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14 a 27 de novembro de 2002


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O COMPOSITOR REDESCOBERTO
Gravações modernas revivem o passado do gênio e mostram sua importância na cultura brasileira

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

descoberta do passado musical colonial da América portuguesa é um fato recente. Até a década de 1940, a maior parte da produção do período restava esquecida em arquivos particulares ou em Bibliotecas Públicas, exilada do repertório de grandes orquestras. A partir de 1944, estudiosos começaram a descobrir composições do século 18 em acervos de São Paulo e Minas Gerais. Segundo uma concepção moderna, dois estilos contraditórios conviveram: um antigo (obras com técnicas composicionais da renascença européia, ou seja, do século 16, mas produzidas ou copiadas nos séculos 18 e 19) e um moderno, que utilizou técnicas originárias da ópera e da música profana. Não era de se estranhar: a produção musical sacra tinha uma função específica e estava subordinada ao cânone da Igreja.

Já a escolha entre “antigo” ou “moderno” não era opção estética ou de escola, mas sim uma forma de respeito às prescrições litúrgicas. O desconhecimento da sua obra ou o desinteresse em executar música religiosa, a obra José Maurício Nunes Garcia viveu esquecida por décadas. Mencionado no "The New Grove Dictionary of Music and Musicians”, como o “compositor brasileiro mais importante de sua época", o “Padre Mulato” (alusão ao “Padre Rosso”, António Vivaldi) foi — e ainda é — injustiçado em sua própria pátria. José Maurício viveu 62 anos num Brasil Colonial. Catalogou-se cerca de quatrocentas obras do compositor, das quais menos de poucas chegaram a ser registradas em disco — a maior parte delas foi gravada a partir da década de 80.

Nesse sentido, cabe ressaltar o inestimável trabalho da regente e musicóloga carioca Cleofe Person de Mattos (1913-2002), autora do "Catálogo Temático de Obras do Padre José Maurício Nunes Garcia" (1970) e de “José Maurício Nunes Garcia — Biografia” (Fundação Biblioteca Nacional, 1997). A maior parte de suas composições foi, justamente, de cunho religioso e coral. Aproximadamente vinte missas, quinze credos, doze antífonas, trinta graduais, trinta e oito hinos. Dez matinas e ofícios de defuntos, sete “Te Deum”, seis novenas, vários salmos, vésperas, ladainhas, entre outros.

O mestre carioca também compôs música profana, boa parte delas modinhas e volteios populares, que era a música do povo. Segundo o historiador Luiz Roberto Lopez, o apuro e o equilíbrio de José Maurício se combina com a expressividade dramática, com uma certa candura lírica e ingênua, dosando a sisudez européia com o clima “modinheiro”, ou seja, uma variação nativa da música européia — que naturalmente, não tinha relação com a moda que vicejava na Europa de então, o estilo brilhante de Gluck ou Rossini, este muito em voga na década de 1810. Seu estilo era mais “hermético” com relação aos modismos de então, certamente fruto do anacronismo musical de um compositor que tentava relacionar a sua tradição, oriunda da música brasileira que ele herdou do berço com a rigidez formal da música sacra e como estilo “antigo”, típico da Renascença.

Um exemplo da “brasilidade” a qual Cleofe Person se refere pode ser encontrada na “Missa dos Defuntos”, datada de 1809, cuja obra foi o primeiro registro fonográfico comercial das obras de José Maurício, gravado em 1971, especialmente para a coleção “Grandes Compositores da História Universal”. Cantada em Latim, essa missa foi construída quase que totalmente com melodias de sabor popular ou palaciano, feita com técnicas menos rígidas que o cânone europeu, e de fácil assimilação ao ouvinte comum. Para o historiador da música, Maurício Monteiro, essa concessão ao gosto do público e o “caráter palaciano” de obras dessa fase são reflexo das transformações ocorridas no Brasil a partir da chegada da Família Real, no ano anterior. “ [A partir de então] forma-se aqui uma classe colonial urbana e cortesã", diz Monteiro. “A grande ocasião social não é mais a missa, mas o teatro. O rei gosta de ópera e funda o Teatro Régio, como réplica do Teatro São Carlos, de Lisboa”.


DISCOGRAFIA EM CD

Em formato digital, existem em catálogo pelo menos vinte e duas edições de obras do Padre José Maurício Nunes Garcia, a maior parte são de gravações inéditas em disco até então. Em geral, as coleções são pouco conhecidas do grande público, com exceção do Acervo Funarte que, a partir de 1996. tem lançado no mercado vários títulos voltados à memória da Música Popular Brasileira, revisitando autores eruditos e populares. Do arquivo da Funarte, destacam-se a Missa de Santa Cecília, com a Associação de Canto Coral, regência de Edoardo de Guarnieri, e as Matinas de Finados com a Associação de Canto Coral, sob a regência de Cleofe Person de Mattos. Em 1998, o maestro britânico radicado no Brasil, Graham Griffiths, gravou em CD pela Paulus o Officium 1816, com a Camerata Novo Horizonte de São Paulo.

A Eldorado dedicou dois volumes da História da Música Brasileira à obra do Padre Maurício, com o coro Vox Brasiliensis, regido por Ricardo Kanji. O primeiro volume inclui a antífona “Tota Pulchra Est Maria”, e os graduais “Dies Sanctificatus”, e “Justus Cum Ceciderit”. O volume dois inclui a modinha “Beijo a Mão Que Me Condena”, duas lições do “Método de Pianoforte” (estudos para piano) e as aberturas “Zemira e Abertura em Ré”. A gravadora Jade lançou, em 1987, a Missa de Nossa Senhora do Carmo, e as Matinas Do Natal com a Associação de Canto Coral, regência de Henrique Morelenbaum. Outro destaque são as Novenas, regência de Ernani Aguiar, com o Coral e Orquestra Porto Alegre. Em formato digital, existem em catálogo também gravações de selos internacionais. Um exemplo é a Missa Pastoril, (K617, França) com o Ensemble Turicum, regência de Luiz Alves da Silva e Mathias Weibel.