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14 a 27 de novembro de 2002


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JÁ VI ESSA SÉRIE ANTES...
No bico do corvo, Dawson’s Creek se vira como pode para rejuvenescer, mas incorre nos mesmos erros de sempre

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

 alarme final soou nos estúdios da Outerbanks Entertainment. A razão de ser da produtora, o seriado adolescente Dawson’s Creek, está pela hora da morte. No seu sexto ano, o programa nem de longe remete à mesma audiência de outrora. Os baixos índices até seriam aceitáveis se o programa tivesse um renome calcado na boa qualidade do que exibe, mas isso também não acontece. Quem assistiu ao episódio duplo que inaugurou a nova temporada, no canal Sony no último dia 4, notou que os produtores estão cientes desse completo desgoverno da série e mais do que ansiosos para reformulá-la. O problema é que, depois de mais de cem episódios, eles já não sabem “inovar” sem tentarem fazer os personagens morder o próprio rabo.

A saga do jovenzinho inocente que sonha ser um grande diretor de cinema e que nutre uma paixão vai-não-vai pela vizinha ganhou novo fôlego no ano passado, quando, depois de formados, o núcleo principal saiu da mítica cidadezinha de Capeside para enfrentar a vida universitária em Boston. Esta novidade, claro, não existiria no início desta nova temporada. Muito pelo contrário: se o seriado quisesse manter qualquer laço com a realidade, iria mostrar a total decepção que a faculdade costuma se revelar mais ou menos no segundo ano. Então, para compensar, foi prometido ao público que Dawson (o tal jovenzinho, já não tão jovem assim) e Joey (a tal vizinha) finalmente transariam logo no início dos novos episódios, eliminando de vez a lengalenga dos dois e preparando a série para novos rumos.

Aparentemente, porém, a noção de “mudança” dos roteiristas e diretores de Dawson’s Creek resvala em nada menos que puro sensacionalismo, e não em alterações estruturais, como seriam exigidas pelo desenlace do romance entre os protagonistas. O episódio duplo abriu com uma narração em off de Joey sobre o que havia acontecido nas férias universitárias, acompanhada de um estilo de edição nunca antes visto na série. Parecia uma tentativa válida de evitar a mesma ladainha de sempre – Dawson’s Creek fez fama por seus personagens verborrágicos e todos com Q.I. acima de 140, sempre prontos para dar uma resposta na ponta da língua ou para analisar até o último detalhe qualquer situação ou sentimento, o que obviamente atravancava a progressão narrativa.

Logo, porém, a série se entregou. No retorno de Pacey e Audrey a Boston, houve uma injustificável participação especial de Jack Osbourne, filho do roqueiro Ozzy, no papel de ele mesmo – e que o público aprendera a amar no reality show The Osbournes. Jack simplesmente apareceu por alguns segundos, falou palavrões e sumiu, sem nenhuma relevância para trama. Era apenas, claro, uma jogada de marketing agressiva, que vilipendiava qualquer resto de dignidade autoral que ainda existisse na série.

Em seguida, foram delineados os “novos” conflitos que serão explorados futuramente. A loirinha Jen (que, antes de se render à epidemia de auto-análise que acomete o núcleo principal, era a única personagem carismática da série) irá lidar com as investidas de um cara lindo mas que exige dela uma postura moralista. Para quem não se lembra, isso já ocorreu na terceira temporada. Joey conhece o novo professor de literatura, não por acaso também lindo, que irá lhe exigir tanto empenho na sala de aula quanto fora dela. Para quem não se lembra, ela já “conheceu melhor” o “corpo docente” da sua faculdade na temporada anterior (e algo similar ocorreu com Pacey, no primeiro ano). Joey ainda terá de enfrentar um colega mal-educado em seu novo emprego, como garçonete num bar, e, para seu azar, o crápula estuda com ela na tal aula de literatura. Para quem não se lembra, a exata mesma premissa já foi explorada na quarta temporada. Por fim, os roteiristas permanecem sem saber o que fazer com Pacey, o único da turma que não estuda. Nos episódios anteriores, ele desenvolveu um súbito talento para a culinária. A história não rendeu e se livraram dela da pior maneira possível. Agora, do nada, ele arranjou um emprego como corretor da bolsa (???), que tem cara de ser uma trama igualmente sofrível. Alguém sinceramente duvida que Pacey irá enfrentar seus patrões porque se recusará a ser corrompido pela falta de ética típica dos executivos de Wall Street?

Mas nada poderia preparar os fãs para as conseqüências da esperada noite de sexo entre Joey e Dawson. Depois de Dawson gastar uns 15 minutos e uns 8 mil vocábulos para explicar exatamente porque ele não quer explicar ou analisar mais nada, o galã agiu de impulso e finalmente levou a amiga para a cama. Só que depois Joey descobre que Dawson estava enrolado com uma menina em sua antiga faculdade, em Los Angeles, e dá um pé na bunda do canalha. Ou seja, o casalzinho se separou novamente e, se os roteiristas forem tão medíocres como dão sinais de que são, os dois só irão reatar no final apoteótico do seriado.

Por incrível que pareça, houve uma época em que Dawson’s Creek era bom. O criador da série foi um talento inesperado dos anos 90, que sabia como ninguém os anseios do jovem daquela época – o roteirista Kevin Williamson. No boom de seu estrelato, provocado pelo sucesso inesperado de Pânico, ele conseguiu assinar um contrato com o canal Warner para comandar uma série levemente autobiográfica. O aspirante a cineasta Dawson é Kevin em seu passado imaginado, e foi quando Williamson largou o programa, na terceira temporada, para cuidar do finado seriado Wasteland, que as coisas começaram a degringolar (aliás, foi por causa de Wasteland que Williamson não escreveu o roteiro de Pânico 3, o mais fraco da trilogia, custando-lhe, assim, também a cinessérie).

O último legado de Williamson a Dawson’s Creek foi o personagem Jack McPhee, primeiro teen gay no horário nobre americano, baseado em outra “faceta” do roteirista, também homossexual. Desde que Williamson saiu, porém, McPhee foi deixado às traças, com paixões que, claro, nunca dão certo porque ainda não se pode mostrar dois homens se beijando na TV. Talvez seja ele o personagem com mais potencial e a única chance da Outerbanks Entertainment matar dois coelhos com uma cajadada só. Sensacionalismo por sensacionalismo, por que não dar a McPhee o namoro que ele merece? Pelo menos, todo mundo ia querer ver e ninguém ia poder alegar uma desconfortável sensação de déja vu generalizada.