queda do grupo

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

e parece emblemático que a banda irlandesa Cranberries tenha escolhido Stars como o título para sua recém-lançada coletânea de singles. Estrelas, como os seres humanos e, mais importante, como as bandas de rock, têm um ciclo de vida bastante definido. Nascem, crescem e, depois de um certo tempo, morrem. A diferença é que, quando se esgotam, as estrelas entram em supernova, com brilho e calor intenso, e dificilmente o hoje decadente Cranberries vai partir deixando algo tão marcante.

Por si só a coletânea, editada na ordem cronológica dos singles, já permite uma eloqüente análise da ascensão e queda do Império Dolores O`Riordan. No Brasil, porém, há ainda um detalhe extra – o CD ganhou uma versão especial dupla, com um “bootleg oficial” de um dos shows da banda, com cinco faixas. Ou seja, é coisa para fã mesmo. Comprova a atual fase do grupo, que, no último álbum de estúdio, Wake Up and Smell the Coffee, usou recurso semelhante, com duas bonus tracks ao vivo; e cujo disco anterior, Bury the Hatchett, também foi relançado em edição especial, dupla, com canções outrora descartadas e (surpresa) mais cinco canções ao vivo. Em suma: o Cranberries desencanou de arregimentar novos fãs. Está trabalhando apenas para agradar a quem já o acompanha há anos – e isso, não tenha dúvida, é carimbar um prazo de validade na testa de qualquer banda.

É preciso fazer uma ressalva aqui. A atual baixa popularidade da banda (se comparada com o boom originado em 1993 por “Linger” e “Dreams”, que abrem Stars) não é de maneira alguma equivalência de sua qualidade musical. O Cranberries teve mais erros e acertos dentro de seus próprios álbuns do que variações entre um disco e outro. O único grande salto, o divisor de águas que de fato selecionou quem ia ficar com a banda e quem só curtia seu pop incidental de FM, foi a cabalística faixa sete desta coletânea: o single “Salvation”. Para uns, é só Dolores berrando. Para outros (e as gravações ao vivo confirmam) é uma canção eletrizante, perfeita para se acompanhar com o coração na garganta.

“Salvation”, primeira música de trabalho de To the Faithful Departed (1996), marcou a catarse de Dolores para lidar com a fama brutal e o reconhecimento internacional que “Zombie” e “Ode to My Family” lhe garantiram. “Zombie”, aliás, já indicava que o Cranberries não era tão ingênuo quanto aparentava e que a banda também curtia um rock com guitarras mais marcadas. Mas nem todos compreenderam To the Faithful Departed, e muitos se afastaram. As três faixas deste álbum incluída em Stars (“Salvation”, “Free to Decide” e “Hollywood”- este último lançado com single só em alguns países, tamanho o fracasso do disco) mostram um trabalho que se finge de eclético para não aparentar explicitamente perdido. Como sempre, erros e acertos dentro de um mesmo álbum.

O quarto disco viria um pouco mais palatável, com um número maior de canções audíveis. Toda a primeira metade de Bury the Hatchett (1999) está em Stars: as românticas deliciosas “You and Me” e “Just My Imagination” e as mais pesadas “Promises” e “The Animal Instinct” (outra favorita para animar a galera em shows). Dolores descobria a sonoridade do violão e a maternidade. Este último fator, aliás, trouxe mais equilíbrio ao grupo, ainda que certa pobreza de julgamento: as tais faixas descartadas que constam da versão especial de Bury... são pérolas pops mais interessantes que todo o resto do álbum original.

Por fim, veio o inexpressivo disco Wake Up and Smell the Coffee (2001), que de bom só tinha o single “Analyze”. A letra pregava uma leveza de espírito e uma despreocupação (“Don't analyze / Don't analyze /... / That will paralize your evolution”) totalmente contraditórias com as músicas de trabalho seguintes, que perguntavam o que havia acontecido com a usina Chernobyl (?) e clamavam por mais oxigênio no ar (???). Stars coloca todas no mesmo balaio de gato.

  O Cranberries na época de No Need to Argue

Para totalizar as vinte canções da coletânea, o Cranberries encerra o álbum com duas faixas inéditas, novamente indo do rock gritado em “New New York” à paixonite melosa da canção-título, “Stars”. E acrescenta ainda uma canção não-single, que os fãs puderam escolher em uma votação na internet. A surpreendente vencedora foi “The Daffodil Lament”, esquecida no meio do segundo álbum do grupo, No Need to Argue (1994). Se há um grande motivo para que não-iniciados comprem Stars, com certeza é esta música, cuja letra narra uma mulher que, depois de anos de infelicidade, decide largar o marido. É uma grande prova da habilidade musical que o Cranberries inegavelmente possui. E a divisão melódica da canção, com um primeira parte introspectiva e uma segunda mais elétrica (quando a mulher se liberta), mostra que os fãs não só estão acostumados como também adoram a dualidade que marca esses dez anos da banda.