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14 a 27 de novembro de 2002


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AÇÚCAR E DINHEIRO
A melosa novela Marisol mostrou que Silvio Santos não erra a mão ao apostar nas tramas mexicanas

por Laura de Carvalho (laurebas@yahoo.com)

uatro perucas e um cabelo natural depois, o lacrimoso drama televisivo Marisol, apresentado pelo SBT, chegou ao fim na semana passada. E como toda boa (ou não) novela mexicana, fechou as cortinas com um final mais do que feliz: o mocinho com a mocinha, festa, crianças e declarações de amor.

A disparatada narrativa da vida da florista que vira fotógrafa, que vira empresária, que vira enfermeira e que volta a ser empresária não conseguiu convencer o espectador de sua verossimilhança. As interpretações eram operescas, exageradas, beirando o mesmo ridículo pelo qual enveredou a história. Mas a média de 17 pontos de audiência com picos de 24 em horário nobre, em pleno embate com a produzidíssima Esperança, provou que “seu” Silvio não erra a mão.

Marisol, a brasileira, é uma refilmagem de Marisol, a chicana, fábula produzida pela Televisa, a maior rede de televisão do México. O Homem do Baú busca, mais do que a grande fatia de audiência, o retorno – rápido – de seu investimento. E as tramas mexicanas são pródigas nisso.

Sem nenhum padrão de qualidade, as novelas mexicanas são produzidas em escala industrial. A cada ano, enquanto a TV Globo produz seis novelas, a Televisa “expele” 16. Os cenários são construídos em tempo recorde, às vezes em papelão, e os atores não têm tempo para decorar as falas, que são sopradas por um ponto eletrônico. Silvio Santos seguiu a fórmula à risca. Com isso, as mexicanas do SBT não dão pontos estrondosos de Ibope, mas dão lucro a um custo baixíssimo: um único capítulo de uma novela global em horário nobre custa mais do que toda a produção de Marisol.

Para assegurar o êxito de um programa medíocre ao extremo, as tramas mexicanas seguem o padrão básico-clichê dos dramalhões: são moralizantes, sentimentais e otimistas, sensibilizando a audiência com as imagens arquetípicas do bem e mal, amor e ódio, felicidade e tristeza. A mesma fórmula usada nos folhetins femininos, desde que Capricho ainda era revista de fotonovela.

Marisol seguiu a receita do bolo à perfeição. A personagem título é uma mocinha pobre, órfã, com um grande trauma de infância, que sofre com um namorado mau. O tom rocambolesco domina a história desde o início. Ela passa por duas tentativas de assassinato, muda de nome, casa, fica rica, fica pobre, tem o filho raptado, adota uma filha, o marido fica 18 anos preso, o filho retorna, o filho fica paraplégico, adota mais uma filha, a primeira filha morre, a segunda filha desaparece, não necessariamente nessa ordem.

Com uma bondade absolutamente inaceitável, que chega a irritar o telespectador, Marisol a tudo e a todos perdoa. Ao final, o amor triunfa e todos são felizes para sempre. É o samba do crioulo doido com final feliz. Claro, feliz também para os produtores que, sem precisar lançar mão de muito esforço, asseguram assim a audiência do folhetim e o tão almejado (grande) retorno do (pouco) dinheiro investido.

Interessaria ainda discutir a qualidade das novelas produzidas pela Globo e pela Televisa, mas ao fim e ao cabo todas se resumem a um produto de pretensões bem mais comerciais do que artísticas. E nisso a Televisa leva vantagem: as historietas açucaradas da emissora mexicana, vendidas para mais de 150 países, são uma de suas maiores fontes de recursos. Para a Globo, a exportação de novelas continua sendo apenas uma grande vitrine que não dá retorno. Uma derrota quase vexatória para a tevê dos Marinho.