| PERDIDO NAS ESTRELAS
Cranberries agarra-se aos últimos
fãs com a coletânea Stars, que lembra a ascensão
e queda do grupo
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 e
parece emblemático que a banda irlandesa Cranberries tenha
escolhido Stars como o título para sua recém-lançada
coletânea de singles. Estrelas, como os seres humanos e, mais
importante, como as bandas de rock, têm um ciclo de vida bastante
definido. Nascem, crescem e, depois de um certo tempo, morrem. A
diferença é que, quando se esgotam, as estrelas entram
em supernova, com brilho e calor intenso, e dificilmente o hoje
decadente Cranberries vai partir deixando algo tão marcante.
Por si só a coletânea, editada na ordem
cronológica dos singles, já permite uma eloqüente
análise da ascensão e queda do Império Dolores
O`Riordan. No Brasil, porém, há ainda um detalhe extra
– o CD ganhou uma versão especial dupla, com um “bootleg
oficial” de um dos shows da banda, com cinco faixas. Ou seja,
é coisa para fã mesmo. Comprova a atual fase do grupo,
que, no último álbum de estúdio, Wake Up
and Smell the Coffee, usou recurso semelhante, com duas bonus
tracks ao vivo; e cujo disco anterior, Bury the Hatchett,
também foi relançado em edição especial,
dupla, com canções outrora descartadas e (surpresa)
mais cinco canções ao vivo. Em suma: o Cranberries
desencanou de arregimentar novos fãs. Está trabalhando
apenas para agradar a quem já o acompanha há anos
– e isso, não tenha dúvida, é carimbar
um prazo de validade na testa de qualquer banda.
É preciso fazer uma ressalva aqui. A atual
baixa popularidade da banda (se comparada com o boom originado
em 1993 por “Linger” e “Dreams”, que abrem
Stars) não é de maneira alguma equivalência
de sua qualidade musical. O Cranberries teve mais erros e acertos
dentro de seus próprios álbuns do que variações
entre um disco e outro. O único grande salto, o divisor de
águas que de fato selecionou quem ia ficar com a banda e
quem só curtia seu pop incidental de FM, foi a cabalística
faixa sete desta coletânea: o single “Salvation”.
Para uns, é só Dolores berrando. Para outros (e as
gravações ao vivo confirmam) é uma canção
eletrizante, perfeita para se acompanhar com o coração
na garganta.
“Salvation”,
primeira música de trabalho de To the Faithful Departed
(1996), marcou a catarse de Dolores para lidar com a fama brutal
e o reconhecimento internacional que “Zombie” e “Ode
to My Family” lhe garantiram. “Zombie”, aliás,
já indicava que o Cranberries não era tão ingênuo
quanto aparentava e que a banda também curtia um rock com
guitarras mais marcadas. Mas nem todos compreenderam To the Faithful
Departed, e muitos se afastaram. As três faixas deste
álbum incluída em Stars (“Salvation”,
“Free to Decide” e “Hollywood”- este último
lançado com single só em alguns países, tamanho
o fracasso do disco) mostram um trabalho que se finge de eclético
para não aparentar explicitamente perdido. Como sempre, erros
e acertos dentro de um mesmo álbum.
O quarto disco viria um pouco mais palatável,
com um número maior de canções audíveis.
Toda a primeira metade de Bury the Hatchett (1999) está
em Stars: as românticas deliciosas “You and
Me” e “Just My Imagination” e as mais pesadas
“Promises” e “The Animal Instinct” (outra
favorita para animar a galera em shows). Dolores descobria a sonoridade
do violão e a maternidade. Este último fator, aliás,
trouxe mais equilíbrio ao grupo, ainda que certa pobreza
de julgamento: as tais faixas descartadas que constam da versão
especial de Bury... são pérolas pops mais
interessantes que todo o resto do álbum original.
Por fim, veio o inexpressivo disco Wake Up and
Smell the Coffee (2001), que de bom só tinha o single
“Analyze”. A letra pregava uma leveza de espírito
e uma despreocupação (“Don't analyze / Don't
analyze /... / That will paralize your evolution”) totalmente
contraditórias com as músicas de trabalho seguintes,
que perguntavam o que havia acontecido com a usina Chernobyl (?)
e clamavam por mais oxigênio no ar (???). Stars coloca
todas no mesmo balaio de gato.
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| O Cranberries na época de No Need
to Argue |
Para totalizar as vinte canções da
coletânea, o Cranberries encerra o álbum com duas faixas
inéditas, novamente indo do rock gritado em “New New
York” à paixonite melosa da canção-título,
“Stars”. E acrescenta ainda uma canção
não-single, que os fãs puderam escolher em uma votação
na internet. A surpreendente vencedora foi “The Daffodil Lament”,
esquecida no meio do segundo álbum do grupo, No Need to
Argue (1994). Se há um grande motivo para que não-iniciados
comprem Stars, com certeza é esta música, cuja
letra narra uma mulher que, depois de anos de infelicidade, decide
largar o marido. É uma grande prova da habilidade musical
que o Cranberries inegavelmente possui. E a divisão melódica
da canção, com um primeira parte introspectiva e uma
segunda mais elétrica (quando a mulher se liberta), mostra
que os fãs não só estão acostumados
como também adoram a dualidade que marca esses dez anos da
banda. 
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