| MINÚSCULOS E PODEROSOS
Saiba a que veio a Ácaro,
revista que traz novos nomes do cenário artístico
e literário do país
por Andréia
Moroni (andreiamoroni@hotmail.com)
 caba
de chegar às livrarias uma nova revista que, apesar de conter
os textos e a arte de uma geração que tenta dar as
caras no cenário cultural do país, zomba de sua própria
condição. Ela se entitula uma revista de bordo democrática,
já que seu acesso não se restringe aos aviões
– meio de transporte elitista – e, ao contrário
disso, mantém os pés no chão. Trata-se da revista
Ácaro,
cujo primeiro exemplar circulou em outubro.
Ao vê-la nas mãos do vendedor, pode-se
pensar que o pobre não tenha compreendido direito o seu pedido.
Não, ele não está segurando um LP. O formato
da revista é esse mesmo, elegantemente embalado em uma caixinha
um tanto semelhante aos saudosos bolachões.
Visualmente, sua preocupação em casar
os poemas e a ficção com imagens funciona bastante
bem, resultando em composições moderninhas que diversificam
o tipo e o formato do papel ou trazem páginas trabalhadas
em duas cores. Fica evidente a preocupação com o acabamento
do produto e a importância complementar de texto e arte: Ácaro
é tanto uma revista para ser vista quanto para ser lida –
ainda que às vezes abuse um pouco da boa vontade do leitor
apresentando linhas megaextensas, com mais de vinte centímetros.
ENQUANTO RODAVAM OS MIMEÓGRAFOS...
O formato capaz de remeter a momentos anteriores
do cenário musical, no entanto, não parece ser mera
coincidência. Em muitos aspectos, a postura da revista resgata
a produção
literária e cultural marginal da década de 1970.
A mesma, aliás, em que nasceu boa parte dos colaboradores
do primeiro número, cujos antecessores, tendo que enfrentar
a censura e não podendo contar com tantas facilidades tecnológicas,
mimeografavam seus trabalhos e iam de encontro ao público
em bares, ruas, praças ou onde quer que ele estivesse.
Naquela época, vivendo a ditadura militar,
a inflação, o desemprego, a propaganda ufanista de
um governo que tentava transmitir uma imagem de desenvolvimento
quando o que realmente se negligenciava era o bem-estar da população,
jovens que não enxergavam a possibilidade de realizar seus
sonhos e tinham seus ídolos exilados buscam alternativas
para se expressar, se divertir e exercer sua liberdade. Em meio
a esses fatores, surgiram escritores preocupados em poetizar o próprio
cotidiano dos centros urbanos, traduzindo-o em textos de forte caráter
subjetivo, nos quais experiências pessoais são retratadas
com ironia e bom-humor. Não havia militância política
ou rebeldia – isso foi deixado para trás na década
anterior. Ao contrário: reinava um certo conformismo. Os
questionamentos políticos aparecem como mero reflexo da retratação
do dia-a-dia.
Duas vertentes se destacam na produção
literária marginal de trinta anos atrás: a que enfatiza
os temas do cotidiano e a linguagem coloquial, às vezes chula,
e, em contraponto, outra que explora a visualidade e o experimentalismo,
seguindo os caminhos abertos pelo concretismo. São dessa
geração nomes como Waly Salomão, Cacaso, Chacal,
Alice Ruiz, Ana Cristina César e Leila Mícolis.
NO
MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA, PORRA!
Se os autores modernistas que consagraram após
1922 a temática do cotidiano se contentavam em fazer constatações
sobre o que os rodeia, os moderninhos de Ácaro denunciam
que algo não está bem. É como se o jovem poeta
marginal de 1970 amadurecesse meia década e, transportado
no tempo, se desse conta de que, passados tantos anos, pouca coisa
mudou. A matéria-prima do texto sem dúvida ainda são
os pequenos acontecimentos da rotina urbana que, de tão chatos
e normais, são capazes de despertar algum interesse. Um prédio
azul, o pavilhão 6 do Carandiru, um sanduíche de carne-de-sol,
uma ata de reunião, a merda. Ácaro retrata
essa mesmice, que é um saco. O humor, mais pesado, transformou-se
em sarcasmo.
O experimentalismo, a exploração de
recursos gráficos e das artes plásticas, a linguagem
coloquial e grosseira e a subjetividade continuam, não como
mais um acontecimento passageiro consagrado pela grande mídia,
um outro
avião Fokker que cai e de que ninguém se lembra
duas semanas depois, mas talvez como o retrato de toda a frota de
jovens autores que pode atingir qualquer um quando menos se espera
– inclusive a simpática vaca que ilustra a caixinha
estilo LP . Nossa falta de perspectiva cotidiana, no entanto, ainda
não nos fez ficar esperando que aviões caiam. Nem
que revistas de bordo circulem em terra.
MENAS, POR FAVOR
Mas Ácaro não é feita
só de ficção e poesia. Ela traz também
uma reportagem, um artigo e um suplemento literário.
No artigo “Mário aos jovens”,
assinado por Antonio Carlos Viana, exalta-se a obra de Mário
Quintana, entre outras coisas, por nela predominar o ritmo da fala,
“como se o narrador nos estivesse contando naquele exato instante
da leitura o fato vivo, transparente de realidade”, características
que, não por acaso, se repetem em outros textos da revista.
O próprio título do artigo, aliás, merece atenção
especial: Ácaro, por ser feita por gente jovem, não
pode deixar de provocar empatia em um público com mesmo perfil
– universitários dotados de neurônios, capazes
de elaborar críticas fundamentadas e dispostos a contestar
inclusive algumas estruturas legitimadoras do mundo acadêmico
e literário que não costumam dar espaço a novos
nomes da literatura.
Tal
crítica é feita de modo brilhante e divertidíssimo
por Ebenezer Bezoaris em Menas! – suplemento de domingo,
referência explícita aos cadernos culturais que circulam
em dois dos principais jornais do país. Lá é
possível encontrar, por exemplo, a “Resenha Curinga”
em que, ao se completar os espaços em branco com dados como
nomes de personagens, autor e título, se obtém a crítica
de qualquer livro.
MILONGAS FINAIS
De um modo geral, Ácaro não
explica a que veio. Não há um editorial e espera-se
que o leitor seja capaz de ler nas entrelinhas que a grande mídia,
já sem ter de enfrentar mecanismos institucionais de censura
como os da década de 1970, continua não dando espaço
a novas vozes e ainda gera escritores marginais. Não se vê
outdoors ou publicidade da revista em outros veículos, ela
não está facilmente visível nas livrarias.
Mas está aí. Haverá os que gostam – e
certamente os que não gostam. Ao menos por toda essa contestação,
vale a pena conhecer.
Ácaro – literatura e outras milongas
#1 – outubro/ 2002 - R$ 10,00 
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