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14 a 27 de novembro de 2002


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EMBALOS TRANSVIADOS
Saiba porque Os Embalos de Sábado à Noite, recentemente relançado em DVD, é o Juventude Transviada dos anos 70

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

mbalos de Sábado à Noite acaba de ser relançado em DVD numa versão comemorativa de seus 25 anos, e há duas maneiras de encará-lo: como uma ode vazia ao grande momento das discotecas ou como um drama ambíguo, pesado, que captura com exatidão aquela nova geração de jovens americanos. A chegada deste filme no novo formato não poderia ocorrer em momento mais inoportuno, quando boa parte dos jovens (com quem Embalos de Sábado à Noite tem mais ressonância) foi imunizada pelo sarcasmo semanal de That 70’s Show, que ridicularizou (não sem certa razão) a febre disco, as roupas de polyester e o penteado à la Farrah Fawcett.

Neste aspecto, os eternos passos de John Travolta na pista de dança resumem o que havia de mais fútil e brega naquela época. Mas isto porque apenas as cenas coreografadas de Embalos de Sábado à Noite foram as únicas sistematicamente vendidas para o público, que acabou por mantê-las na memória. A preferência icônica por Travolta requebrando o quadril num terno branco, com o dedo indicador apontando para o globo de espelhos, soterra outras imagens do filme que eram menos palatáveis para os anos 1970 e ainda são indigestas hoje. Poucos se lembram, por exemplo, das duas cenas de estupro que ocorrem no final – uma delas protagonizada pelo próprio Travolta; a outra, um gang bang beirando o grotesco.

O DVD é pobre em material extra. Há um documentário, preparado pelo canal musical VH1, que merece certa desconfiança. Mais ainda quando, durante certo momento, uma das atrizes, hoje velha e desconhecida, tenta classificar o filme como o Juventude Transviada dos anos 1970. Mas, à despeito de qualquer má intenção marqueteira, há certa razão na comparação. As semelhanças estão lá, e são muitas; desde a temática jovem até a convulsão social que causou, passando por recursos narrativos claramente inspirados pelo filme de James Dean.

Embalos, porém, só poderia ser um novo Juventude sob as condições sociais e políticas da época que retrata e em que foi feita. Os EUA sofriam a ressaca da Guerra do Vietnã, num clima de imenso pessimismo e incerteza, exatamente como no pós-Segunda Guerra de Juventude Transviada. Na contrapartida deste pessimismo, crescia a procura hedonística pelo prazer, que motivou e fez convergir a febre disco, o consumo de drogas e o sexo casual (todos, em diferentes níveis, representados em Embalos). Esse panorama nebuloso era especialmente sentido e representado pelos adolescentes – em qual outra época da vida busca-se tanto o prazer e, ao mesmo tempo, tem-se tantas dúvidas? Tony Manero, tanto quanto Jim Stark nos anos 50, era a personificação deste jovem que tentava definir sua própria identidade.

Entre Juventude e Embalos há, porém, um intervalo de 22 anos, e, bem no meio dele, a maior revolução americana de costumes deste século, marcada pelo movimento hippie. Se, em Juventude Transviada, a jornada agridoce de Stark irá levá-lo de volta ao seio da família, em Embalos de Sábado à Noite ela irá extrair Manero de casa e reintegrá-lo de outro modo ao establishment: a busca por um emprego em Manhattan e a tentativa de “se dar bem” (um prenúncio do movimento yuppie, talvez?). A venda ao sistema chega a ser tão completa que ele nem mesmo cogita seguir carreira na sua grande paixão, a dança, como seu irmão havia lhe sugerido (por favor, esqueça o que narra a medonha continuação Os Embalos de Sábado Continuam, seis anos mais velha e nascida um dinossauro).

Nesta jornada rumo à reordem do status quo (que, em suma, é o que se espera da adolescência: a integração para a vida “comum adulta”), Juventude e Embalos possuem um mesmo ponto de partida e a mesma chegada. O ponto de partida era uma abstração social: a incompreensão dos pais em uma família medíocre suburbana. A chegada, ou o clímax, é um recurso narrativo: Manero e Stark possuem seus sidekicks, seus parceiros, mais jovens, que vêem no amigo um ideal do que querem se tornar. Em Juventude, ele é Plato (vivido muito bem por Sal Mineo), esquecido pelos pais, criado pela empregada e batizado apropriadamente porque parece nutrir uma paixão platônica pelo personagem de James Dean. Em Embalos, o fiel escudeiro é Bobby C., que acaba de engravidar a namorada e recorre a Manero para orientação.

No ápice de ambos os filmes, Bobby C. e Plato morrem numa tentativa desesperada e infantil de chamar a atenção do amigo que tanto admiram. Isso provoca uma profunda mudança na mentalidade de Manero e Stark, que então repensam suas atitudes. A mensagem: para se tornar adulto, é necessária a morte da inocência. Os parceiros, caçulas da turma., são uma maneira de representá-la externamente aos protagonistas. É significativa nos dois filmes, também, como a mudança de atitude dos protagonistas é acompanhada pela única intervenção da polícia na trama, como o símbolo máximo da sujeição à lei e à ordem.

E, entre este ponto de partida e de chegada, há, claro, as cenas emblemáticas de ambos os filmes. Tony Manero cura-se da falta de atenção dos pais com a atenção que recebe na pista de dança. Stark o faz através de pequenas transgressões – a mais memorável delas, o racha rumo ao abismo que tira com o inimigo Buzz. Manero também tem seus adversários, a gangue latina Barracudas, que justifica uma desnecessária cena de briga digna dos episódios mais vergonhosos daquele antigo seriado do Batman com Adam West. O ótimo é notar como esse recheio narrativo é tão eloqüente exatamente porque não significa nada – e que por isso mesmo hoje parece menos evocativo (e mais ridicularizável) ainda. Quem melhor resume o paradoxo é Buzz, em Juventude Transviada. Quando Jim Stark lhe pergunta porque deveriam fazer algo tão perigoso quanto uma corrida na beira de um penhasco, ele lhe responde: “Por que senão o fizermos, não há nada melhor para fazer”.

É essa frase que sustenta bem a revolução cultural que Juventude Transviada causou. O filme de James Dean marcou o início da produção de bens culturais voltados para o adolescente feitos sob a ótica dele mesmo, e não sob a que o adulto impunha. Isso não existia até então. Da mesma maneira, Embalos de Sábado à Noite trouxe à tona o mundo da discoteca, até então algo guetizado, um fenômeno considerado tipicamente negro e homossexual. Isso sem mencionar que os filmes imortalizaram James Dean e John Travolta (e até alguém como eu, que não gosta de Travolta, precisa admitir que este seria seu único grande trabalho a carreira inteira, até ser convidado por Quentin Tarantino para voltar às pistas de dança na clássica cena de Pulp Fiction. Pelos dois filmes, Travolta conseguiu suas únicas indicações ao Oscar).


Em tempo: se os anos 1950 e 1970 tiveram estes clássicos sobre o vazio da adolescência, é de se supor que ocorreu algo similar nos anos 1990. Meu primeiro palpite seria Trainspotting, que também guarda inúmeras semelhanças com Embalos e Juventude – a exploração de um submundo, a morte da inocência pelo parceiro, a adequação final ao establishment a ascensão de um novo astro do cinema. Mas há um problema: o filme se passa na Escócia. Não é da cultura americana. Desse jeito, então, acho que fico com Kids, de Larry Clark.