| O COMPOSITOR REDESCOBERTO
Gravações modernas revivem
o passado do gênio e mostram sua importância na cultura
brasileira
por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

descoberta do passado musical colonial da América portuguesa
é um fato recente. Até a década de 1940, a
maior parte da produção do período restava
esquecida em arquivos particulares ou em Bibliotecas Públicas,
exilada do repertório de grandes orquestras. A partir de
1944, estudiosos começaram a descobrir composições
do século 18 em acervos de São Paulo e Minas Gerais.
Segundo uma concepção moderna, dois estilos contraditórios
conviveram: um antigo (obras com técnicas composicionais
da renascença européia, ou seja, do século
16, mas produzidas ou copiadas nos séculos 18 e 19) e um
moderno, que utilizou técnicas originárias da ópera
e da música profana. Não era de se estranhar: a produção
musical sacra tinha uma função específica e
estava subordinada ao cânone da Igreja.
Já a escolha entre “antigo” ou
“moderno” não era opção estética
ou de escola, mas sim uma forma de respeito às prescrições
litúrgicas. O desconhecimento da sua obra ou o desinteresse
em executar música religiosa, a obra José Maurício
Nunes Garcia viveu esquecida por décadas. Mencionado no "The
New Grove Dictionary of Music and Musicians”, como o “compositor
brasileiro mais importante de sua época", o “Padre
Mulato” (alusão ao “Padre Rosso”, António
Vivaldi) foi — e ainda é — injustiçado
em sua própria pátria. José Maurício
viveu 62 anos num Brasil Colonial. Catalogou-se cerca de quatrocentas
obras do compositor, das quais menos de poucas chegaram a ser registradas
em disco — a maior parte delas foi gravada a partir da década
de 80.
Nesse sentido, cabe ressaltar o inestimável
trabalho da regente e musicóloga carioca Cleofe Person de
Mattos (1913-2002), autora do "Catálogo Temático
de Obras do Padre José Maurício Nunes Garcia"
(1970) e de “José Maurício Nunes Garcia —
Biografia” (Fundação Biblioteca Nacional, 1997).
A maior parte de suas composições foi, justamente,
de cunho religioso e coral. Aproximadamente vinte missas, quinze
credos, doze antífonas, trinta graduais, trinta e oito hinos.
Dez matinas e ofícios de defuntos, sete “Te Deum”,
seis novenas, vários salmos, vésperas, ladainhas,
entre outros.
O mestre carioca também compôs música
profana, boa parte delas modinhas e volteios populares, que era
a música do povo. Segundo o historiador Luiz Roberto Lopez,
o apuro e o equilíbrio de José Maurício se
combina com a expressividade dramática, com uma certa candura
lírica e ingênua, dosando a sisudez européia
com o clima “modinheiro”, ou seja, uma variação
nativa da música européia — que naturalmente,
não tinha relação com a moda que vicejava na
Europa de então, o estilo brilhante de Gluck ou Rossini,
este muito em voga na década de 1810. Seu estilo era mais
“hermético” com relação aos modismos
de então, certamente fruto do anacronismo musical de um compositor
que tentava relacionar a sua tradição, oriunda da
música brasileira que ele herdou do berço com a rigidez
formal da música sacra e como estilo “antigo”,
típico da Renascença.
Um
exemplo da “brasilidade” a qual Cleofe Person se refere
pode ser encontrada na “Missa dos Defuntos”, datada
de 1809, cuja obra foi o primeiro registro fonográfico comercial
das obras de José Maurício, gravado em 1971, especialmente
para a coleção “Grandes Compositores da História
Universal”. Cantada em Latim, essa missa foi construída
quase que totalmente com melodias de sabor popular ou palaciano,
feita com técnicas menos rígidas que o cânone
europeu, e de fácil assimilação ao ouvinte
comum. Para o historiador da música, Maurício Monteiro,
essa concessão ao gosto do público e o “caráter
palaciano” de obras dessa fase são reflexo das transformações
ocorridas no Brasil a partir da chegada da Família Real,
no ano anterior. “ [A partir de então] forma-se aqui
uma classe colonial urbana e cortesã", diz Monteiro.
“A grande ocasião social não é mais a
missa, mas o teatro. O rei gosta de ópera e funda o Teatro
Régio, como réplica do Teatro São Carlos, de
Lisboa”.
DISCOGRAFIA EM CD
Em formato digital, existem em catálogo pelo
menos vinte e duas edições de obras do Padre José
Maurício Nunes Garcia, a maior parte são de gravações
inéditas em disco até então. Em geral, as coleções
são pouco conhecidas do grande público, com exceção
do Acervo Funarte que, a partir de 1996. tem lançado
no mercado vários títulos voltados à memória
da Música Popular Brasileira, revisitando autores eruditos
e populares. Do arquivo da Funarte, destacam-se a Missa de Santa
Cecília, com a Associação de Canto Coral,
regência de Edoardo de Guarnieri, e as Matinas de Finados
com a Associação de Canto Coral, sob a regência
de Cleofe Person de Mattos. Em 1998, o maestro britânico radicado
no Brasil, Graham Griffiths, gravou em CD pela Paulus o Officium
1816, com a Camerata Novo Horizonte de São Paulo.
A Eldorado dedicou dois volumes da História
da Música Brasileira à obra do Padre Maurício,
com o coro Vox Brasiliensis, regido por Ricardo Kanji. O primeiro
volume inclui a antífona “Tota Pulchra Est Maria”,
e os graduais “Dies Sanctificatus”, e “Justus
Cum Ceciderit”. O volume dois inclui a modinha “Beijo
a Mão Que Me Condena”, duas lições do
“Método de Pianoforte” (estudos para piano) e
as aberturas “Zemira e Abertura em Ré”. A gravadora
Jade lançou, em 1987, a Missa de Nossa Senhora do Carmo,
e as Matinas Do Natal com a Associação de Canto
Coral, regência de Henrique Morelenbaum. Outro destaque são
as Novenas, regência de Ernani Aguiar, com o Coral
e Orquestra Porto Alegre. Em formato digital, existem em catálogo
também gravações de selos internacionais. Um
exemplo é a Missa Pastoril, (K617, França)
com o Ensemble Turicum, regência de Luiz Alves da Silva e
Mathias Weibel.
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