| ENSAIO HUMANO SOBRE A TOURADA
Poucos espetáculos são
capazes de expor tão claramente o que há de mais obscuro
em nossa essência...
por Carolina
Meyer (carol@rabisco.com.br)
 as
inúmeras manifestações humanas capazes de colocar
o homem em contato com seu íntimo mais turvo e abissal, a
tourada é, certamente, um dos exemplos mais completos, complexos
e fascinantes. A corrida de toros espanhola, aquela cujo
final é marcado pelo assassinato do touro, tem a capacidade
de nos colocar em sintonia com o que de mais primitivo carregamos
em nosso íntimo, esmagado pelo processo civilizatório
desde a nossa origem.
Michel Leiris, em seu fantástico livro Espelho
da Tauromaquia (Cosac & Naify, 2001), faz uma análise
brilhante dessa manifestação popular que é
muito mais que um esporte e ultrapassa os limites da arte. Nele,
Michel esmiúça o significado de cada uma das partes
– os chamados tercios - da corrida,
bem como revela o que há de mais bruto e lodacento no interior
de nossa alma.
Primeiramente, é necessário desfazermos
a idéia de que a tourada espanhola é apenas um esporte.
De fato, ela contém alguns elementos comuns à prática
desportiva, pois pode, em alguns instantes, ser caracterizada como
uma espécie de jogo com regras bastante definidas. Além
disso, deve-se levar em conta a habilidade e a destreza do torero,
que deve conseguir escapar da arena com vida, sempre que possível
deixando atrás de si a carcaça de um touro recém
morto. Nas palavras de Julián López Escobar, El Juli,
o torero sensação na Espanha, em entrevista
exclusiva ao Rabisco, “é muito comum
compararem a tourada a um esporte. Na verdade, não tem nada
a ver. Não se trata de bater recordes ou de competir. A corrida
de toros é um espetáculo único, em que
se combinam o risco, a arte e a emoção, num ambiente
repleto de matizes culturais e até mesmo ritualísticas”.
Michel também argumenta que a tourada supera
a arte. O espetáculo, é claro, possui seu quinhão
de beleza plástica, em que se sobressai o traje
de luzes do torero. Apresenta enorme
rigidez coreográfica, construída de modo a integrar
o touro nessa espécie de balé. Todavia, a tourada
é muito mais que uma dança, já que traz em
sua beleza um naco de nossa realidade imperfeita, pois que esmagada
pela civilização. Esse rasgo de realidade é
dado, sobretudo, pelo charlatanismo do espetáculo, do qual
a platéia é plenamente consciente e dele participa
ativamente, visto que o toro é “enganado”
constantemente pelo brilho lustroso da capa do toureiro.
Em
suma, é na corrida de toros que descarregamos nossos
sentimentos reprimidos, que nos livramos do tédio e conseguimos
expurgar toda a nossa essência castrada. Como nos explica
El Juli, o torero de apenas 20 anos, “não há
nada no mundo que me permita sentir o que experimento diante de
um touro... é a atividade em que posso melhor expressar meus
sentimentos, minhas emoções, meu temperamento”.
A tourada permite que experimentemos um prazer, uma
identificação com nosso “eu” primitivo
somente alcançada durante a prática sexual. O momento
do “passe”, em que o toureiro se expõe completamente
ao touro na medida em que ele vai sendo atraído pelo pano,
representa um instante de tangência entre o belo, o plástico,
o civilizado, o reto - o homem – e o monstro,
o corpo estranho, o rasgo de realidade, o torto
- o touro. O “olé!” da platéia é
praticamente a ejaculação depois de tamanha tensão
sexual. Para Julián, “o melhor momento da corrida
é o triunfo, quando todo o público está entregue
e a arena se converte numa enxurrada de aplausos”.
Finalmente, os dois corpos, homem e touro, se afastam,
sob pena de o primeiro morrer em caso de contato entre os dois.
Daí a tangência com o profano.
E para que o espetáculo seja completo, é
preciso matar o touro. Do contrário, a tourada seria apenas
um esporte, uma exibição das destrezas do atleta,
a exemplo do que acontece em Portugal e no México, por exemplo,
em que o animal não é sacrificado.
Segundo Leiris, a morte do touro representa a reconstituição
do reto e a derrota do torto.
Espetáculo que não é nada senão a reconstrução
do nosso processo civilizatório. Sim, durante o “passe”,
tivemos nosso momento de tangência, de revelação.
Vibramos. Ficamos extasiados. Contudo, é necessário
retornar à superfície da normalidade. Só o
sexo nos proporciona tão intenso contato com nosso desejo
primitivo, oprimido, porém jamais eliminado. E o ato sexual
precisa ter um fim e o que fica é a sensação
de vazio depois do orgasmo.
E
é na ânsia sexual, conclui Michel, que o torero
mata o touro. Primeiro, como representação do poder,
do falo, que é o animal, na tentativa de superá-lo,
de tomar para si a sua força. É por isso que ele morre
por uma espada. E é também por isso que o matador
deve molhar os dedos no sangue do toro no momento da estocada
final. E depois, conforme dito, o touro deve ser sacrificado em
nome do restauro da normalidade, do reto.
El Juli explica que “o momento da estocada
possui dois significados muito importantes para o torero.
De um lado, é o momento de máximo risco, pois, pela
primeira e única vez durante o espetáculo, perde-se
a visão dos chifres do touro de modo a se atingir sua cabeça.
Em segundo lugar, a estocada é a conclusão de uma
tarefa, parte fundamental de uma obra na qual se devem entrelaçar
aspectos técnicos e artísticos”.
Fica, então, o convite para os que desejam
entender um pouquinho mais a nossa estranha e obscura natureza.
Espelho da Tauromaquia é muito mais que
um livro em defesa das touradas: é um verdadeiro tratado
sobre a essência da alma humana. 
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