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14 a 27 de novembro de 2002


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MINÚSCULOS E PODEROSOS
Saiba a que veio a Ácaro, revista que traz novos nomes do cenário artístico e literário do país

por Andréia Moroni (andreiamoroni@hotmail.com)

caba de chegar às livrarias uma nova revista que, apesar de conter os textos e a arte de uma geração que tenta dar as caras no cenário cultural do país, zomba de sua própria condição. Ela se entitula uma revista de bordo democrática, já que seu acesso não se restringe aos aviões – meio de transporte elitista – e, ao contrário disso, mantém os pés no chão. Trata-se da revista Ácaro, cujo primeiro exemplar circulou em outubro.

Ao vê-la nas mãos do vendedor, pode-se pensar que o pobre não tenha compreendido direito o seu pedido. Não, ele não está segurando um LP. O formato da revista é esse mesmo, elegantemente embalado em uma caixinha um tanto semelhante aos saudosos bolachões.

Visualmente, sua preocupação em casar os poemas e a ficção com imagens funciona bastante bem, resultando em composições moderninhas que diversificam o tipo e o formato do papel ou trazem páginas trabalhadas em duas cores. Fica evidente a preocupação com o acabamento do produto e a importância complementar de texto e arte: Ácaro é tanto uma revista para ser vista quanto para ser lida – ainda que às vezes abuse um pouco da boa vontade do leitor apresentando linhas megaextensas, com mais de vinte centímetros.

ENQUANTO RODAVAM OS MIMEÓGRAFOS...

O formato capaz de remeter a momentos anteriores do cenário musical, no entanto, não parece ser mera coincidência. Em muitos aspectos, a postura da revista resgata a produção literária e cultural marginal da década de 1970. A mesma, aliás, em que nasceu boa parte dos colaboradores do primeiro número, cujos antecessores, tendo que enfrentar a censura e não podendo contar com tantas facilidades tecnológicas, mimeografavam seus trabalhos e iam de encontro ao público em bares, ruas, praças ou onde quer que ele estivesse.

Naquela época, vivendo a ditadura militar, a inflação, o desemprego, a propaganda ufanista de um governo que tentava transmitir uma imagem de desenvolvimento quando o que realmente se negligenciava era o bem-estar da população, jovens que não enxergavam a possibilidade de realizar seus sonhos e tinham seus ídolos exilados buscam alternativas para se expressar, se divertir e exercer sua liberdade. Em meio a esses fatores, surgiram escritores preocupados em poetizar o próprio cotidiano dos centros urbanos, traduzindo-o em textos de forte caráter subjetivo, nos quais experiências pessoais são retratadas com ironia e bom-humor. Não havia militância política ou rebeldia – isso foi deixado para trás na década anterior. Ao contrário: reinava um certo conformismo. Os questionamentos políticos aparecem como mero reflexo da retratação do dia-a-dia.

Duas vertentes se destacam na produção literária marginal de trinta anos atrás: a que enfatiza os temas do cotidiano e a linguagem coloquial, às vezes chula, e, em contraponto, outra que explora a visualidade e o experimentalismo, seguindo os caminhos abertos pelo concretismo. São dessa geração nomes como Waly Salomão, Cacaso, Chacal, Alice Ruiz, Ana Cristina César e Leila Mícolis.

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA, PORRA!

Se os autores modernistas que consagraram após 1922 a temática do cotidiano se contentavam em fazer constatações sobre o que os rodeia, os moderninhos de Ácaro denunciam que algo não está bem. É como se o jovem poeta marginal de 1970 amadurecesse meia década e, transportado no tempo, se desse conta de que, passados tantos anos, pouca coisa mudou. A matéria-prima do texto sem dúvida ainda são os pequenos acontecimentos da rotina urbana que, de tão chatos e normais, são capazes de despertar algum interesse. Um prédio azul, o pavilhão 6 do Carandiru, um sanduíche de carne-de-sol, uma ata de reunião, a merda. Ácaro retrata essa mesmice, que é um saco. O humor, mais pesado, transformou-se em sarcasmo.

O experimentalismo, a exploração de recursos gráficos e das artes plásticas, a linguagem coloquial e grosseira e a subjetividade continuam, não como mais um acontecimento passageiro consagrado pela grande mídia, um outro avião Fokker que cai e de que ninguém se lembra duas semanas depois, mas talvez como o retrato de toda a frota de jovens autores que pode atingir qualquer um quando menos se espera – inclusive a simpática vaca que ilustra a caixinha estilo LP . Nossa falta de perspectiva cotidiana, no entanto, ainda não nos fez ficar esperando que aviões caiam. Nem que revistas de bordo circulem em terra.

MENAS, POR FAVOR

Mas Ácaro não é feita só de ficção e poesia. Ela traz também uma reportagem, um artigo e um suplemento literário.

No artigo “Mário aos jovens”, assinado por Antonio Carlos Viana, exalta-se a obra de Mário Quintana, entre outras coisas, por nela predominar o ritmo da fala, “como se o narrador nos estivesse contando naquele exato instante da leitura o fato vivo, transparente de realidade”, características que, não por acaso, se repetem em outros textos da revista. O próprio título do artigo, aliás, merece atenção especial: Ácaro, por ser feita por gente jovem, não pode deixar de provocar empatia em um público com mesmo perfil – universitários dotados de neurônios, capazes de elaborar críticas fundamentadas e dispostos a contestar inclusive algumas estruturas legitimadoras do mundo acadêmico e literário que não costumam dar espaço a novos nomes da literatura.

Tal crítica é feita de modo brilhante e divertidíssimo por Ebenezer Bezoaris em Menas! – suplemento de domingo, referência explícita aos cadernos culturais que circulam em dois dos principais jornais do país. Lá é possível encontrar, por exemplo, a “Resenha Curinga” em que, ao se completar os espaços em branco com dados como nomes de personagens, autor e título, se obtém a crítica de qualquer livro.

MILONGAS FINAIS

De um modo geral, Ácaro não explica a que veio. Não há um editorial e espera-se que o leitor seja capaz de ler nas entrelinhas que a grande mídia, já sem ter de enfrentar mecanismos institucionais de censura como os da década de 1970, continua não dando espaço a novas vozes e ainda gera escritores marginais. Não se vê outdoors ou publicidade da revista em outros veículos, ela não está facilmente visível nas livrarias. Mas está aí. Haverá os que gostam – e certamente os que não gostam. Ao menos por toda essa contestação, vale a pena conhecer.

Ácaro – literatura e outras milongas
#1 – outubro/ 2002 - R$ 10,00