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14 a 27 de novembro de 2002


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VESTÍGIOS DE UMA ARTE URBANA
Símbolo de contestação do caos metropolitano, o grafite carrega hoje pouco da ideologia que o tornou respeitado na década de 1970

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
colaborou Arthur Lara

 Alex Valauri (MIS)

uem admira uma figura grafitada e assinada em um muro de algum ambiente urbano brasileiro, não imagina a real dimensão que esta manifestação possuía quando os primeiros grupos começaram a utilizá–la para transformar em imagens o que pensavam sobre o mundo. Atualmente, o ato de grafitar só não se encontra completamente desvirtuado porque existem pequenos grupos que ainda carregam consigo as ideologias que o tornaram respeitado na década de 70.

Porém, o que se observa no presente momento é que boa parte dos trabalhos não são representações de um movimento mas, manifestações de grupos isolados, sem intenção de comunicar conteúdo algum; são reproduções que trazem consigo mais técnica que essência. Diferentemente de quando o grafite surgiu no Brasil, influenciado pelas pichações poético–filosóficas realizadas pelo movimento estudantil francês em maio de 1968. Ele tinha intrínseco em si o ideal de servir como ferramenta de reconstrução da identidade cultural daqueles indivíduos que não se sentiam representados pelo contexto impessoal, industrializado, massificador e excludente dos grandes centros urbanos.

 Jaime Prades (MIS)

Os conflitos, gerados por esta posição perante o sistema, permeavam o diálogo entre aqueles que construíam suas identidades através de estampas, ou signos, em locais estratégicos, na localidade em que viviam. Estas imagens serviam como um auto–retrato, mostravam como cada autor era e o que pensava sobre a realidade. Um canal de informação paralelo. Grafitar era, antes de tudo, opinar sobre o sistema sem utilizar, diretamente, suas vias tradicionais de veiculação de informação. Por este motivo, o grafite tinha os pés na contra–cultura e dialogava com a sociedade por meio das impressões sensoriais que provocava em seus observadores. A distorção de um cotidiano entorpecedor, utilizando uma representação visualmente forte, foi a maneira encontrada para fazer com que os habitantes das cidades refletissem a respeito do caos em que viviam.

A mudança na interpretação da grafitagem começou a ser esboçada quando o movimento foi popularizado, e deste modo, aceito em museus e galerias de arte. Alguns de seus célebres representantes no mundo – como o americano Jean Michel Basquiat – passaram a figurar em capas de revistas e suplementos culturais, suas obras colocadas nas paredes das residências de celebridades e o grafite viu–se transformado em uma vertente estética da arte. Embora isto tenha ocorrido, em menor escala no Brasil, ele continuou a ser produzido nas ruas, paralelamente. No entanto, deste momento em diante, perdeu–se o controle sobre o destino de toda a conjuntura em que estava sedimentado, passando a figurar como obra em museus e a ser admirado e reconhecido como elemento artístico, sem que a sociedade percebesse que as figuras dentro de uma sala de arte eram corpos sem vida, não cumpriam seu papel, por estarem distante do contexto em que tinham significado: os muros dos centros urbanos.

 Se volto atrás, não te vejo jamais - Arthur Lara

Estes fatores contribuíram para sua diluição, como arte de contestação, sua filosofia vem se dispersando desde o final do século passado. As gravuras atuais são assinadas, grupos que não possuíram nenhum contato com o sentido inicial da manifestação, utilizam suas técnicas com fins mercadológicos, sem carregar consigo o desejo de criar uma identidade cultural e o resultado produzido de forma independente, nos muros das cidades brasileiras, não vai muito além de réplicas do que se tem estampado nas metrópoles estrangeiras, como New York. O movimento hoje, pasteurizado, vem sendo utilizado em algumas experiências apenas como um analgésico entre um sistema educacional linear, que nega os valores da educação informal e a violência urbana.