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31 de outubro a 13 de novembro de 2002


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ENSAIO HUMANO SOBRE A TOURADA
Poucos espetáculos são capazes de expor tão claramente o que há de mais obscuro em nossa essência...

por Carolina Meyer (carol@rabisco.com.br)

as inúmeras manifestações humanas capazes de colocar o homem em contato com seu íntimo mais turvo e abissal, a tourada é, certamente, um dos exemplos mais completos, complexos e fascinantes. A corrida de toros espanhola, aquela cujo final é marcado pelo assassinato do touro, tem a capacidade de nos colocar em sintonia com o que de mais primitivo carregamos em nosso íntimo, esmagado pelo processo civilizatório desde a nossa origem.

Michel Leiris, em seu fantástico livro Espelho da Tauromaquia (Cosac & Naify, 2001), faz uma análise brilhante dessa manifestação popular que é muito mais que um esporte e ultrapassa os limites da arte. Nele, Michel esmiúça o significado de cada uma das partes – os chamados tercios - da corrida, bem como revela o que há de mais bruto e lodacento no interior de nossa alma.

Primeiramente, é necessário desfazermos a idéia de que a tourada espanhola é apenas um esporte. De fato, ela contém alguns elementos comuns à prática desportiva, pois pode, em alguns instantes, ser caracterizada como uma espécie de jogo com regras bastante definidas. Além disso, deve-se levar em conta a habilidade e a destreza do torero, que deve conseguir escapar da arena com vida, sempre que possível deixando atrás de si a carcaça de um touro recém morto. Nas palavras de Julián López Escobar, El Juli, o torero sensação na Espanha, em entrevista exclusiva ao Rabisco, “é muito comum compararem a tourada a um esporte. Na verdade, não tem nada a ver. Não se trata de bater recordes ou de competir. A corrida de toros é um espetáculo único, em que se combinam o risco, a arte e a emoção, num ambiente repleto de matizes culturais e até mesmo ritualísticas”.

Michel também argumenta que a tourada supera a arte. O espetáculo, é claro, possui seu quinhão de beleza plástica, em que se sobressai o traje de luzes do torero. Apresenta enorme rigidez coreográfica, construída de modo a integrar o touro nessa espécie de balé. Todavia, a tourada é muito mais que uma dança, já que traz em sua beleza um naco de nossa realidade imperfeita, pois que esmagada pela civilização. Esse rasgo de realidade é dado, sobretudo, pelo charlatanismo do espetáculo, do qual a platéia é plenamente consciente e dele participa ativamente, visto que o toro é “enganado” constantemente pelo brilho lustroso da capa do toureiro.

Em suma, é na corrida de toros que descarregamos nossos sentimentos reprimidos, que nos livramos do tédio e conseguimos expurgar toda a nossa essência castrada. Como nos explica El Juli, o torero de apenas 20 anos, “não há nada no mundo que me permita sentir o que experimento diante de um touro... é a atividade em que posso melhor expressar meus sentimentos, minhas emoções, meu temperamento”.

A tourada permite que experimentemos um prazer, uma identificação com nosso “eu” primitivo somente alcançada durante a prática sexual. O momento do “passe”, em que o toureiro se expõe completamente ao touro na medida em que ele vai sendo atraído pelo pano, representa um instante de tangência entre o belo, o plástico, o civilizado, o reto - o homem – e o monstro, o corpo estranho, o rasgo de realidade, o torto - o touro. O “olé!” da platéia é praticamente a ejaculação depois de tamanha tensão sexual. Para Julián, “o melhor momento da corrida é o triunfo, quando todo o público está entregue e a arena se converte numa enxurrada de aplausos”.

Finalmente, os dois corpos, homem e touro, se afastam, sob pena de o primeiro morrer em caso de contato entre os dois. Daí a tangência com o profano.

E para que o espetáculo seja completo, é preciso matar o touro. Do contrário, a tourada seria apenas um esporte, uma exibição das destrezas do atleta, a exemplo do que acontece em Portugal e no México, por exemplo, em que o animal não é sacrificado.

Segundo Leiris, a morte do touro representa a reconstituição do reto e a derrota do torto. Espetáculo que não é nada senão a reconstrução do nosso processo civilizatório. Sim, durante o “passe”, tivemos nosso momento de tangência, de revelação. Vibramos. Ficamos extasiados. Contudo, é necessário retornar à superfície da normalidade. Só o sexo nos proporciona tão intenso contato com nosso desejo primitivo, oprimido, porém jamais eliminado. E o ato sexual precisa ter um fim e o que fica é a sensação de vazio depois do orgasmo.

E é na ânsia sexual, conclui Michel, que o torero mata o touro. Primeiro, como representação do poder, do falo, que é o animal, na tentativa de superá-lo, de tomar para si a sua força. É por isso que ele morre por uma espada. E é também por isso que o matador deve molhar os dedos no sangue do toro no momento da estocada final. E depois, conforme dito, o touro deve ser sacrificado em nome do restauro da normalidade, do reto.

El Juli explica que “o momento da estocada possui dois significados muito importantes para o torero. De um lado, é o momento de máximo risco, pois, pela primeira e única vez durante o espetáculo, perde-se a visão dos chifres do touro de modo a se atingir sua cabeça. Em segundo lugar, a estocada é a conclusão de uma tarefa, parte fundamental de uma obra na qual se devem entrelaçar aspectos técnicos e artísticos”.

Fica, então, o convite para os que desejam entender um pouquinho mais a nossa estranha e obscura natureza. Espelho da Tauromaquia é muito mais que um livro em defesa das touradas: é um verdadeiro tratado sobre a essência da alma humana.