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14 a 27 de novembro de 2002


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O “MOZART MULATO”
Padre José Maurício Nunes Garcia foi o maior nome da música erudita dos tempos do Brasil Colônia

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

 Padre José Maurício Nunes Garcia

ilho de pais mulatos, um alfaiate e uma filha de escravos, José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) teve sua vida marcada por uma série de contradições (era religioso, mas teve seis filhos, era negro, mas se notabilizou numa sociedade escravocrata) que refletem as aceleradas mudanças políticas por que passou o Brasil em sua época. Autodidata, aprendeu sozinho a planger uma viola, e gostava de imitar os cantos dos escravos que subiam e desciam a ladeira Rua da Vala, onde vivia Assistia ao coro da igreja, mas não entendia o Latim, apenas repetia as orações que lhe ensinavam. Foi com os Jesuítas que progrediu nos seus (parcos) estudos musicais. Ele sabia que essa era a sua vocação, mas a verdade era uma só: como músico, não poderia viver. Já com dezesseis anos e sob a influência do que via e vivia, José Maurício compôs um tema sacro, uma antífona, entre outras tantas que escreveria por anos a fio. Decidido a seguir carreira, resolveu virar padre. Além do fato dele ser um homem religioso, adotar a batina surgia para os jovens de seu tempo como uma forma de subir na vida.

Para ser padre, ele precisaria de um dote. Um vizinho, Tomás Gonçalves, lhe deu uma casa de presente. Na qualidade de dote, a moradia foi entregue à Igreja. Enquanto se preparava para receber as ordens, Maurício lecionava para jovens humildes. Aliás, como eles, ele também era mais um humilde. Simples, pouco ou nada entendia de política. Entre dois anos, de 1792 e 1794, estudou Humanidades com o poeta Silva Alvarenga. Foi por conta da sua “alienação” que ele não entendeu por que, de repente, seu professor fora preso. Alvarenga era um dos Inconfidentes, acusado de conspirar contra a Coroa Portuguesa, junto com Cláudio Manoel da Costa e Tiradentes. Ao contrário da intelectualidade da época, o padre mulato não se sensibilizou com as lutas pela Independência. Dócil, não fez de sua arte uma arma de combate, nem faria, já que a música era a sua vocação, e mais do que isso, para ele, sua vocação era servir a Deus, antes de tudo.

Como os músicos daquele tempo, escrevia partituras ao sabor dos pedidos que lhe eram feitos. Sua única reclamação era a falta de músicos de qualidade para interpretar as suas obras. Porém, a chegada da Família Real, em 1808, iria mudar a vida de José Maurício. Dom João trouxe vários artistas para o Brasil, incluindo gente como Sigismund Neumkomm e Marcos Portugal, dois músicos de ofício. Ao conhecer o José Maurício, o Monarca decidiu lhe oferecer também um polpudo mecenato. Admirado pelo Príncipe-Regente, Maurício se tornou freqüentador do Palácio e seu trabalho era bastante facilitado pelas verbas que se destinaram à Corte Real, a qual passou a reunir centenas de cantores e instrumentistas, a maioria “importados” por D. João.

Contudo, mesmo a fama crescente não conseguia demover o seu espírito simples. Ele estava satisfeito com a nova posição, mas ao contrário de um Vivaldi, nunca quis promover de maneira ostensiva a sua música; sonhava talvez em poder, um dia, apresentar seu trabalho para o público europeu. A verdade é que o padre ainda trazia em si a sua missão religiosa antes de tudo, sem contar as muitas misérias interiores de um homem provinciano e de índole humilde. Acostumara-se a ser apenas um músico capaz, embora cliente dos poderosos, e não se julgava capaz de ombrear com gente como Marcos Portugal, cosmopolita e mestre reconhecido nas principais cortes da Europa.

Por sinal, as relações entre Marcos e José Maurício eram um tanto formais, talvez fruto da natural competição que os envolvia, além da distância cultural entre os dois. Embora seja difícil aceitar hoje o mito — fácil de transpor — que faz do padre um "Mozart mulato", vítima das intrigas do “Salieri lusitano” o músico português, por muito tempo se pensava na relação de ambos mais ou menos nesse sentido. Muitos acreditam que a idéia do confronto Mozart-Salieri não corresponde à realidade histórica (que ficou conhecida com a “filmobiografia” que Milos Forman fez do compositor austríaco), mas que coube como uma luva para exemplificar-los. Apesar disto, não restam dúvidas de que, com a chegada do colega português, o brasileiro ficou em segundo plano. Mesmo assim, a influência do seu “rival de além-mar” permitiu ao autor brasileiro conhecer o que havia de moderno em termos de composição musical, o fim do Classicismo e o surgimento do Romantismo europeu. Porém, enquanto na Europa os compositores buscavam dar vazão a um individualismo latente e priorizar o sentimento à razão, aqui ainda servia a moda antiga: como era de costume — oriundo dos tempos de Heandel ou Haydn, compunha-se especialmente para ocasiões especiais, ficando estes trabalhos executados apenas uma vez. Como as partituras não eram publicadas comercialmente, caíam logo no esquecimento.

Com a Revolução do Porto, em 1820, os novos ventos do Liberalismo forçaram a Corte a embarcar de volta para Portugal. Com a debandada, a vida intelectual do Rio de Janeiro ficou reduzida a quase nada. José Maurício perdia os amigos e o auxílio amigo de Dom João VI. Ele continuava regendo e compondo, porém em ritmo mais lento: à medida em que os pedidos de partituras diminuíam, ele escrevia cada vez menos música religiosa, ficando apenas com as modinhas. O progressivo afastamento fez com que o ilustre compositor real passasse a ser ignorado pelos governantes. De repente, com 54 anos, o Padre Maurício se via quase na estaca zero: seu salário foi reduzido pela metade. Mesmo assim, ele se resignava; encontrou ânimo para que seus honorários lhe fossem plenamente restituídos, prosseguir nas aulas e no trabalho na Capela Real e na sua última obra de vulto — quem sabe sua obra-prima: a “Missa de Santa Cecília”, apresentada em 1826. Com o tempo, a memória lhe começa a faltar. Certa vez, já no fim da vida, ao ouvir um órgão a tocar, ele perguntou a um discípulo que o acompanhava

 Rua das Marrecas, conhecida na época como Rua Bellas Noites, onde Pe. José Maurício dava aulas

— Meu filho, de quem é essa música?

— É sua, caro mestre! — respondeu o rapaz.

Foi então que ele percebeu. Aquela melodia, tão antiga quanto bonita, já não lhe pertencia mais. Era de um jovem mulato, que vivia sob o brilho da Corte de Dom João e que era admirado por todos, naqueles saudosos tempos do “rei velho”, como costumava se referir ao antigo monarca. Como aconteceu com Wolfgang Amadeus Mozart — que foi enterrado numa vala comum — e como não poderia deixar de ser, não se sabe exatamente onde ele foi enterrado. Segundo a sua biógrafa, Cleofe Person de Mattos, ele teria sido enterrado na Igreja do Sacramento, na Av. Passos, no Rio de Janeiro, mas a sua sepultura, ainda hoje, é de difícil identificação. »»