| EMBALOS TRANSVIADOS
Saiba porque Os Embalos de Sábado
à Noite, recentemente relançado em DVD, é
o Juventude Transviada dos anos 70
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 mbalos
de Sábado à Noite acaba de ser relançado
em DVD numa versão comemorativa de seus 25 anos, e há
duas maneiras de encará-lo: como uma ode vazia ao grande
momento das discotecas ou como um drama ambíguo, pesado,
que captura com exatidão aquela nova geração
de jovens americanos. A chegada deste filme no novo formato não
poderia ocorrer em momento mais inoportuno, quando boa parte dos
jovens (com quem Embalos de Sábado à Noite
tem mais ressonância) foi imunizada pelo sarcasmo semanal
de That 70’s Show, que ridicularizou (não sem
certa razão) a febre disco, as roupas de polyester e o penteado
à la Farrah Fawcett.
Neste aspecto, os eternos passos de John Travolta
na pista de dança resumem o que havia de mais fútil
e brega naquela época. Mas isto porque apenas as cenas coreografadas
de Embalos de Sábado à Noite foram as únicas
sistematicamente vendidas para o público, que acabou por
mantê-las na memória. A preferência icônica
por Travolta requebrando o quadril num terno branco, com o dedo
indicador apontando para o globo de espelhos, soterra outras imagens
do filme que eram menos palatáveis para os anos 1970 e ainda
são indigestas hoje. Poucos se lembram, por exemplo, das
duas cenas de estupro que ocorrem no final – uma delas protagonizada
pelo próprio Travolta; a outra, um gang bang beirando
o grotesco.
O DVD é pobre em material extra. Há
um documentário, preparado pelo canal musical VH1, que merece
certa desconfiança. Mais ainda quando, durante certo momento,
uma das atrizes, hoje velha e desconhecida, tenta classificar o
filme como o Juventude Transviada dos anos 1970. Mas, à
despeito de qualquer má intenção marqueteira,
há certa razão na comparação. As semelhanças
estão lá, e são muitas; desde a temática
jovem até a convulsão social que causou, passando
por recursos narrativos claramente inspirados pelo filme de James
Dean.
Embalos,
porém, só poderia ser um novo Juventude sob
as condições sociais e políticas da época
que retrata e em que foi feita. Os EUA sofriam a ressaca da Guerra
do Vietnã, num clima de imenso pessimismo e incerteza, exatamente
como no pós-Segunda Guerra de Juventude Transviada.
Na contrapartida deste pessimismo, crescia a procura hedonística
pelo prazer, que motivou e fez convergir a febre disco, o consumo
de drogas e o sexo casual (todos, em diferentes níveis, representados
em Embalos). Esse panorama nebuloso era especialmente sentido
e representado pelos adolescentes – em qual outra época
da vida busca-se tanto o prazer e, ao mesmo tempo, tem-se tantas
dúvidas? Tony Manero, tanto quanto Jim Stark nos anos 50,
era a personificação deste jovem que tentava definir
sua própria identidade.
Entre Juventude e Embalos há,
porém, um intervalo de 22 anos, e, bem no meio dele, a maior
revolução americana de costumes deste século,
marcada pelo movimento hippie. Se, em Juventude Transviada,
a jornada agridoce de Stark irá levá-lo de volta ao
seio da família, em Embalos de Sábado à
Noite ela irá extrair Manero de casa e reintegrá-lo
de outro modo ao establishment: a busca por um emprego em
Manhattan e a tentativa de “se dar bem” (um prenúncio
do movimento yuppie, talvez?). A venda ao sistema chega a
ser tão completa que ele nem mesmo cogita seguir carreira
na sua grande paixão, a dança, como seu irmão
havia lhe sugerido (por favor, esqueça o que narra a medonha
continuação Os Embalos de Sábado Continuam,
seis anos mais velha e nascida um dinossauro).
Nesta
jornada rumo à reordem do status quo (que, em suma,
é o que se espera da adolescência: a integração
para a vida “comum adulta”), Juventude e Embalos
possuem um mesmo ponto de partida e a mesma chegada. O ponto de
partida era uma abstração social: a incompreensão
dos pais em uma família medíocre suburbana. A chegada,
ou o clímax, é um recurso narrativo: Manero e Stark
possuem seus sidekicks, seus parceiros, mais jovens, que
vêem no amigo um ideal do que querem se tornar. Em Juventude,
ele é Plato (vivido muito bem por Sal Mineo), esquecido pelos
pais, criado pela empregada e batizado apropriadamente porque parece
nutrir uma paixão platônica pelo personagem de James
Dean. Em Embalos, o fiel escudeiro é Bobby C., que
acaba de engravidar a namorada e recorre a Manero para orientação.
No ápice de ambos os filmes, Bobby C. e Plato
morrem numa tentativa desesperada e infantil de chamar a atenção
do amigo que tanto admiram. Isso provoca uma profunda mudança
na mentalidade de Manero e Stark, que então repensam suas
atitudes. A mensagem: para se tornar adulto, é necessária
a morte da inocência. Os parceiros, caçulas da turma.,
são uma maneira de representá-la externamente aos
protagonistas. É significativa nos dois filmes, também,
como a mudança de atitude dos protagonistas é acompanhada
pela única intervenção da polícia na
trama, como o símbolo máximo da sujeição
à lei e à ordem.
E,
entre este ponto de partida e de chegada, há, claro, as cenas
emblemáticas de ambos os filmes. Tony Manero cura-se da falta
de atenção dos pais com a atenção que
recebe na pista de dança. Stark o faz através de pequenas
transgressões – a mais memorável delas, o racha
rumo ao abismo que tira com o inimigo Buzz. Manero também
tem seus adversários, a gangue latina Barracudas, que justifica
uma desnecessária cena de briga digna dos episódios
mais vergonhosos daquele antigo seriado do Batman com Adam West.
O ótimo é notar como esse recheio narrativo é
tão eloqüente exatamente porque não significa
nada – e que por isso mesmo hoje parece menos evocativo (e
mais ridicularizável) ainda. Quem melhor resume o paradoxo
é Buzz, em Juventude Transviada. Quando Jim Stark lhe pergunta
porque deveriam fazer algo tão perigoso quanto uma corrida
na beira de um penhasco, ele lhe responde: “Por que senão
o fizermos, não há nada melhor para fazer”.
É
essa frase que sustenta bem a revolução cultural que
Juventude Transviada causou. O filme de James Dean marcou
o início da produção de bens culturais voltados
para o adolescente feitos sob a ótica dele mesmo, e não
sob a que o adulto impunha. Isso não existia até então.
Da mesma maneira, Embalos de Sábado à Noite
trouxe à tona o mundo da discoteca, até então
algo guetizado, um fenômeno considerado tipicamente negro
e homossexual. Isso sem mencionar que os filmes imortalizaram James
Dean e John Travolta (e até alguém como eu, que não
gosta de Travolta, precisa admitir que este seria seu único
grande trabalho a carreira inteira, até ser convidado por
Quentin Tarantino para voltar às pistas de dança na
clássica cena de Pulp Fiction. Pelos dois filmes,
Travolta conseguiu suas únicas indicações ao
Oscar).
Em tempo: se os anos 1950 e 1970 tiveram estes clássicos
sobre o vazio da adolescência, é de se supor que ocorreu
algo similar nos anos 1990. Meu primeiro palpite seria Trainspotting,
que também guarda inúmeras semelhanças com
Embalos e Juventude – a exploração
de um submundo, a morte da inocência pelo parceiro, a adequação
final ao establishment a ascensão de um novo astro do cinema.
Mas há um problema: o filme se passa na Escócia. Não
é da cultura americana. Desse jeito, então, acho que
fico com Kids, de Larry Clark. 
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