| ODE À MALANDRAGEM
Em terreiro de bom malandro tudo termina
em samba e amor
por Artur
Louback Lopes (arturll@uol.com.br)
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| Ismael Silva |
apato
brilhando, chapéu panamá, sorriso faceiro, dosagem
alcoólica controlada no nível da simpatia, um olho
na acompanhante, outro nas acompanhadas, os dois nas cabrochas do
recinto. Andar solto, cheio de ginga, papo despretensioso e mortal.
Fiel à boemia; à monogamia, jamais. Trabalho, nem
pensar. Taí o retrato falado do malandro imortalizado na
nossa história. Eis a figura essencial da história
do samba.
Não é à toa que a malandragem sempre esteve
associada ao Rio de Janeiro, berço do samba. Tampouco é
fruto do acaso o fato de a primeira escola de samba carioca, a “Deixa
Falar”, ter nascido no bairro do Estácio, tradicional
reduto da massa de desocupados e trabalhadores informais, dedicados
a pequenos furtos, biscates, jogatina e exploração
de mulheres naquele alvorecer dos anos 30. Eram os chamados “bambas”
os líderes destas hordas de malandros perigosos, que se reuniam
nos botecos em culto à boemia e tudo mais que estivesse associado.
Aí a malandragem se criou. E no Estácio criou-se o
grande Ismael Silva, grande “bamba” e um dos fundadores
da agremiação carnavalesca supracitada, que, no Carnaval
de 1929, adentrava a Praça Onze em um espetáculo ainda
tímido, dadas as proporções que alcançariam
anos depois. À frente do agrupamento comandado por Ismael
e seus comparsas ironicamente marchava a cavalaria da Polícia
Militar, dando proteção àqueles que, no dia-a-dia,
eram alvo da sua atenção por motivos bem diferentes
daquele. Mas malandragem e ilegalidade são indissociáveis?
Segundo o auto-denominado malandro Bezerra da Silva,
as duas noções não fazem parte da mesma moeda.
Sempre que pode, entre apertar um pra acender mais tarde e acender
outro que apertara outrora, o velho Bezerra sentencia com ares de
autoridade: “Malandro é malandro, mané é
mané”. O que isso quer dizer acho que nem ele sabe
com exatidão, mas supostamente tenta diferenciar, de forma
curta e grossa, o malandro verdadeiro daquele (o tal mané)
que extrapola na dose da malandragem e, digamos, “atropela
o samba”.
Outros já defendem que é característica
marcante do malandro circular por terrenos onde ronda a ilegalidade,
portanto, pisando em ovos. Contudo, defendem estes, um digno representante
da classe é ladino o suficiente para caminhar com estilo
pela corda bamba da legalidade, escorregando feito sabonete de quartel
quando ameaça encalacrar-se. Assim define Chico Buarque,
que teve a malandragem como tema recorrente de suas músicas,
em “A volta do malandro”: “Entre deusas e bofetões/Entre
dados e coronéis/Entre parangolés e patrões/O
malandro anda assim de viés”.
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| Noel Rosa |
De fato, a figura do malandro e seu modo de agir
já foram mote para um embate poético entre dois grandes
sambistas. Em 1934, Wilson Batista lançou o samba-canção
“Lenço no Pescoço”, exaltando a típica
figura do malandro carioca (“Meu chapéu do lado/Tamanco
arrastando/Lenço no pescoço/Navalha no bolso/Eu passo
gingando/Provoco e desafio/Eu tenho orgulho/Em ser tão vadio”),
que muito se assemelhava a ele próprio, conhecido freqüentador
dos redutos da malandragem carioca, presença habitual nas
zonas de baixo meretrício, ao lado de figuras conhecidas
pela polícia. Em inesperada resposta, Noel Rosa, o já
famoso sambista da Vila Isabel, conhecido por cantar a malandragem
em versos de exaltação, compõe “Rapaz
folgado” (“Deixa de arrastar o seu tamanco / Que tamanco
nunca foi sandália / Tira do pescoço o lenço
branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te
atrapalha”). Além de descaracterizar o malandro desenhado
por Batista, Noel parte para o ataque pessoal: “Proponho ao
povo civilizado/Não te chamar de malandro/E sim de rapaz
folgado”. Assim dá-se início a um embate musical
que se desenrolaria pelos meses seguintes, para a felicidade da
música popular brasileira. Batista critica o rival em “O
Mocinho da Vila” e ganha de troco a genial "Feitiço
da Vila", que, por sua vez, é retrucada com “Conversa
Fiada”, um grande samba de Wilson Batista, sem dúvida,
mas com resposta arrebatadora: “Palpite infeliz”, um
grande sucesso de Noel Rosa, no qual exalta sua Vila e traz em sua
defesa os grandes redutos do samba carioca, tirando crédito
da crítica do rival. Batista não se dá por
derrotado e lança “Frankenstein da Vila”, em
que critica a feiúra do poeta da Vila, em função
do defeito físico no rosto. Elegantemente, Noel não
responde e termina o polêmico desafio em posição
mais honrosa que o infeliz opositor. As músicas produzidas
pelos dois polemistas neste desafio foram reunidas pela Odeon em
1956 em um álbum chamado Polêmica, com interpretações
de Roberto Paiva e Francisco Egídio.
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| Wilson Batista |
No fundo o estímulo para a guerra não
partira da visível controvérsia entre malandragem
e vadiagem. Sabe-se que ambos eram malandros de carteirinha, cada
um a sua maneira, e só poderiam brigar por um único
motivo: mulher. Batista teria roubado das garras de Noel o coração
de uma moça, supostamente a dançarina de cabaré
Ceci, que, mais tarde, seria vista nos braços de Mário
Lago (ele mesmo, o simpático “Dr. Molina” de
Barriga de Aluguel e compositor da famosa canção
machista “Ai, que saudade da Amélia”). Resumo
da ópera: os dois “bambas” tiraram uma casquinha
da desfrutável Ceci, produziram grandes sambas e, por fim,
fizeram as pazes, tornando-se amigos. Eis que imperou a malandragem,
desfilando em meio à mistura perfeita que sempre a embalou:
Samba e Amor, aliás, nome da canção de Chico
Buarque que bem poderia ser uma Ode à Malandragem. Afinal,
o que representa melhor o malandro do que o sujeito que faz “samba
e amor até mais tarde e tem muito sono de manhã”?

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