| JÁ VI ESSA SÉRIE
ANTES...
No bico do corvo, Dawson’s
Creek se vira como pode para rejuvenescer, mas incorre nos mesmos
erros de sempre
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

alarme final soou nos estúdios da Outerbanks Entertainment.
A razão de ser da produtora, o seriado adolescente Dawson’s
Creek, está pela hora da morte. No seu sexto ano, o programa
nem de longe remete à mesma audiência de outrora. Os
baixos índices até seriam aceitáveis se o programa
tivesse um renome calcado na boa qualidade do que exibe, mas isso
também não acontece. Quem assistiu ao episódio
duplo que inaugurou a nova temporada, no canal Sony no último
dia 4, notou que os produtores estão cientes desse completo
desgoverno da série e mais do que ansiosos para reformulá-la.
O problema é que, depois de mais de cem episódios,
eles já não sabem “inovar” sem tentarem
fazer os personagens morder o próprio rabo.
A saga do jovenzinho inocente que sonha ser um grande
diretor de cinema e que nutre uma paixão vai-não-vai
pela vizinha ganhou novo fôlego no ano passado, quando, depois
de formados, o núcleo principal saiu da mítica cidadezinha
de Capeside para enfrentar a vida universitária em Boston.
Esta novidade, claro, não existiria no início desta
nova temporada. Muito pelo contrário: se o seriado quisesse
manter qualquer laço com a realidade, iria mostrar a total
decepção que a faculdade costuma se revelar mais ou
menos no segundo ano. Então, para compensar, foi prometido
ao público que Dawson (o tal jovenzinho, já não
tão jovem assim) e Joey (a tal vizinha) finalmente transariam
logo no início dos novos episódios, eliminando de
vez a lengalenga dos dois e preparando a série para novos
rumos.
Aparentemente,
porém, a noção de “mudança”
dos roteiristas e diretores de Dawson’s Creek resvala
em nada menos que puro sensacionalismo, e não em alterações
estruturais, como seriam exigidas pelo desenlace do romance entre
os protagonistas. O episódio duplo abriu com uma narração
em off de Joey sobre o que havia acontecido nas férias universitárias,
acompanhada de um estilo de edição nunca antes visto
na série. Parecia uma tentativa válida de evitar a
mesma ladainha de sempre – Dawson’s Creek fez
fama por seus personagens verborrágicos e todos com Q.I.
acima de 140, sempre prontos para dar uma resposta na ponta da língua
ou para analisar até o último detalhe qualquer situação
ou sentimento, o que obviamente atravancava a progressão
narrativa.
Logo, porém, a série se entregou. No
retorno de Pacey e Audrey a Boston, houve uma injustificável
participação especial de Jack Osbourne, filho do roqueiro
Ozzy, no papel de ele mesmo – e que o público aprendera
a amar no reality show The Osbournes. Jack simplesmente apareceu
por alguns segundos, falou palavrões e sumiu, sem nenhuma
relevância para trama. Era apenas, claro, uma jogada de marketing
agressiva, que vilipendiava qualquer resto de dignidade autoral
que ainda existisse na série.
Em seguida, foram delineados os “novos”
conflitos que serão explorados futuramente. A loirinha Jen
(que, antes de se render à epidemia de auto-análise
que acomete o núcleo principal, era a única personagem
carismática da série) irá lidar com as investidas
de um cara lindo mas que exige dela uma postura moralista. Para
quem não se lembra, isso já ocorreu na terceira temporada.
Joey conhece o novo professor de literatura, não por acaso
também lindo, que irá lhe exigir tanto empenho na
sala de aula quanto fora dela. Para quem não se lembra, ela
já “conheceu melhor” o “corpo docente”
da sua faculdade na temporada anterior (e algo similar ocorreu com
Pacey, no primeiro ano). Joey ainda terá de enfrentar um
colega mal-educado em seu novo emprego, como garçonete num
bar, e, para seu azar, o crápula estuda com ela na tal aula
de literatura. Para quem não se lembra, a exata mesma premissa
já foi explorada na quarta temporada. Por fim, os roteiristas
permanecem sem saber o que fazer com Pacey, o único da turma
que não estuda. Nos episódios anteriores, ele desenvolveu
um súbito talento para a culinária. A história
não rendeu e se livraram dela da pior maneira possível.
Agora, do nada, ele arranjou um emprego como corretor da bolsa (???),
que tem cara de ser uma trama igualmente sofrível. Alguém
sinceramente duvida que Pacey irá enfrentar seus patrões
porque se recusará a ser corrompido pela falta de ética
típica dos executivos de Wall Street?
Mas
nada poderia preparar os fãs para as conseqüências
da esperada noite de sexo entre Joey e Dawson. Depois de Dawson
gastar uns 15 minutos e uns 8 mil vocábulos para explicar
exatamente porque ele não quer explicar ou analisar mais
nada, o galã agiu de impulso e finalmente levou a amiga para
a cama. Só que depois Joey descobre que Dawson estava enrolado
com uma menina em sua antiga faculdade, em Los Angeles, e dá
um pé na bunda do canalha. Ou seja, o casalzinho se separou
novamente e, se os roteiristas forem tão medíocres
como dão sinais de que são, os dois só irão
reatar no final apoteótico do seriado.
Por incrível que pareça, houve uma
época em que Dawson’s Creek era bom. O criador
da série foi um talento inesperado dos anos 90, que sabia
como ninguém os anseios do jovem daquela época –
o roteirista Kevin Williamson. No boom de seu estrelato,
provocado pelo sucesso inesperado de Pânico, ele conseguiu
assinar um contrato com o canal Warner para comandar uma série
levemente autobiográfica. O aspirante a cineasta Dawson é
Kevin em seu passado imaginado, e foi quando Williamson largou o
programa, na terceira temporada, para cuidar do finado seriado Wasteland,
que as coisas começaram a degringolar (aliás, foi
por causa de Wasteland que Williamson não escreveu
o roteiro de Pânico 3, o mais fraco da trilogia, custando-lhe,
assim, também a cinessérie).
O último legado de Williamson a Dawson’s
Creek foi o personagem Jack McPhee, primeiro teen gay no horário
nobre americano, baseado em outra “faceta” do roteirista,
também homossexual. Desde que Williamson saiu, porém,
McPhee foi deixado às traças, com paixões que,
claro, nunca dão certo porque ainda não se pode mostrar
dois homens se beijando na TV. Talvez seja ele o personagem com
mais potencial e a única chance da Outerbanks Entertainment
matar dois coelhos com uma cajadada só. Sensacionalismo por
sensacionalismo, por que não dar a McPhee o namoro que ele
merece? Pelo menos, todo mundo ia querer ver e ninguém ia
poder alegar uma desconfortável sensação de
déja vu generalizada. 
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