| VESTÍGIOS DE UMA ARTE URBANA
Símbolo de contestação
do caos metropolitano, o grafite carrega hoje pouco da ideologia
que o tornou respeitado na década de 1970
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)
colaborou Arthur Lara
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| Alex Valauri (MIS) |
uem
admira uma figura grafitada e assinada em um muro de algum ambiente
urbano brasileiro, não imagina a real dimensão que
esta manifestação possuía quando os primeiros
grupos começaram a utilizá–la para transformar
em imagens o que pensavam sobre o mundo. Atualmente, o ato de grafitar
só não se encontra completamente desvirtuado porque
existem pequenos grupos que ainda carregam consigo as ideologias
que o tornaram respeitado na década de 70.
Porém, o que se observa no presente momento
é que boa parte dos trabalhos não são representações
de um movimento mas, manifestações de grupos isolados,
sem intenção de comunicar conteúdo algum; são
reproduções que trazem consigo mais técnica
que essência. Diferentemente de quando o grafite surgiu no
Brasil, influenciado pelas pichações poético–filosóficas
realizadas pelo movimento estudantil francês em maio de 1968.
Ele tinha intrínseco em si o ideal de servir como ferramenta
de reconstrução da identidade cultural daqueles indivíduos
que não se sentiam representados pelo contexto impessoal,
industrializado, massificador e excludente dos grandes centros urbanos.
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| Jaime Prades (MIS) |
Os conflitos, gerados por esta posição
perante o sistema, permeavam o diálogo entre aqueles que
construíam suas identidades através de estampas, ou
signos, em locais estratégicos, na localidade em que viviam.
Estas imagens serviam como um auto–retrato, mostravam como
cada autor era e o que pensava sobre a realidade. Um canal de informação
paralelo. Grafitar era, antes de tudo, opinar sobre o sistema sem
utilizar, diretamente, suas vias tradicionais de veiculação
de informação. Por este motivo, o grafite tinha os
pés na contra–cultura e dialogava com a sociedade por
meio das impressões sensoriais que provocava em seus observadores.
A distorção de um cotidiano entorpecedor, utilizando
uma representação visualmente forte, foi a maneira
encontrada para fazer com que os habitantes das cidades refletissem
a respeito do caos em que viviam.
A mudança na interpretação da
grafitagem começou a ser esboçada quando o movimento
foi popularizado, e deste modo, aceito em museus e galerias de arte.
Alguns de seus célebres representantes no mundo – como
o americano Jean Michel Basquiat – passaram a figurar em capas
de revistas e suplementos culturais, suas obras colocadas nas paredes
das residências de celebridades e o grafite viu–se transformado
em uma vertente estética da arte. Embora isto tenha ocorrido,
em menor escala no Brasil, ele continuou a ser produzido nas ruas,
paralelamente. No entanto, deste momento em diante, perdeu–se
o controle sobre o destino de toda a conjuntura em que estava sedimentado,
passando a figurar como obra em museus e a ser admirado e reconhecido
como elemento artístico, sem que a sociedade percebesse que
as figuras dentro de uma sala de arte eram corpos sem vida, não
cumpriam seu papel, por estarem distante do contexto em que tinham
significado: os muros dos centros urbanos.
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| Se volto atrás, não
te vejo jamais - Arthur Lara |
Estes fatores contribuíram para sua diluição,
como arte de contestação, sua filosofia vem se dispersando
desde o final do século passado. As gravuras atuais são
assinadas, grupos que não possuíram nenhum contato
com o sentido inicial da manifestação, utilizam suas
técnicas com fins mercadológicos, sem carregar consigo
o desejo de criar uma identidade cultural e o resultado produzido
de forma independente, nos muros das cidades brasileiras, não
vai muito além de réplicas do que se tem estampado
nas metrópoles estrangeiras, como New York. O movimento hoje,
pasteurizado, vem sendo utilizado em algumas experiências
apenas como um analgésico entre um sistema educacional linear,
que nega os valores da educação informal e a violência
urbana. 
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