| O “MOZART MULATO”
Padre José Maurício
Nunes Garcia foi o maior nome da música erudita dos tempos
do Brasil Colônia
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br)
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| Padre José Maurício Nunes
Garcia |
ilho
de pais mulatos, um alfaiate e uma filha de escravos, José
Maurício Nunes Garcia (1767-1830) teve sua vida marcada por
uma série de contradições (era religioso, mas
teve seis filhos, era negro, mas se notabilizou numa sociedade escravocrata)
que refletem as aceleradas mudanças políticas por
que passou o Brasil em sua época. Autodidata, aprendeu sozinho
a planger uma viola, e gostava de imitar os cantos dos escravos
que subiam e desciam a ladeira Rua da Vala, onde vivia Assistia
ao coro da igreja, mas não entendia o Latim, apenas repetia
as orações que lhe ensinavam. Foi com os Jesuítas
que progrediu nos seus (parcos) estudos musicais. Ele sabia que
essa era a sua vocação, mas a verdade era uma só:
como músico, não poderia viver. Já com dezesseis
anos e sob a influência do que via e vivia, José Maurício
compôs um tema sacro, uma antífona, entre outras tantas
que escreveria por anos a fio. Decidido a seguir carreira, resolveu
virar padre. Além do fato dele ser um homem religioso, adotar
a batina surgia para os jovens de seu tempo como uma forma de subir
na vida.
Para ser padre, ele precisaria de um dote. Um vizinho,
Tomás Gonçalves, lhe deu uma casa de presente. Na
qualidade de dote, a moradia foi entregue à Igreja. Enquanto
se preparava para receber as ordens, Maurício lecionava para
jovens humildes. Aliás, como eles, ele também era
mais um humilde. Simples, pouco ou nada entendia de política.
Entre dois anos, de 1792 e 1794, estudou Humanidades com o poeta
Silva Alvarenga. Foi por conta da sua “alienação”
que ele não entendeu por que, de repente, seu professor fora
preso. Alvarenga era um dos Inconfidentes, acusado de conspirar
contra a Coroa Portuguesa, junto com Cláudio Manoel da Costa
e Tiradentes. Ao contrário da intelectualidade da época,
o padre mulato não se sensibilizou com as lutas pela Independência.
Dócil, não fez de sua arte uma arma de combate, nem
faria, já que a música era a sua vocação,
e mais do que isso, para ele, sua vocação era servir
a Deus, antes de tudo.
Como os músicos daquele tempo, escrevia partituras
ao sabor dos pedidos que lhe eram feitos. Sua única reclamação
era a falta de músicos de qualidade para interpretar as suas
obras. Porém, a chegada da Família Real, em 1808,
iria mudar a vida de José Maurício. Dom João
trouxe vários artistas para o Brasil, incluindo gente como
Sigismund Neumkomm e Marcos Portugal, dois músicos de ofício.
Ao conhecer o José Maurício, o Monarca decidiu lhe
oferecer também um polpudo mecenato. Admirado pelo Príncipe-Regente,
Maurício se tornou freqüentador do Palácio e
seu trabalho era bastante facilitado pelas verbas que se destinaram
à Corte Real, a qual passou a reunir centenas de cantores
e instrumentistas, a maioria “importados” por D. João.
Contudo,
mesmo a fama crescente não conseguia demover o seu espírito
simples. Ele estava satisfeito com a nova posição,
mas ao contrário de um Vivaldi, nunca quis promover de maneira
ostensiva a sua música; sonhava talvez em poder, um dia,
apresentar seu trabalho para o público europeu. A verdade
é que o padre ainda trazia em si a sua missão religiosa
antes de tudo, sem contar as muitas misérias interiores de
um homem provinciano e de índole humilde. Acostumara-se a
ser apenas um músico capaz, embora cliente dos poderosos,
e não se julgava capaz de ombrear com gente como Marcos Portugal,
cosmopolita e mestre reconhecido nas principais cortes da Europa.
Por sinal, as relações entre Marcos
e José Maurício eram um tanto formais, talvez fruto
da natural competição que os envolvia, além
da distância cultural entre os dois. Embora seja difícil
aceitar hoje o mito — fácil de transpor — que
faz do padre um "Mozart mulato", vítima das intrigas
do “Salieri lusitano” o músico português,
por muito tempo se pensava na relação de ambos mais
ou menos nesse sentido. Muitos acreditam que a idéia do confronto
Mozart-Salieri não corresponde à realidade histórica
(que ficou conhecida com a “filmobiografia” que Milos
Forman fez do compositor austríaco), mas que coube como uma
luva para exemplificar-los. Apesar disto, não restam dúvidas
de que, com a chegada do colega português, o brasileiro ficou
em segundo plano. Mesmo assim, a influência do seu “rival
de além-mar” permitiu ao autor brasileiro conhecer
o que havia de moderno em termos de composição musical,
o fim do Classicismo e o surgimento do Romantismo europeu. Porém,
enquanto na Europa os compositores buscavam dar vazão a um
individualismo latente e priorizar o sentimento à razão,
aqui ainda servia a moda antiga: como era de costume — oriundo
dos tempos de Heandel ou Haydn, compunha-se especialmente para ocasiões
especiais, ficando estes trabalhos executados apenas uma vez. Como
as partituras não eram publicadas comercialmente, caíam
logo no esquecimento.
Com a Revolução do Porto, em 1820,
os novos ventos do Liberalismo forçaram a Corte a embarcar
de volta para Portugal. Com a debandada, a vida intelectual do Rio
de Janeiro ficou reduzida a quase nada. José Maurício
perdia os amigos e o auxílio amigo de Dom João VI.
Ele continuava regendo e compondo, porém em ritmo mais lento:
à medida em que os pedidos de partituras diminuíam,
ele escrevia cada vez menos música religiosa, ficando apenas
com as modinhas. O progressivo afastamento fez com que o ilustre
compositor real passasse a ser ignorado pelos governantes. De repente,
com 54 anos, o Padre Maurício se via quase na estaca zero:
seu salário foi reduzido pela metade. Mesmo assim, ele se
resignava; encontrou ânimo para que seus honorários
lhe fossem plenamente restituídos, prosseguir nas aulas e
no trabalho na Capela Real e na sua última obra de vulto
— quem sabe sua obra-prima: a “Missa de Santa Cecília”,
apresentada em 1826. Com o tempo, a memória lhe começa
a faltar. Certa vez, já no fim da vida, ao ouvir um órgão
a tocar, ele perguntou a um discípulo que o acompanhava
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| Rua das Marrecas, conhecida na época
como Rua Bellas Noites, onde Pe. José Maurício
dava aulas |
— Meu filho, de quem é essa música?
— É sua, caro mestre! — respondeu
o rapaz.
Foi então que ele percebeu. Aquela melodia,
tão antiga quanto bonita, já não lhe pertencia
mais. Era de um jovem mulato, que vivia sob o brilho da Corte de
Dom João e que era admirado por todos, naqueles saudosos
tempos do “rei velho”, como costumava se referir ao
antigo monarca. Como aconteceu com Wolfgang Amadeus Mozart —
que foi enterrado numa vala comum — e como não poderia
deixar de ser, não se sabe exatamente onde ele foi enterrado.
Segundo a sua biógrafa, Cleofe Person de Mattos, ele teria
sido enterrado na Igreja do Sacramento, na Av. Passos, no Rio de
Janeiro, mas a sua sepultura, ainda hoje, é de difícil
identificação. »»
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