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14 a 27 de novembro de 2002


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ODE À MALANDRAGEM
Em terreiro de bom malandro tudo termina em samba e amor

por Artur Louback Lopes (arturll@uol.com.br)

 Ismael Silva

apato brilhando, chapéu panamá, sorriso faceiro, dosagem alcoólica controlada no nível da simpatia, um olho na acompanhante, outro nas acompanhadas, os dois nas cabrochas do recinto. Andar solto, cheio de ginga, papo despretensioso e mortal. Fiel à boemia; à monogamia, jamais. Trabalho, nem pensar. Taí o retrato falado do malandro imortalizado na nossa história. Eis a figura essencial da história do samba.
Não é à toa que a malandragem sempre esteve associada ao Rio de Janeiro, berço do samba. Tampouco é fruto do acaso o fato de a primeira escola de samba carioca, a “Deixa Falar”, ter nascido no bairro do Estácio, tradicional reduto da massa de desocupados e trabalhadores informais, dedicados a pequenos furtos, biscates, jogatina e exploração de mulheres naquele alvorecer dos anos 30. Eram os chamados “bambas” os líderes destas hordas de malandros perigosos, que se reuniam nos botecos em culto à boemia e tudo mais que estivesse associado. Aí a malandragem se criou. E no Estácio criou-se o grande Ismael Silva, grande “bamba” e um dos fundadores da agremiação carnavalesca supracitada, que, no Carnaval de 1929, adentrava a Praça Onze em um espetáculo ainda tímido, dadas as proporções que alcançariam anos depois. À frente do agrupamento comandado por Ismael e seus comparsas ironicamente marchava a cavalaria da Polícia Militar, dando proteção àqueles que, no dia-a-dia, eram alvo da sua atenção por motivos bem diferentes daquele. Mas malandragem e ilegalidade são indissociáveis?

Segundo o auto-denominado malandro Bezerra da Silva, as duas noções não fazem parte da mesma moeda. Sempre que pode, entre apertar um pra acender mais tarde e acender outro que apertara outrora, o velho Bezerra sentencia com ares de autoridade: “Malandro é malandro, mané é mané”. O que isso quer dizer acho que nem ele sabe com exatidão, mas supostamente tenta diferenciar, de forma curta e grossa, o malandro verdadeiro daquele (o tal mané) que extrapola na dose da malandragem e, digamos, “atropela o samba”.

Outros já defendem que é característica marcante do malandro circular por terrenos onde ronda a ilegalidade, portanto, pisando em ovos. Contudo, defendem estes, um digno representante da classe é ladino o suficiente para caminhar com estilo pela corda bamba da legalidade, escorregando feito sabonete de quartel quando ameaça encalacrar-se. Assim define Chico Buarque, que teve a malandragem como tema recorrente de suas músicas, em “A volta do malandro”: “Entre deusas e bofetões/Entre dados e coronéis/Entre parangolés e patrões/O malandro anda assim de viés”.

 Noel Rosa

De fato, a figura do malandro e seu modo de agir já foram mote para um embate poético entre dois grandes sambistas. Em 1934, Wilson Batista lançou o samba-canção “Lenço no Pescoço”, exaltando a típica figura do malandro carioca (“Meu chapéu do lado/Tamanco arrastando/Lenço no pescoço/Navalha no bolso/Eu passo gingando/Provoco e desafio/Eu tenho orgulho/Em ser tão vadio”), que muito se assemelhava a ele próprio, conhecido freqüentador dos redutos da malandragem carioca, presença habitual nas zonas de baixo meretrício, ao lado de figuras conhecidas pela polícia. Em inesperada resposta, Noel Rosa, o já famoso sambista da Vila Isabel, conhecido por cantar a malandragem em versos de exaltação, compõe “Rapaz folgado” (“Deixa de arrastar o seu tamanco / Que tamanco nunca foi sandália / Tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha”). Além de descaracterizar o malandro desenhado por Batista, Noel parte para o ataque pessoal: “Proponho ao povo civilizado/Não te chamar de malandro/E sim de rapaz folgado”. Assim dá-se início a um embate musical que se desenrolaria pelos meses seguintes, para a felicidade da música popular brasileira. Batista critica o rival em “O Mocinho da Vila” e ganha de troco a genial "Feitiço da Vila", que, por sua vez, é retrucada com “Conversa Fiada”, um grande samba de Wilson Batista, sem dúvida, mas com resposta arrebatadora: “Palpite infeliz”, um grande sucesso de Noel Rosa, no qual exalta sua Vila e traz em sua defesa os grandes redutos do samba carioca, tirando crédito da crítica do rival. Batista não se dá por derrotado e lança “Frankenstein da Vila”, em que critica a feiúra do poeta da Vila, em função do defeito físico no rosto. Elegantemente, Noel não responde e termina o polêmico desafio em posição mais honrosa que o infeliz opositor. As músicas produzidas pelos dois polemistas neste desafio foram reunidas pela Odeon em 1956 em um álbum chamado Polêmica, com interpretações de Roberto Paiva e Francisco Egídio.

  Wilson Batista

No fundo o estímulo para a guerra não partira da visível controvérsia entre malandragem e vadiagem. Sabe-se que ambos eram malandros de carteirinha, cada um a sua maneira, e só poderiam brigar por um único motivo: mulher. Batista teria roubado das garras de Noel o coração de uma moça, supostamente a dançarina de cabaré Ceci, que, mais tarde, seria vista nos braços de Mário Lago (ele mesmo, o simpático “Dr. Molina” de Barriga de Aluguel e compositor da famosa canção machista “Ai, que saudade da Amélia”). Resumo da ópera: os dois “bambas” tiraram uma casquinha da desfrutável Ceci, produziram grandes sambas e, por fim, fizeram as pazes, tornando-se amigos. Eis que imperou a malandragem, desfilando em meio à mistura perfeita que sempre a embalou: Samba e Amor, aliás, nome da canção de Chico Buarque que bem poderia ser uma Ode à Malandragem. Afinal, o que representa melhor o malandro do que o sujeito que faz “samba e amor até mais tarde e tem muito sono de manhã”?