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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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RELANÇAMENTOS DOS STONES REVIVEM CRUEZA SONORA
Embalados pela moda dos “The Best Of”, a mais conhecida banda de rock lança a sua primeira coletânea completa e relança também os discos da sua fase excêntrica, dos anos 60

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)


té o mais alienado alienígena do planeta Terra deveria tirar o chapéu para eles. Imaginem um estilo como o rock, e pensar a respeito de modismos passageiros oriundos do século passado. Por exemplo: um tipo tão popular como o swing e seus mestres, como Glenn Miller ou Benny Goodman foram soterrados pelos novos tempos. A maioria dos rockers dos 50 ou se vendiam ao establishment ou se transformavam em dinossauros anacrônicos. A maioria deles morreu assim, como Bill Halley, ou Gene Vincent, lembrados apenas por aficionados de rockabilly. Porém, o mesmo não se poderia dizer a respeito desses senhores — idosos porém nada comportados. Uma banda que vai fazer quatro décadas, que sobreviveu à onda punk, aos 80’s, aos Beatles, aos Bee Gees, aos Bay City Rollers, às drogas, aos fisco inglês e aos críticos, que os acusavam de serem um bando de burgueses decadentes ripongas e velhacos vendidos para a mídia. E depois disso, ainda sejam capaz de lotar ginásios, de ganhar rios de dinheiro e de rir de todas as estéticas que se julgam como vanguardas, eles ainda se auto proclamam como pedras rolantes, eles são os Rolling Stones.

Para comemorar quarenta anos de tanta teimosia, a gravadora deles anunciou o lançamento da coletânea “Fourty Licks”, dos Stones: apesar das inúmeras compilações da banda, esta é referida como a definitiva. O motivo: nunca antes havia sido promovido uma retrospectiva da carreira do grupo desde o seu obscuro começo, nos anos 60. A verdade é que havia uma distância “contratual” entre a produção dos Stones da primeiras fase, pela ABKCO e a segunda, com o contrato com a antiga CBS. O material relativo à primeira gravadora pertencia ao antigo empresário da banda, Allan Klein. O espólio restante pertencia aos próprios autores, que possuem uma editora própria, a “Rolling Stones Records”, que era subsidiária da Columbia. Junto com “Fourty Licks”, as gravadoras lançam um tesouro escondido: os vinte e dois primeiros discos da banda — dos tempos do primeiro líder, Brian Jones, desta vez com alta qualidade digital.

O reencontro do material completo começou a se desenhar em 1993, quando a banda se mudou para a Virgin/EMI. Este ano, Mick Jagger e Keith Richards ganharam a batalha judicial para obter controle sobre os seus primeiros discos; agora, mandam finalmente sobre todas as gravações lançadas desde 1964 até hoje, possibilitando o lançamento da retrospectiva sonora. Aproveitando (muito bem) a ocasião, a ABKCO (que detém o material anterior da banda) lança também a— finalmente — s versões remasterizadas de 22 álbuns dos Rolling Stones, parte dos quais se encontram fora de catálogo — inclusive no Brasil — como a edição britânica de “Between the Buttons” (1967) e “Out of Our Heads” (1965).

As gravações chegaram a ser vertidas para o formato digital, mas os álbuns que existem em CD soam horríveis. Não surpreende, porque todas as gravações foram digitalizados em 1986, quando a tecnologia e a possibilidade de recuperar registros analógicos ainda estavam na sua fase primordial. Em 1993, a PolyGram lançou a coleção da ABKCO, aproveitando a turnê dos Rolling Stones no Brasil, com o sugestivo nome de “Satisfaction Years”. Quem não teve satisfação foi o ouvinte, que sentia o cheiro de “marquetagem” no embuste. A gravadora pensava que transferir os tapes para CD com o propósito de possibilitar uma audição sem ruído era suficiente. E para piorar, as capas vinham com um selo colado no meio das fotos, que eram impossíveis de tirar.

O problema é que os fãs que compravam os discos, percebeu que não havia mágica alguma — o som é igual aos velhos vinis, ou até de qualidade inferior. A satisfação chegou, finalmente, com o recente lançamento pela ABKCO Records de 22 álbuns remasterizados, frutos de um projeto de restauração que levou 10 anos e não poupou despesas. E, como não poderia deixar de ser, não são CDs quaisquer. são Super Áudio CDs (SACDs), que visam atingir a um público mais exigente. Este formato pode ser tocado tanto em aparelhos próprios quanto em toca-CDs normais. A mágica foi trabalhar as canções faixa a faixa, da mesma forma que o produtor dos discos do Jimi Hendrix, Eddie Kraemer, fez para recuperar os “master tapes” do guitarrista norte-americano.

A ABKCO resolveu também dar uma trégua aos fãs da banda. A série inclui as versões americana e britânica da maioria dos álbuns da banda, que muitas vezes tinham arte e faixas diferentes. Assim, os interessados poderão ouvir as duas versões de “Out of Our Heads”, de 1965, “Aftermath”, de 1966 e “Between the Buttons”, de 1967 (as versões americanas incluíam canções a mais, lançadas originalmente em singles, para vender mais). Os fãs vão poder, pela primeira vez, ouvir o álbum “Beggars Banquet”, de 1968, com a capa e os créditos originais, velocidade correta, mais rápida e a coletânea “Metamorphosis”, de 1975, esgotada há décadas e nunca antes lançada em CD.

 Os Stones em 1966

A princípio, a série não inclui os dois primeiros álbuns britânicos dos Stones, “The Rolling Stones”, de 1964, e “The Rolling Stones No. 2”, de 1965. O primeiro chegou a ser lançado no Brasil em CD, mas está fora de catálogo. O segundo foi preterido em favor da edição norte-americana “12X5”, fazendo com que várias canções ficassem de fora. O vice-presidente sênior da ABKCO, Jody Klein, disse que faz parte dos planos da gravadora incluir esses dois álbuns na coleção. Críticos têm elogiado a clareza do som, especialmente aos vocais de Mick Jagger. Um detalhe que muitos não sabem é que, as primeira gravações da banda eram gravados com mixagem direta na mesa, quase sempre em “mono” e com um som granulado, como eram as antigas gravações de blues, com os vocais misturados em meio ao conjunto dos instrumentos.

Klein contou que os técnicos que fizeram a remasterização se deram a um trabalho enorme para manter a integridade e o som “cru” dos singles e álbuns originais. Claro, sem dar a impressão que nada mudou. Afinal, entre os fãs dos Stones, existem os “xiitas”, que detestam qualquer alteração na qualidade das faixas, como aconteceu com as remasterizações dos Beatles. “Foi um projeto de restauração para recuperar o som e a sensação originais”, disse ele. “Nosso objetivo não era criar um som novo, um jeito novo como achamos que a voz de Mick deve soar ou aparecer”. Segundo ele, se a voz de Jagger soa mais vívida agora, é porque isso estava nas fitas, a despeito da maneira como o som foi transferido e por causa desta tecnologia fantástica. “Não é porque alguém tenha criado algum novo conceito sobre como apresentar a banda.” »»