| AÇÚCAR E DINHEIRO
A melosa novela Marisol mostrou
que Silvio Santos não erra a mão ao apostar nas tramas
mexicanas
por Laura
de Carvalho (laurebas@yahoo.com)
 uatro
perucas e um cabelo natural depois, o lacrimoso drama televisivo
Marisol, apresentado pelo SBT, chegou ao fim na semana passada.
E como toda boa (ou não) novela mexicana, fechou as cortinas
com um final mais do que feliz: o mocinho com a mocinha, festa,
crianças e declarações de amor.
A disparatada narrativa da vida da florista que vira
fotógrafa, que vira empresária, que vira enfermeira
e que volta a ser empresária não conseguiu convencer
o espectador de sua verossimilhança. As interpretações
eram operescas, exageradas, beirando o mesmo ridículo pelo
qual enveredou a história. Mas a média de 17 pontos
de audiência com picos de 24 em horário nobre, em pleno
embate com a produzidíssima Esperança, provou
que “seu” Silvio não erra a mão.
Marisol, a brasileira, é uma refilmagem
de Marisol, a chicana, fábula produzida pela Televisa,
a maior rede de televisão do México. O Homem do Baú
busca, mais do que a grande fatia de audiência, o retorno
– rápido – de seu investimento. E as tramas mexicanas
são pródigas nisso.
Sem
nenhum padrão de qualidade, as novelas mexicanas são
produzidas em escala industrial. A cada ano, enquanto a TV Globo
produz seis novelas, a Televisa “expele” 16. Os cenários
são construídos em tempo recorde, às vezes
em papelão, e os atores não têm tempo para decorar
as falas, que são sopradas por um ponto eletrônico.
Silvio Santos seguiu a fórmula à risca. Com isso,
as mexicanas do SBT não dão pontos estrondosos de
Ibope, mas dão lucro a um custo baixíssimo: um único
capítulo de uma novela global em horário nobre custa
mais do que toda a produção de Marisol.
Para assegurar o êxito de um programa medíocre
ao extremo, as tramas mexicanas seguem o padrão básico-clichê
dos dramalhões: são moralizantes, sentimentais e otimistas,
sensibilizando a audiência com as imagens arquetípicas
do bem e mal, amor e ódio, felicidade e tristeza. A mesma
fórmula usada nos folhetins femininos, desde que Capricho
ainda era revista de fotonovela.
Marisol seguiu a receita do bolo à
perfeição. A personagem título é uma
mocinha pobre, órfã, com um grande trauma de infância,
que sofre com um namorado mau. O tom rocambolesco domina a história
desde o início. Ela passa por duas tentativas de assassinato,
muda de nome, casa, fica rica, fica pobre, tem o filho raptado,
adota uma filha, o marido fica 18 anos preso, o filho retorna, o
filho fica paraplégico, adota mais uma filha, a primeira
filha morre, a segunda filha desaparece, não necessariamente
nessa ordem.
Com
uma bondade absolutamente inaceitável, que chega a irritar
o telespectador, Marisol a tudo e a todos perdoa. Ao final, o amor
triunfa e todos são felizes para sempre. É o samba
do crioulo doido com final feliz. Claro, feliz também para
os produtores que, sem precisar lançar mão de muito
esforço, asseguram assim a audiência do folhetim e
o tão almejado (grande) retorno do (pouco) dinheiro investido.
Interessaria ainda discutir a qualidade das novelas
produzidas pela Globo e pela Televisa, mas ao fim e ao cabo todas
se resumem a um produto de pretensões bem mais comerciais
do que artísticas. E nisso a Televisa leva vantagem: as historietas
açucaradas da emissora mexicana, vendidas para mais de 150
países, são uma de suas maiores fontes de recursos.
Para a Globo, a exportação de novelas continua sendo
apenas uma grande vitrine que não dá retorno. Uma
derrota quase vexatória para a tevê dos Marinho. 
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